Berta Santos Dirigente Associativa
Falar hoje da luta dos lavradores durienses é falar de Berta Santos, presidente da Associação dos Vitivinicultores Independentes do Douro, uma mulher que nunca teve medo de dar a voz e estar na linha da frente em muitas das grandes “batalhas” do mundo rural.
Actualmente com 55 anos, Berta Santos, natural de Paços Ferreira, entrou para o mundo do associativismo aos 27, quando se mudou para Vila Real com marido e a filha.
“Os meus pais eram os dois operários, mas alguma coisa me ligava à terra. No bocadinho de terreno que tínhamos, que era muito pouquinho, tirávamos as hortícolas. Para mim era muito diferente ir buscar à mercearia, ou pôr as mãos na terra e colher”, lembrou a dirigente.
A vida trouxe-a para a capital transmontana e, apesar de ter sido uma adaptação difícil, “o bichinho” da luta em prol dos agricultores levou-a ao movimento associativo. “Comecei como funcionária administrativa. Mas ao longo do tempo fui reclamando, quase reivindicando, a minha integração mais a fundo, não por considerar que o serviço administrativo fosse um trabalho menor mas porque eu sentia que podia dar mais à causa”.
Com uma filha e dois netos, Berta Santos reconhece que ao longo das últimas três décadas de ligação ao associativismo “sacrificou” muito a sua vida pessoal, embora seja perentória a garantir que não se arrepende do seu percurso, acreditando “estar no local certo”.
Depois de mais de duas décadas representando “os agricultores da montanha, do Alvão, Marão, Barroso”, altura em que foi dirigente de várias associações (presidente da Associação dos Pastores Transmontanos, membro dos órgãos sociais do Secretariado dos Baldios de Trás-os-Montes e Alto Douro, dirigente da Federação das Associações Agro florestais Transmontanas), Berta Santos assumiu em 2009 o desafio de lutar pelo Douro, sendo hoje presidente da Avidouro, cargo que acumula com o de dirigente da Confederação Nacional da Agricultura e de presidente da Associação de Mulheres Agricultoras e Rurais.
“Enquanto estive na parte norte do distrito, participei na organização de várias iniciativas. Recordo algumas com bastante satisfação, nomeadamente a luta do escoamento da batata”, no âmbito do qual “se fizeram várias manifestações, uma delas conjuntamente com o sindicato de lavradores da Galiza e durante a qual bloqueamos a fronteira. Eu estive na linha da frente”, testemunhou.
Assumir assim um papel de liderança no início não foi fácil, porque “muitas vezes foi necessário subir em cima de um trator para falar aos agricultores” e o facto de ser mulher chamava mais a atenção do que as palavras que tinha para dizer. Uma situação que, no entanto, ao longo dos anos mudou completamente.
Quanto ao Douro, reconhece que situação é muito “difícil” e que muitos viticultores vivem momentos de desespero, alguns sem possibilidade sequer de comprar os livros aos filhos. “Os viticultores sentem-se desmotivados, resignados”, lamentou a mesmo responsável, deixando a certeza de que enquanto for responsável pela Avidouro vai estar sempre na linha da frente na defesa por melhores condições de vida dos lavradores da região.
Fátima Pereira Bombeira
Com 20 anos de história na Cruz Branca de Vila Real, há 13 que Fátima Pereira desempenha a função de adjunta de comando na corporação vila-realense, tendo sido a segunda a nível nacional a assumir um posto de chefia nos bombeiros.
Com uma ligação muito forte aos soldados da paz desde que nasceu, a bombeira foi pioneira desde o início da sua carreira, já que integrou o primeiro grupo de cinco mulheres à entrarem para a Cruz Branca. “Faço parte de uma família que esteve sempre ligada aos bombeiros, principalmente a esta casa”, lembra Fátima Pereira.
Um episódio trágico, a morte do seu avô num incêndio urbano no edifício do antigo café Excelsior, quando este tinha apenas 31 anos, poderia ter afastado a família do ‘mundo’ dos bombeiros, no entanto, o contrário aconteceu e tanto o pai, como os tios e o irmão reforçaram os laços com a corporação.
