Foi isso que aconteceu à Igreja logo nos primeiros anos. Os Apóstolos haviam recebido de Jesus orientações seguras, mas elas não desciam nem podiam descer aos pormenores do futuro. Enquanto viviam na Palestina, enquadravam-se na cultura hebraica: comiam segundo a tradição judaica, iam ao templo de Jerusalém, praticavam a circuncisão dos meninos, descansavam ao sábado reunindo-se depois em assembleia própria na noite do sábado para o dia seguinte. Com o anúncio da fé aos povos não judeus, essa paz quebrou-se: deviam eles sujeitar-se aos costumes hebraicos? Para ser cristão era preciso continuar a praticar o judaismo? E, se não, como manter unida uma Igreja com costumes tão diferentes?
2 – A questão era mais séria do que parecia. Apresentaram-se duas perspectivas chefiadas por Paulo e Tiago, ambos judeus cristãos. O primeiro era um judeu fervoroso nascido fora da Palestina, educado nas tradições judaicas mas, após a conversão, percebeu a novidade trazida por Jesus ressuscitado; o segundo era o bispo de Jerusalém, chamado Tiago Menor, nascido e criado entre judeus. Paulo defendia que as leis de Moisés tiveram uma função preparatória até à vinda de Jesus, mas cessaram com a sua vinda, devendo desaparecer; Tiago entendia que deviam continuar, pois havia entre elas uma continuidade.
Que fazer? O próprio Pedro tinha dúvidas. Para Paulo tudo era claro: se se mantivessem as leis judaicas e o seu valor religioso, a mensagem de Jesus seria uma espécie de seita dentro da religião judaica. Ora, continuava Paulo, Jesus apresentou-se como alguém superior a Moisés e a Abraão, revelara o mistério íntimo de Deus em três pessoas divinas e criara uma nova comunidade religiosa ou Igreja. Todo o judaísmo foi alterado: as Escrituras tinham uma leitura diferente do tradicional, a vocação do povo de Israel foi a de preparar o mundo para receber o Messias, e toda a sua história é ser o anúncio e a sombra do que veio a acontecer com Jesus. Por isso, se os cristãos não se libertassem da carga judaica, ficariam prisioneiros da lei de Moisés e Jesus não seria o Salvador mas um auxiliar de Moisés. Ora Jesus afirmara ser o «vinho novo» a pedir «odres novos», e não um vinho velho melhorado. E Paulo não cedia.
3 – Para estudar o problema, os Apóstolos reuniram-se em Jerusalém. Nessa assembleia, que ficou conhecida como o «concílio de Jerusalém», tomaram parte preponderante Paulo, acompanhado de Barnabé (um judeu de Chipre convertido), Tito (um cristão grego vindo do paganismo), Tiago Menor, João e Pedro (Act 14, 24-27: 15, 1-40; Gal 2, 1-3).
Depois de longa reflexão e examinadas as experiências feitas fora da Palestina, concordaram em três pontos: que os cristãos de raça judaica continuassem a praticar a circuncisão, e que os cristãos vindos do paganismo fossem dela dispensados; que todos respeitassem as proibições moisaicas sobre as relações sexuais entre parentes próximos (pais-filhos, irmãos-irmãs, tios-sobrinhos, padrasto/ madrasta-enteados, etc (Lev 18); e que nenhum dos grupos comprasse no mercado a carne dos animais que os pagãos imolavam aos ídolos, e não comessem sangue nem carne de animais sufocados (não sangrados) e, desse modo, seria fácil juntar à mesma mesa cristãos judeus e cristãos gregos. Paulo esclareceu mais tarde que este último ponto se respeitava por uma questão de caridade mas sem valor religioso (1 Cor8).
Para respeitar tendências e feitios, S. Paulo e Barnabé foram especialmente enviados a pregar aos gregos e outros povos gentios, e Pedro e Tiago aos judeus. Finalmente, como os cristãos de Jerusalém eram pobres, pediram a Paulo que, entre os cristãos gregos e romanos, organizasse sempre uma colecta para os cristãos de Jerusalém (Gal 2,10). Deste modo, o concílio nada alterou da doutrina de Jesus, e foi uma ocasião para todos a perceberem melhor.
4 – Desafios semelhantes se colocam à Igreja ao longo da história por causa da evolução do mundo. O Papa João XXIII sentiu que, depois da II Grande Guerra, a sociedade mudara imenso, e em 25 de Janeiro de 1959 anunciou que ia convocar um Concílio de todos os Bispos do mundo para estudar a pastoral da Igreja perante as mudanças culturais, políticas, científicas, económicas e sociais: umas vinham dos missionários (a poligamia em África, o bruxedo e os ritos de danças na liturgia, os atrasos desses povos e a intervenção dos missionários); outras vinham da ciência e técnica (as experiências em corpos humanos, a esterilidade humana, os negócios com órgãos humanos para transplantes); outras da legislação civil (discussões sobre o casamento, uniões sexuais, o divórcio, o aborto, a homossexualidade, as políticas da natalidade, as escolas e os direitos da família); outras da economia mundial (os direitos dos empresários e dos trabalhadores, a distribuição das riquezas); outras dos meios de comunicação social (a desorientação da imprensa, da rádio, da televisão, da Internet); outras da nova cultura (a descrença, o laicismo, a luta das religiões, as liberdades desenfreadas, a fé e o direito das consciências). E havia ainda questões no interior da Igreja (a ligação do Papa e Bispos, dos bispos e padres, o papel dos leigos, o modo de celebrar a Eucaristia e os outros sacramentos).
6 – Como o concílio de Jerusalém, o Vaticano II, que foi o XXI concílio da história da Igreja sem contar o de Jerusalém, não se fez por duvidar da doutrina cristã, mas para ver como responder às surpresas da civilização. Dele nasceram orientações profundas, sobretudo sobre o modo de pensar, de que destaco as mais gerais:
a – A Igreja e o mundo são obra do mesmo Deus, e a Igreja deve interessar-se também pelo bem do mundo e não somente pelo Céu.
b – Os Estados e as Igrejas devem viver separados. Os Estados não devem impor uma religião aos cidadãos mas deixá-los livres para seguirem a sua religião, e colaborar com as religiões para o bem do povo.
c – A descrença não é um direito do homem, como não é um direito a doença ou a ignorância, pois nenhum desses estados corresponde à natureza humana. As pessoas concretas (descrentes, doentes, ignorantes) é que têm direito de ser respeitadas na sua condição e ajudadas a ultrapassá-la.
d – As ciências humanas (medicina, engenharia, direito, desporto, indústria, comércio, política) estudam-se por métodos próprios e não pela Bíblia. Mas o comportamento moral e profissional dos cientistas, dos médicos, dos comerciantes, dos artistas, dos políticos, exige a luz da palavra de Jesus, não bastando os conhecimentos científicos para estabelecer a moral.
e – As famílias estão antes e acima dos Estados, e só merece o nome de família a união estável de um homem e uma mulher.
f – A Igreja não é «a hierarquia e o resto», mas o «Povo de Deus em comunhão». A vocação dos Leigos é levar às estruturas do mundo os critérios do Evangelho.
g – Toda a celebração cristã deve basear-se na Palavra de Deus e não nos ritos.
h – O governo da Igreja aconselha a sinodalidade, isto é, a hierarquia (Papa, bispos e párocos) deve reunir os respectivos conselheiros antes das decisões graves.
Como tem evoluído entre nós esta mentalidade?
* Bispo de Vila Real



