Sábado, 25 de Abril de 2026
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Tanoaria uma arte em extinção

A receita para fazer um bom vinho não está apenas na qualidade das uvas e na mestria de quem as trabalha… Está também na madeira que o “abraça”. Apesar do tanoeiro ser, assim, uma importante “peça” na produção vinícola, são cada vez menos os que se dedicam à arte e, a pouco e pouco, os conhecimentos, que antes passavam impreterivelmente, de geração em geração vão se perdendo com o tempo.

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António Oliveira é um dos tanoeiros que conserva a atividade, mantendo não só a produção de pipos, balsas e tonéis para o Douro, mas também inovando e dando nova vida às aduelas e arcos que durante décadas transformaram o vinho e que de outra forma se perderiam para sempre…

“Costumo dizer que nasci num pipo”, explica António Oliveira, tanoeiro de Armamar, que há mais de meio século se dedica a uma arte ancestral agora em risco de desaparecer na região do Douro.

Muito ligada às regiões de produção vinícola, a tanoaria representa a arte de fazer vasilhames de madeira, como pipas, balsas ou tonéis, utilizados no tratamento e transporte de vinho.

Apesar de um pouco por todo o país ainda haver tanoarias mais industrializadas, já são poucos os que fazem o trabalho todo à mão, a partir do zero, e a maior parte desses, já com alguma idade, não vislumbram dentro da família quem possa “herdar” os conhecimentos da profissão que passaram de geração em geração.

Essa é a história de António Oliveira, tanoeiro de 59 anos, que começou ainda criança a aprender com o pai a arte e que agora, trabalhando apenas com um irmão, não tem a quem transmitir o legado.

“Uma vez que a arte me veio de família, aprendi com o meu pai e depois valorizei-a, sempre pensei em deixar para alguém de família. Tenho duas filhas, para elas estava fora de hipótese. Tentei ensinar os meus sobrinhos, que de vez em quando, vinham cá começar a aprender, mas não ganharam o gosto e depois deixaram de vir”, explicou o tanoeiro.

António Oliveira reconhece que “a culpa não é dos jovens”, mas sim da “realidade que temos hoje”. “É difícil agarrarem-se a uma arte porque eles querem tudo fácil. Querem tudo mecanizado e sem grande trabalho físico”, lamentou o duriense, recordando que no seu tempo de criança os mais jovens “começavam muito cedo a trabalhar” e tinham a necessidade de “construir os seus próprios brinquedos”.

Sem seguidores na família, e com receio de um dia ver morrer tudo o que aprendeu com o pai, o tanoeiro de Armamar acabou por aceitar o desafio de dar formação, tendo para isso concluído, recentemente, o nono ano de escolaridade. “Já há muitos anos me fizeram o convite. Na altura não aceitei porque tinha mesmo a ideia de deixar a arte na família, passar os meus conhecimentos para a geração seguinte. Uma vez que não consigo ensinar alguém da família, agora já estou disposto a ensinar qualquer pessoa”, revelou, explicando que vai começar a ensinar, ainda este ano, num curso de formação em São João da Pesqueira.

Segundo dados do Centro de Emprego de Vila Real, no ano passado foram lecionados dois cursos profissionais de tanoaria, que envolveram dezenas de formandos, estando previsto, ainda para este ano, o início de mais uma formação dedicada à arte de fazer pipos.

 

Sonhava com as peças

 

Apesar de continuar empenhado na construção dos vasilhames destinados ao vinho, aceitando encomendas e fazendo “reparações de muitas pipas para pequenos agricultores e mesmo alguns tonéis em quintas”, desde muito jovem que António Oliveira apostou na inovação dentro da arte, o que levou a apostar na criação de artesanato de pequenas dimensões e também de mobiliário, tudo com a inspiração nos pipos.

Mesas e cadeiras, bares, estantes e até mobiliários completos de cozinha e quarto. O tanoeiro deu largas à imaginação e hoje constrói uma vasta gama de objetos feitos a partir de “tóneis e pipos velhos, que estão em fim de vida”, que de outra forma iriam para o lixo. “Estou a fazer uma reciclagem, o que me dá muito prazer. 95 por cento da madeira utilizada é reciclada, ou seja, já levou vinho”, explicou.

A aventura de inovar começou cedo, quando tinha apenas 9 anos e “roubou” madeira ao pai para construir um carro. A habilidade não foi do agrado do pai e apenas muitos anos mais tarde, depois de imigrar para a Suíça, é que começou a apostar em força nas peças de artesanato e no mobiliário. “Mesmo estando no estrangeiro pensava muito na arte. Havia noites em que sonhava com trabalhar a madeira, mas não tinha ferramentas. Um dia vim a Portugal de férias e levei algumas. Montei lá uma pequena oficina e nas horas livres, que não eram muitas, comecei a trabalhar”, recordou o tanoeiro que acordava a meio da noite para fazer peças que via nos sonhos e cuja imagem “tinha medo de perder” na manhã seguinte.

De regresso ao país de vez com a família, em 1992, António Oliveira passou a dedicar-se de novo a cem por cento à tanoaria, e o grande “amor pela arte” levou-o a “continuar a inovar, sempre”.

Apesar de tentar inventar sempre novas peças, a madeira utilizada tem que ser sempre “avinhada”, um aspeto que confere aos artigos “muito melhor qualidade”, já que se trata de “madeira que ao longo dos anos foi testada, passou por várias intempéries, tem muito mais resistência”. “A madeira nova tem mais tendência para mingar no verão. Esta é mais compacta”, explicou o artesão, sublinhando ainda o simbolismo de se poder sentar, beber um copo ou até dormir numa peça de mobiliário feita de madeira que durante décadas produziu o bom vinho duriense.

Atualmente, o tanoeiro, que trabalha apenas com o irmão (contando com o apoio da esposa em alguns trabalhos de pintura) e a quem “não falta trabalho”, reconhece que muitas vezes não participa em feiras com receio de “não conseguir dar resposta” às encomendas, muitas delas vindas de outros países, como a Suíça, Espanha, França ou Bélgica.


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