Primeiro ouviram-se as sirenes de aviso, depois os estrondos da última explosão. Na presença de algumas dezenas pessoas, entre trabalhadores, convidados e jornalistas, as máquinas desviaram as últimas toneladas de pedra, desimpedindo o caminho para que os primeiros veículos pudessem atravessar completamente o Marão. Foi assim, no dia 10, o momento da “varagem” da galeria sul daquele que será o maior túnel rodoviário da Península Ibérica.
A Voz de Trás-os-Montes testemunhou todos os momentos, desde a explosão até a remoção dos escombros dos últimos dois metros que faltavam “abrir” para atravessar por completo a galeria, e integrou também a comitiva de carros que, pela primeira vez, viajou desde o lado de Amarante até ao de Vila Real pelas entranhas da serra.
“Uma salva de palmas a todos os que colaboraram para que conseguíssemos chegar a este ponto”, pediu António Ramalho, presidente da Infraestruturas de Portugal (IP), naquele que foi “um dia histórico” para uma obra que constituiu um grande desafio e que chegou a ser classificada como uma “ousadia”.
O mesmo responsável lembrou que, na altura em que o projeto foi resgato pelo Estado através da Estradas de Portugal, hoje Infraestruturas de Portugal, muitos foram os que duvidaram.
“Na altura alguns acharam que era uma ousadia assumirmos a responsabilidade da continuação da obra, da obtenção do financiamento, da gestão de toda a estrutura necessária, do desenvolvimento dos concursos, da estrutura jurídica e da capacidade de a concluir até ao dia 31 de dezembro de 2015”, sublinhou António Ramalho explicando que os céticos, na realidade, não conheciam “a eficiência e capacidade” da equipa envolvida.
A satisfação era visível no rosto do presidente da IP, mas também de todos os responsáveis pela obra, como por exemplo de Rui Luís, diretor técnico da empreitada, que acompanhou a construção do Túnel desde o primeiro dia, desde que o projeto arrancou, há seis anos. “Sinto-me feliz. É um sentimento de trabalho realizado”, sublinhou o engenheiro sobre o momento simbólico em que os dois últimos metros foram perfurados, permitindo que a primeira pessoa atravessasse o túnel, trazendo em punho a bandeira da Infraestruturas de Portugal.
Trabalhando há 15 anos na construção de túneis e minas, Rui Luís explica que o projeto do Marão se distingue pela “sua extensão e complexidade”, mas também pelo facto da obra ter sido executada “em tão pouco tempo”. “Foi um desafio”, revelou o mesmo responsável considerando que aquele que será “o maior túnel da península ibérica” é, decerto, “uma marca” na carreira daqueles que ali trabalham.
Depois do “beijo” a sul, bocas da segunda galeria encontram-se no final do mês
Com mais de meio milhar de trabalhadores no terreno, depois de varada a galeria sul, faltam apenas cerca de 70 metros para que as duas bocas da segunda galeria também se unam, o que deverá acontecer até ao final do mês.
“A expectativa é que terminemos a parte da obra respeitante aos troços nascente e poente no dia 17 de dezembro, na pior das hipóteses até ao dia 24”, adiantou António Ramalho revelando que o túnel propriamente dito deverá ficar pronto até ao dia 31.
Depois de concluídos os trabalhos de construção, serão necessários mais dois meses para a realização de testes nos sistemas eletrónicos, de controlo de incidentes e de climatização, prevendo-se assim que a obra seja entregue no final de fevereiro e que o túnel abra ao tráfego automóvel em março.
Com 5,6 quilómetros de extensão, o túnel integra um troço de 30 quilómetros da via rápida que vai ligar Amarante e Vila Real e que, com a Autoestrada Transmontana, vai constituir a A4.
A construção da infraestrutura começou em 2009, no entanto, ao longo dos anos, os trabalhos estiveram mais tempo parados do que em andamento, isso devido a três interrupções. Das primeiras duas vezes, que representaram um atraso total de mais de seis meses, a obra parou na sequência de providências cautelares levantadas por um privado. O último impasse, que levou a uma paragem de mais de três anos, aconteceu em 2011, quando a concessionária responsável assumiu problemas de ordem financeira, tendo sido a IP a ficar com gestão inerente ao desenvolvimento da concessão.
Na altura, a IP decidiu alterar o modelo de contratação, optando assim pelo modelo de conceção/construção para o túnel e por empreitadas para os acessos poente e nascente, os quais têm uma extensão aproximada de 10 quilómetros cada.
No que diz respeito aos custos da obra, inicialmente foi calculado um investimento total na ordem dos 340 milhões de euros, um valor acabou por sofrer uma “redução de 30 por cento”, cifrando-se agora “entre os 250 e 270 milhões”, contabilizou António Ramalho.
O presidente da IP explicou que a poupança foi conseguida através da divisão da empreitada em três troços, o que permitiu que mais empresas concorressem, mas também graças ao facto do projeto ter sido alvo de uma candidatura a fundos europeus. “200 milhões já foram entregues pelo Estado na concessão anterior. Nesta fase (desde o resgate) vai custar cerca de 61 milhões de euros porque tivemos fundos comunitários no valor de 89 milhões”, referiu.
Atravessar o túnel vai custar 2 euros, “ou menos”
“No quadro da parceria publico privada a previsão de portagem era de 2,85 euros para cruzar o túnel, neste momento a previsão que temos é que seja a volta dos dois euros, talvez até um pouco abaixo desse valor”, sublinhou António Ramalho considerando que a redução do preço permitirá “captar mais utilizadores”.
A IP calcula que passem pelo Túnel do Marão entre 8 e 12 mil carros por dia, automobilistas que vão poupar cerca de 20 minutos na viagem entre Trás-os-Montes e o Porto e que vão poder contar com mais segurança e conforto, sobretudo nos meses de inverno.
Santa Bárbara também vai passar pelo túnel
Quando os túneis estiverem concluídos, as quatro imagens de Santa Bárbara, que se encontram nas quatro bocas do Túnel e que têm protegido os trabalhadores (não houve qualquer acidente grave nas obras), vão também elas atravessar o Marão, cruzando-se nas entranhas da serra.
“A Santa Bárbara é a padroeira das minas e dos túneis. Ela está aqui a proteger todos os trabalhadores. Quando o túnel estiver pronto, as Santas serão trocadas e entregues a instituições religiosas locais, porque não podem voltar a ser utilizadas na construção de outro túnel”, contou António Ramalho.
Apesar de classificar como muito importante manter a tradição e preservar “estes elementos religiosos”, o presidente da IP deixou claro que as questões da segurança não foram deixadas só nas mãos da Santa, houve um grande empenho por parte de todos para que a obra decorresse sem incidentes graves.