Recordando que “desde pequenina” que se lembra “de ver o pai e o irmão sair de casa ao som da sirene”, foi em 1995 que, com a abertura da corporação às mulheres, a bombeira assumiu o compromisso de responder à chamada de socorro e tomou também como seu o lema “vida por vida”.
Ao longo dos anos, a vila-realense desempenhou, tal como qualquer bombeiro, todas as atividades operacionais, mas também foi delegada distrital da Juvebombeiro e membro da comissão nacional dinamizadora daquela associação, sendo assim responsável pela sensibilização dos jovens do distrito “para a causa humanitária”.
Quanto ao facto de ter “aberto” o caminho feminino na Cruz Branca, Fátima Pereira garante que nunca se sentiu discriminada ou em desvantagem, pelo contrário, no mundo dos soldados da paz a ligação com os colegas sempre foi de “igual para igual”, pese embora reconheça que, no início, em algumas situações sentiu que, de alguma poderia haver um sentimento especial de “proteção” por parte dos seus pares.
Atualmente, a jovem, de 37 anos, é casada e professora do primeiro ciclo, tendo sido colocada numa escola em Gondomar e explica que a conciliação entre a vida familiar e a de bombeira não é fácil mas não é impossível. “É complicado porque não trabalho cá e estou muito tempo fora. Às vezes, à noite, quando poderia estar um bocadinho mais com a família, tenho coisas para fazer nos bombeiros, como por exemplo reuniões”, relata Fátima Pereira, explicando que a sua atividade conta com a “paciência” do seu marido, que não é bombeiro, mas sobretudo com a sua compreensão e respeito pela sua paixão.
Considerando que a vida de bombeiro é cansativa, árdua e às vezes até frustrante, a adjunta de comando classifica-a no final como “maravilhosa” e recompensadora em especial porque se faz o bem sem olhar a quem.
A corporação da Cruz Branca tem atualmente 21 mulheres no ativo e seis estagiárias em formação, mantendo as suas portas abertas para “mulheres de garra” que queiram assumir o compromisso do voluntariado nos bombeiros.
Ana Sofia Gomes Empresária
A filosofia de muitos empreendedores passa sobretudo pela paixão que têm por aquilo em que acreditam, e a de Sofia Gomes não é diferente, já que sempre soube aquilo que queria para a sua vida: ser gestora do seu próprio negócio. “Comecei por gerir uma empresa de inserção, em Sabrosa, onde permaneci durante 7 anos. No entanto, sempre tive o sonho de ter uma empresa só minha, na área da reciclagem. A ideia ganhou forma numas férias de verão em Barcelona. Vi um moinho papeleiro onde se fabricava papel a partir de trapos de algodão e achei que era uma atividade com enorme potencial, e assim surgiu a Papel D’Ouro, em que os produtos são 100 por cento algodão”.
Tudo que a Papel D’Ouro faz é à medida do que os clientes pretendem. A sua missão é inovar, diferenciando não só pelo design mas também por uma série de elementos e de objetos que são produzidos e que “nunca mais têm fim”.
Começou esta caminhada há 6 anos com a ajuda da família, sobretudo da mãe, que é parceira e sócia da empresa. “A minha família tem sido um suporte fundamental na concretização deste projeto, em particular a minha mãe, que trabalha na parte do design criativo e conceção dos objetos”.
O investimento superou largamente o que tinha previsto inicialmente e os apoios vieram apenas do Proder, de onde recebeu 60 por cento, a fundo perdido, do montante investido. “Na altura, foi o programa mais favorável, também devido ao enquadramento da empresa nesta região do Douro Vinhateiro. Apresentei o projeto a três autarquias e optei por Alijó, que o acolheu bem mas não ofereceram o terreno, como por vezes as pessoas pensam. Deram apoio ao nível da divulgação”.
Depois de muita burocracia, nasceu um sonho de vida e os produtos da Papel D’Ouro já estão em diversas lojas, em que se destaca a entrada no El Corte Inglês. “Não foi fácil. Foi um processo muito exigente e depois de longas conversações chegamos a um acordo. Até perdi a conta às vezes que tive de ir a Lisboa”.
