Só este ano, em Trás-os-Montes, oito lavradores perderam a vida, em acidentes com tractores agrícolas. O sinistro ocorrido, no Sábado, em Águas Revés, concelho de Valpaços, onde um homem, de 70 anos, faleceu, engrossou ainda mais a “lista negra” dos desastres mortais. A falta de cumprimento das regras de segurança é a razão apontada por alguns responsáveis de instituições.
Vila Real e Bragança dividem, ao nível de Distrito, o número de acidentes mortais. No primeiro, registaram-se dois no concelho de Vila Real, um em Montalegre e o último, na semana passada, em Valpaços, contabilizando-se, também, ainda, dois feridos.
A elevada taxa de sinistralidade faz levantar várias questões. Em primeiro lugar, a já apontada incúria dos agricultores. Depois, há um outro pormenor importante: o que impede as autoridades de uma vigilância mais apertada. Com efeito, noventa por cento dos acidentes ocorreram em propriedades privadas, facto que, segundo uma fonte da GNR, impede a actuação das autoridades, na verificação da legislação de segurança rodoviária, para o sector, só adstrita para as vias públicas e as que lhe dão acesso.
O Director Regional de Agricultura e Pescas do Norte, Carlos Guerra, está “preocupado, com esta situação” e aponta o dedo à falta de cuidado dos lavradores: “Existe, de facto, algum facilitismo e ausência do cumprimento das regras de segurança. É isto que penso que contribuiu para esta vaga de acidentes. Temos já feito campanhas de sensibilização, com o Governo Civil de Bragança, junto das associações de agricultores e até no próprio documento do gasóleo verde temos inserido conselhos. Ao mesmo tempo, recordo que, já em 2007, foi lançada uma outra campanha de sensibilização, para a necessidade de manusear, correctamente, aqueles veículos. Por outro lado, não podemos esquecer que existem, em Trás-os-Montes, cerca de 35 mil tractores agrícolas, número que reflecte uma tendência de aumento destas viaturas e os acidentes ocorridos também espelham esta realidade”.
Recorde-se que, no final de 2006, morreram 15 pessoas, só no Distrito de Bragança, na sequência deste tipo de sinistro. Nesse ano, o número de mortes com tractores foi superior ao número de mortos nas estradas, em acidentes rodoviários.
O Comandante dos Bombeiros de Valpaços, Jorge Sampaio, realçou, ao Nosso Jornal, que “muitos agricultores não usam o chamado arco de Santo António, o habitáculo que protege os condutores das máquinas agrícolas, em caso de reviramento. O problema é que muitos lavradores colocam só o habitáculo quando circulam nas estradas, porque, quando andam nos campos, a protecção bate nas árvores e eles são obrigados a retirá-lo”.
Outro dos responsáveis que está preocupado com estas ocorrências, o Coordenador Distrital do Centro Operações de Socorro de Vila Real, Carlos Silva, manifestou-nos a sua opinião, de onde emerge o traço comum de todo este drama. Os acidentes acontecem por falta de cuidado.
“Na maioria dos acidentes, de facto, a falta de observância das regras de segurança explicam estes números que nos preocupam. Constata-se, nos acidentes que se têm registado, que os agricultores, na sua grande parte, não utilizam os dispositivos de segurança que acompanham os tractores. Estamos a falar do habitáculo de segurança que é retirado quando os lavradores começam os seus trabalhos”.
Daí que Carlos Silva defenda uma maior intervenção das autoridades.
“Julgo que deveria haver uma maior vigilância de quem de direito, junto dos agricultores, para o cumprimento das normas de segurança. Aliás, a Lei é clara, nesta matéria. E se é verdade que os acidentes acontecem nas propriedades privadas, o certo é que as máquinas agrícolas transitam até aos terrenos, geralmente em vias públicas”.
O Governador Civil de Bragança, Jorge Gomes, também veio a público deixar claro que os agricultores têm de cumprir as regras de segurança.
“Os tractores dispõem dos acessórios de prevenção e protecção, mas eles não os usam. O problema é na reviragem do tractor. A ausência desta protecção provoca a morte, por esmagamento, sendo de considerar a própria idade dos agricultores”.
Futuramente, as coisas podem mudar, graças a um invento de um tractorista, Valdemar Lima, oriundo da aldeia de Cabanelas, o qual criou um protótipo de segurança e de protecção. Consiste no accionamento automático do “arco de Santo António”, quando o tractor inclina a 150 graus, evitando, assim, o capotamento da máquina e consequentes lesões, para o condutor. Um projecto que foi bem acolhido pelo Governador Civil de Bragança, que o encaminhou para a Escola Superior Agrária de Bragança e para a Direcção Regional de Agricultura que o vão acompanhar.
Ainda referente ao acidente de Águas Revés, a vítima era casada e andava, na altura, a lavrar um terreno, no lugar da Sobreda, quando o tractor que conduzia acabou por tombar, lateralmente, ficando o condutor debaixo dele. Seria encontrado, já sem vida, por um sobrinho por volta das 11.45 horas. Este foi o terceiro acidente mortal, nos últimos anos, com tractores, nesta aldeia. O irmão e um tio da vítima já tinham também falecido, pelas mesmas causas
Segundo a Associação Portuguesa de Mecanização Agrária, devem existir, em Portugal, perto dos 90 mil tractores agrícolas, sem habitáculo de segurança.
José Manuel Cardoso






