Como reflexo, os países desenvolvidos do Ocidente retaliam e usam armas pesadas, numa tentativa de obstar ao avanço do terrorismo, multiplicam-se bombardeamentos, crescem ondas de refugiados em direção à Europa, reinstalam-se muros nas linhas de fronteira. Em Portugal, os problemas são diferentes mas, de qualquer modo, afligem os portugueses. Um novo governo propõe-se restaurar um ambiente de austeridade que já dura há tempo prolongado e combater a corrupção que é difícil de controlar. O país entra dividido em 2016, com acervos de alguma crispação e com desejos que já vêm de muito longe. Espera-se que, como é tradicional dizer-se, o ano novo tenha vida nova. A começar pelo usufruto de uma natureza sadia, proclamada na “Cimeira do Ambiente” de Paris e na encíclica “Laudato si”, do Papa Francisco que, sem rebuço, é a nossa escolha como “Personalidade do Ano”
ANTÓNIO COSTA
Depois de ter derrubado António José Seguro na liderança do Partido Socialista, tornou-se primeiro-ministro de um Governo saído das eleições de 4 de outubro e que resultou de uma coligação parlamentar de partidos de esquerda (PS, PCP, BE, “Os Verdes”, além de um deputado do PAN). A coligação de direita “PàF” (“Portugal à Frente”) venceu as eleições, mas sem maioria absoluta. Indigitado pelo Presidente da República, o anterior primeiro-ministro Pedro Passos Coelho viu o programa do seu governo minoritário reprovado na Assembleia da República, tendo Cavaco Silva empossado o 21º Governo Constitucional de António Costa.
ATENTADOS
Não tiveram conta os atentados que, um pouco por todo o lado, aconteceram com diferentes motivações. Os que foram perpretados pelo “Estado Islâmico” (uma permanente ameaça à Europa e ao Ocidente) causaram graves impactos no mundo, através de “kamikazes” (homens e mulheres suicidas, combatentes jihadistas). Em 13 de novembro, houve centena e meia de mortos em ataques sincronizados em Paris, os mais graves cometidos numa sala de espetáculos (“Bataclan”), em restaurantes e no “Stade de France” onde decorria o jogo de futebol entre as seleções de França e da Alemanha. Foi decretado o estado de emergência e o fecho das fronteiras. Este atentado permitiu uma aliança entre países (nomeadamente a Rússia e os EUA) que se determinaram a combater o “Estado Islâmico”, o polvo que estende os seus tentáculos de terror, em nome de Alá e do Islão. Vários países, por isso, mantêm a situação de alerta. Fora do âmbito do Estado Islâmico, outra sucessão de ataques aconteceu, aumentando a mancha de luto no mundo. Em outubro, no decorrer de uma “Marcha pela Paz”, na Turquia, um monstruoso atentado ceifou a vida a 86 pessoas, causando ainda duas centenas de feridos. Essa marcha tinha como objetivo a defesa da democracia, contra as políticas do Governo Islamista do AKP e a retoma dos confrontos entre as forças de segurança turcas e os separatistas curdos.
BANIF
Já na parte final do ano, vieram a público as insuficiências financeiras que abalam este banco, mais uma instituição bancária em dificuldade de sustentação (o Estado português detém 60,5% do seu capital), depois do acontecido com o BES, BPN e BPP. Posta a hipótese de venda, surgiram, entre outros candidatos à aquisição, o “Santander”, o “Popular” e o “Apollo”, numa situação que ainda não foi clarificada, em 2015, mas na qual o primeiro ministro já acalentou os depositantes: de acordo com as garantias de Bruxelas, a solução vai assegurar a proteção e segurança dos depósitos.
BOKO HARAM
Grupo terrorista africano, com origem na Nigéria, vem cometendo as maiores tropelias, sustentado por outros grupos, nomeadamente o “Estado Islâmico”. É responsável por milhares de mortes na Nigéria e raptos de raparigas, conseguindo impor uma estrita lei islâmica no continente africano.
CIÊNCIA
Em outubro, a sonda “Cassini” fez uma aproximação histórica a uma lua gelada de Saturno. Já a “New Horizons”, em julho, passou a 12.500 quilómetros de Plutão, depois de ter deixado a Terra, em 2006, na mais longa viagem até hoje realizada no espaço. Um momento histórico celebrado pela NASA. Algumas imagens da sonda já começaram a chegar à Terra. O “Solar Impulse”, um avião movido apenas com energia solar, tripulado pelo suíço André Borschberg, aterrou no Hawai, em setembro, ao fim de 118 horas de voo, ao longo de 7212 quilómetros sobre o Pacífico. Também em setembro, a Nasa anunciou ter obtido sinais da existência de água líquida em Marte.