Não basta ter ideias para vingar no difícil mundo dos negócios, que ainda é muito masculino, mas Sofia acha que as mulheres começam a destacar-se no setor empresarial. “Felizmente as mulheres já se afirmam cada vez mais neste mundo complicado dos negócios. Têm uma sensibilidade para acudir a várias coisas ao mesmo tempo, o que é notável. E muitas delas são mães, esposas, e acho que são autênticas heroínas”.
Sofia Gomes deixa uma mensagem aos jovens que têm ideias e pretendam implementar um negócio. “É necessário sobretudo muita resiliência, porque há alturas em que parece que as coisas “não funcionam, que nada corre bem, tudo demora muito a chegar e não temos o retorno que esperávamos”. No entanto, “acho que vale sempre a pena arriscar e ir atrás dos nossos sonhos”.
Célia Santos Árbitra de Futebol
Célia Santos, 38 anos, para além de ser professora de Educação Física, é também mãe e árbitra de futebol, uma profissão pouco comum entre as mulheres, no entanto, ao longo dos tempos a mentalidade das pessoas foi mudando e há cada vez mais mulheres a apitar jogos de futebol, mas, em Portugal, só em jogos de campeonatos não profissionais. “Quando comecei as pessoas não estavam preparadas para ver mulheres em campo, não havia os apoios e os incentivos que existem atualmente para os jovens árbitros. Foi um choque para muitos, agora já não estranham, até porque já me conhecem”.
Apesar de ser já uma pessoa muito conhecida no seio dos adeptos de futebol, a juíza de campo continua a ouvir piropos, “o que é bom” e já lhe chamaram muitas coisas engraçadas, principalmente porque é baixinha. “Também não me livro de ouvir bons insultos, como qualquer árbitro que se preze”.
Sempre teve gosto pelo futebol e como não tinha grande apetência para jogar, optou pela arbitragem e já lá vão 20 anos. “Fiz o curso na Associação de Futebol de Vila Real em abril de 1994 e entrei para os quadros da Federação Portuguesa de Futebol em 1999 até hoje, como árbitra nacional da Categoria Feminina”.
Desde muito nova que a emoção que envolve o futebol a fascinou e a arbitragem nasceu naturalmente, por ser uma vertente “tão complexa e aliciante, um desafio”, que depressa “se tornou uma paixão”. “Não foi um início fácil, há sempre muitas dificuldades para quem é novo, inexperiente e mulher. No entanto, como qualquer mulher lutadora e forte, fui resistindo às adversidades e aqui continuo, com a persistência que me caracteriza. As mulheres na arbitragem treinam, estudam e trabalham tanto como os homens”, destaca a árbitra.
Pessoalmente prefere apitar jogos masculinos, porque considera ser “uma sensação indescritível”. “Lá dentro sou uma ‘juíza’, faço cumprir a Lei, dou o meu melhor e tento errar o menos possível. Eles acatam, que remédio! Há quem diga que respeitam mais se for uma mulher”, afirma convictamente a professora.
O convívio com os colegas da arbitragem é muito saudável e já fez amigos para a vida. “Treinamos todos juntos, temos formação nos Núcleos e considero que sou parte integrante de um grupo. Mas, nem todos veem as mulheres na arbitragem com bons olhos, principalmente se elas conseguirem ocupar lugar de destaque no futebol masculino”.
Já teve situações complicadas, mas sempre conseguiu gerir e ultrapassar e como se diz “o que não nos mata torna-nos mais fortes”. Mas também já lhe aconteceram situações caricatas como quando, em pleno jogo entrou uma cabra em campo, ou então quando levou uma bolada na cara que lhe partiu um dente, entre muitas outras aventuras.
Ser professora e árbitra acaba por haver mais semelhanças do que diferenças entre as suas profissões, já que é necessário “saber lidar com as emoções, ter muita paciência, usar o bom senso e a vertente pedagógica, que deve estar sempre presente”.




