Quarta-feira, 17 de Agosto de 2022

Tradição secular dos “ramos” volta a sair às ruas de Justes

Apesar da desertificação e do envelhecimento das aldeias do interior, há uma coisa que teima em não desaparecer, as festas em honra dos padroeiros e as tradições seculares a elas associadas. Em Justes as atenções viram-se para os “ramos”, uma tradição que muitos dizem ser única (na forma como são feitos). Apesar de terem estado adormecidas durante décadas, o empenho e a contribuição do povo permitem hoje que as estruturas cobertas de cavacas e enfeites continuem a sair orgulhosamente à rua e a servir de testemunha da devoção à Santa…

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Uma estrutura redonda coberta de cavacas, uvas, um pão-de-ló, flores e enfeites de fita e papel, assim são os “ramos” que todos os anos marcam as Festividades em Honra de Santa Maria Madalena e que no próximo dia 21 vão voltar a desfilar pelas ruas de Justes.

Tendo consciência da importância de imortalizar as memórias e as tradições das freguesias do concelho, o Nosso Jornal foi conhecer um pouco melhor uma tradição que se realiza há mais de cem anos e que, depois de ter ficado adormecida durante mais de três décadas, nos últimos anos foi recuperada e, segundo a população, veio para ficar.

Quem melhor para falar dos afamados “ramos” do que a pessoa que durante muitos anos os enfeitou e que ensinou quem hoje tem a responsabilidade de os criar? Matilde Correia Rodrigues, de 93 anos, recorda-se desde sempre da festa e lembra-se quando era a sua mãe a fazer os “ramos”. “Quando era miúda, a minha mãe e outras senhoras faziam-nos numa sala onde não nos deixavam entrar. Depois é que imaginei como era e aprendi”, recorda.

“Antigamente”, recorda a moradora de Justes, “a festa tinha quatro ramos”, que serviam de testemunha para os mordomos do ano seguinte. Desde que foi recuperada a tradição, as estruturas passaram a ser só duas, que no final do desfile são entregues à nova comissão, sendo depois leiloadas para conseguir já alguns fundos para a organização das festividades do próximo ano.

Fora essas duas pequenas diferenças, os “ramos” em si tentam responder o mais fielmente possível aos que se faziam antes, ou seja, são enfeitados com mais de dez quilos de cavacas, uvas, um pão-de–ló, flores e muitas fitas coloridas, sendo depois ‘passeados’ orgulhosamente pelas ruas da aldeia.

Aurora de Jesus Magalhães, de 81 anos, que sempre ajudou a organizar as festas da freguesia, que antes eram três (mais uma dedicada ao Santíssimo e outra em honra de Nossa Senhora de Lurdes), explicou que apesar de todas as dificuldades e de haver cada vez menos pessoas em Justes, “o povo ajuda sempre”, contribuindo com o que pode para a organização.

“É bom que os novos venham a fazer. Mas já não é nada igual ao que era antigamente”, sublinha a mesma moradora, relatando que a festa em honra de Santa Maria Madalena era famosa na região, levava “muita, muita gente” a Justes e os “ramos” eram mesmo pedidos por pessoas das localidades vizinhas para serem utilizados simbolicamente em casamentos.

Adriana Monteiro, da comissão de festas deste ano, recorda que a festa foi recuperada há cerca de 13 anos por um emigrante no Brasil que fez uma promessa à Santa e pagou os custos do seu bolso. “Todos na aldeia gostaram muito e houve logo quem, com a ajuda do pároco da altura, assumisse a comissão para não deixar a festa morrer outra vez”.

A mesma responsável sublinha que as festividades em honra da Santa Maria Madalena são pensadas para o povo e só são hoje possíveis porque “todos contribuírem com o que podem”.

As festividades começam no dia 18 de julho e prolongam-se até ao dia 21, constando no programa a procissão de velas (na noite do primeiro dia), Jogos Populares, Encontro de Bombos, fogo-de-artifício e muita animação com a atuação dos grupos “Vieira Lopes” e “Victor Pica”.

No domingo, pelas 16h00, terá lugar a Missa Solene, seguida de Majestosa Procissão, e pelas 18h00 será então a vez dos tradicionais “ramos de cavacas” desfilarem pelas ruas da aldeia.

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