CIMEIRA
A mais importante terá sido a conferência que, em dezembro, sob a égide das Nações Unidas, ocorreu em Paris. 195 países assinaram o tratado histórico para reduzir consumo de carvão, petróleo e gás, contra as alterações climáticas e o aquecimento global.
CORRUPÇÃO
Portugal viveu um ano de grande incidência no referente a casos de corrupção. Entre os demais, os “swaps” associados aos empréstimos contraídos pelo consórcio “Elos” (TGV – Poceirão – Caia) acumulando prejuízos; ex-quadros da PT acusados de dolo na aplicação na Rioforte, os “Vistos Gold” que coroaram com acusações de tráfico de influências ao ex-ministro Miguel Macedo que se tornou arguido, depois da prisão do diretor nacional do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras; a “Operação Marques” em que Armando Vara foi detido, em 9 de junho, ficando preso em casa com pulseira, um mês depois, por desvios e desaparecimento de milhões de euros que causticaram a Caixa Geral de Depósitos. Entre isto, verificaram-se demissões na Autoridade Tributária devido à polémica em torno da criação da lista de contribuintes VIP, entre os quais o diretor-geral Paulo Núncio. O Processo “Face Oculta” causou prisão efetiva ao sucateiro de Aveiro Manuel Godinho que veio a ser condenado a mais de 20 anos de prisão. O caso “Swiss leaks” foi outro escândalo bancário, uma fraude fiscal envolvendo uma lista de 220 portugueses com contas no banco HSBC, filial suíça que incentivava fuga aos impostos. Os gestores da “Sociedade Metro Mondego” foram acusados, pelo Ministério Público, por um crime de peculato. O juiz Rui Rangel, desembargador do Tribunal da Relação de Lisboa, foi acusado no caso dos “Vistos Gold” e no seu relacionamento com José Sócrates. Outro caso de corrupção sucedeu no INEM, de que o presidente foi demitido das suas funções, por abuso de competências.
DESASTRES
O desastre de maiores dimensões ocorrido em 2015 terá sido a avalancha ocorrida num Parque Natural do Nepal, em abril, junto à cidade de Ghodatabela, na região de Katmandu, a qual causou cerca de cinco mil mortos e centenas de desaparecidos. Em novembro, o rebentamento de duas barragens no estado brasileiro de Minas Gerais causou enorme prejuízo ambiental – destruição total da quinta maior bacia hidrográfica do Brasil por resíduos de minérios – e uma vintena de mortos. Mais de setecentos peregrinos morreram esmagados em Meca, por ter havido um aumento repentino de pessoas no espaço disponível, com um choque entre duas marés humanas que circulavam em sentidos opostos, no decorrer da peregrinação anual dos muçulmanos. Ficaram feridas mais 863 pessoas. Em Tianjin, na China, uma explosão num armazém de materiais tóxicos, causou 112 mortos, com 95 outras pessoas a serem dadas como desaparecidas e 720 hospitalizadas. No Chile, um terramoto (dez mortos) obrigou à retirada de um milhão de pessoas das zonas costeiras, por causa de um tsunami resultante do sismo (do Peru à Nova Zelândia). Outro sismo, entre o Paquistão e Afeganistão, causou mais de 300 mortos. Um acidente com o TGV que fazia uma viagem de teste entre Paris e Estrasburgo causou dez mortos dos 49 passageiros que transportava. Numa discoteca, no centro de Bucareste (Roménia) um incêndio causado por explosão de material pirotécnico integrado na atuação de um grupo misical “rock”, vitimou 27 pessoas e causou 160 feridos. Uma derrocada num prédio de quatro andares, no Paquistão, causou 116 mortos. Um deslizamento de terras, em Myanmar, provocou mais de cem mortos, numa mina de Jade no norte da antiga Birmânia. Um deslize de neve, na região dos Alpes (na França) matou sete alpinistas. Um montanhista português, João Marinho, de Amarante, depois de muito tempo desaparecido, apareceu morto, em agosto, nos Picos da Europa, sendo descoberto por um grupo de alpinistas. Inundações em Albufeira (Algarve) causaram milhões de euros de prejuízos em arruamentos, moradias e estabelecimentos comerciais.
