Segunda-feira, 15 de Dezembro de 2025
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Vila RealSeca afeta a pecuária em Trás-os-Montes

Seca afeta a pecuária em Trás-os-Montes

Mais de seis mil explorações pecuárias transmontanas estão a ser afetadas com a seca severa que o país atravessa. Há produtores pecuários sem dinheiro para comprar rações e alguns rebanhos começam a passar fome. Enquanto, as zonas de pastagem “morrem à sede”, a palha vinda de Espanha está a ser a tábua de salvação dos animais em muitos casos. A agricultura de “sequeiro” também sofre as consequências da falta de chuva, cujos efeitos podem ser nefastos na sobrevivência da atividade.

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A persistência de um inverno seco está a levantar muitas preocupações junto do setor agropecuário transmontano. Gado sem pastagens, linhas de água sem caudal, culturas mirradas e solos sem humidade, definem o que se está a passar na região transmontana. Perante isto, os agricultores e as associações pedem ajuda ao Governo, que ainda esta semana deve avançar com algumas medidas para minorar os efeitos destas condições climatéricas.

Em Mirandela já está marcada para o início de março uma concentração de agricultores que vão clamar por iniciativas compensatórias. A Confederação Nacional de Agricultura, CNA, tem andado no terreno a auscultar e a fazer o levantamento da situação, ouvindo produtores pecuários, pastores e agricultores.

O seu dirigente nacional, Armando de Carvalho, abordou, ao Nosso Jornal, o cenário atual da região. “A CNA e os agricultores estão de facto muito preocupados. É uma seca de vários meses e que vem associada a outros problemas que a agricultura regional e familiar está a atravessar. Indicia-se uma situação que pode ter consequências nefastas para o setor pecuário mas não só. Isto está a levar a recursos alternativos, já que as pastagens naturais estão completamente secas, uma vez que não houve humidade para se desenvolverem. Hoje, não temos os nossos lameiros verdejantes e estamos a recorrer a palha importada de Espanha, ou através de rações, e em alguns sítios já estão a recorrer água mecânica. Tudo isto traz um custo acrescido aos agricultores”.

O problema da falta de palha e o recurso à ração está a preocupar. “Uma coisa é ter pasto natural para dar aos animais, outra coisa é os pastos não fornecerem alimento suficiente. Há pastores que se queixam que não têm pastos nem dinheiro para recorrer à palha e à ração, o que é um drama”.

No distrito de Vila Real, os concelhos com mais dificuldades são os que têm a tradição de produção outono/inverno e que neste momento não produzem por causa da muita geada e não haver água nos solos. Ou seja, os concelhos mais afetados com a seca são Vila Pouca de Aguiar, Boticas, Montalegre, Mondim de Basto, Vila Real, Chaves e Valpaços. “Neste momento, temos pastores com alguma concentração de rebanhos e que precisam de uma área bastante grande para pastorear e a escassez de pasto está a criar um autêntico drama nas suas vidas”.

 

Medidas de apoio contra a seca

Perante este cenário, os agricultores exigem a adoção de quatro medidas de ajuda. Um apoio direcionado em função do efetivo (gado) que as pessoas têm, para ajudar o agricultor a suportar os tais custos suplementares. Por outro lado, pretendem um subsídio de gasóleo e eletricidade verde, e a redução das contribuições para a Segurança Social. “É a altura da ministra da Agricultura tomar as medidas que há muito tempo têm vindo a ser solicitadas. Como os combustíveis e a eletricidade estão muito caros, estes dois fatores condicionam a própria atividade. Já há muito tempo que nós reclamamos um aumento do benefício fiscal do gasóleo, cujo valor não aumenta há 10 ou 12 anos. Ainda na semana passada, a CNA esteve reunida e entende que há a necessidade do Ministério da Agricultura começar a monitorizar toda esta situação e tomar medidas no plano financeiro”, sublinhou Armando de Carvalho.

Não se prevê chuva para os próximos dias e a situação poderá ainda ficar mais complicada neste cenário. “Além de estarem afetadas as culturas de inverno, irremediavelmente também as culturas da primavera/verão irão sofrer as consequências da falta de precipitação”.

Entretanto, no horizonte perfila-se uma manifestação. “Para o princípio de março, estamos a preparar uma concentração em Mirandela para exigir medidas compensatórias para a seca, sanidade animal e efeitos da geada negra. Vamos tentar juntar os produtores de ovinos e caprinos de Vila Real e Bragança, com entrega de um documento ao diretor da Direção Regional de Agricultura a exigir do Ministério medidas de proteção das explorações.

 

Crise nas OPPS preocupa

O problema do atraso de pagamento às Organizações ligadas a sanidade animal, nomeadamente bovinos e caprinos, foi também abordado. “O que sabemos do Governo é que ainda deve uma parte de 2010, uma parte substancial de 2011 e não tem previsto no Orçamento de Estado verbas para 2012. Se o Governo não transfere as subvenções para as OPP’s, pode estar em causa a sanidade animal. O Governo poderá transferir esses encargos para os agricultores, mas na atual crise que estamos a atravessar é complicado haver mais esse encargo”, referiu Armando de Carvalho, que ainda deixou no ar um dado preocupante. “Há gente que não vacina todos os seus animais porque não tem dinheiro. Estamos a criar um problema de falência, uma exploração que tenha uma leucose que demora um ano, ano e meio quase dois anos, não pode adquirir nem vender, a não ser para o matadouro. Apesar de sermos a região do país com mais planos no âmbito da sanidade animal, continuamos a ter a maior taxa de brucelose nos pequenos ruminantes, portanto alguma coisa está mal”, concluiu.

Segundo apuramos, em 28 de julho de 2011, não contando de julho 2011 até fevereiro de 2012, só nesta zona, a Direção Regional do Norte apresentava um montante comprometido respeitante à intervenção sanitária de dois milhões trezentos e oito mil quatrocentos e setenta e seis euros.

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