DRONES
Os pequenos aparelhos de condução autónoma à distância crescem em múltiplas funções que fazem questionar as novas vias que abrem a diversas atividades, algumas das quais já estão regularizadas em certos países, como em Espanha (foi autorizado o seu uso por uma empresa de segurança privada). Em Portugal, ainda não existe legislação, apesar de já haver utilização de drones na agricultura, no turismo, na segurança, nas forças armadas, GNR e PSP. Particulares utilizam drones como recreio, com acoplamento de máquinas fotográficas e de filmar.
ELEIÇÕES
No Reino Unido, contrariando as sondagens, David Cameron foi reeleito primeiro-ministro, com maioria absoluta, após vitória do Partido Conservador. Apresentando reivindicações à Comissão Europeia (consideradas por esta como “problemáticas”) o primeiro-ministro põe a hipótese de poder sair da Europa, caso essas negociações não tiverem êxito. Entretanto, Jeremy Corbyn venceu as eleições do Partido Trabalhista, devolvendo-o à esquerda socialista radical. A líder da oposição de Myanmar, Aung San Suu Kyi, venceu as eleições na antiga Birmânia, em novembro. Regressou ao Parlamento como deputada. O governo do país está entregue aos militares e a ex-Prémio Nobel da Paz só poderá assumir o cargo de primeiro-ministro quando estes renunciarem. Com a derrota de Nicolas Maduro, anuncia-se o fim dos 16 anos do regime de Hugo Chavez, na Venezuela que, no entanto, continua a governar por decreto. Em Espanha, com a questão da independência da Catalunha ainda longe do objetivo do movimento que a propõe, face à oposição do governo espanhol, os partidos dominantes (PSOE, de Pedro Sanchez; e PP, de Mariano Rajoy) procuram sustentar-se no poder, com a intromissão do “Podemos”, movimento alternativo de Pablo Iglesias; e do “Ciudadanos”, de Alberto Rivera. Mas foram as eleições regionais de França que mostraram um novo cenário, com a ascensão da “Frente Nacional” (de extrema-direita, de Marine Le Pen) que venceu em seis das treze regiões na primeira volta, situação neutralizada na segunda pela estratégia dos restantes partidos, com os socialistas de Hollande a apoiar uma coligação de direita liderada pelos republicanos de Sarkozi que retirou as hipóteses da extrema-direita, ainda assim marcante por quase 30% dos votos alcançados. Em Israel, a reeleição de Benjamin Netanyahu provocou uma coligação de direita que afastou propostas de paz com a Palestina e a criação de um estado palestiniano.
ESQUERDA
Recuperou o poder, em Portugal, através de uma coligação pós-eleitoral entre o PS, o PCP, o BE, “Os Verdes” e o PAN, garantindo maioria na Assembleia da República face à coligação de direita que tinha tido mais votos no processo eleitoral de outubro, mas a que a maioria parlamentar se opôs, recusando o programa de governo de Pedro Passos Coelho e aprovando uma moção de rejeição, obrigando Cavaco Silva à indigitação do governo socialista liderado por António Costa.
ESTADO ISLÂMICO
Da guerra do Iraque e dos conflitos do Afeganistão, com interferência de potências estrangeiras do Ocidente, nasceu o “Estado Islâmico” que tem vindo a reivindicar a numerosa série de ataques a alvos ocidentais, depois de recrutamentos de pessoas de vários países europeus e dos Estados Unidos. Ganhou força com o início da guerra civil na Síria. Atuando em nome de Maomé, o Estado Islâmico também tem destruido testemunhos patrimoniais históricos de forma irreparável (Mossul, Nimrud, Palmira) e decapitado reféns em abundância. Defendendo uma teoria de terror que pratica sem qualquer hesitação, o “Estado Islâmico” tem vindo a obter posições em zonas onde conquista armamento e poços de petróleo que permitem a sua subsistência e evolução. Apesar da disposição de países da Europa (incluindo a Rússia) e os Estados Unidos, as retaliações feitas através de bombardeamentos não resultam em mais que não seja o crescimento da guerra e o aumento dos atentados mortais, a maior parte deles com recurso a jihadistas suicidas, um perigo permanente no terror que esta organização terrorista encerra.
FESTIVAIS
Portugal mantém e acresce um grande número de festivais no âmbito da música, com grande impacto social, cultural e económico. De entre os 210 certames que tiveram lugar no nosso país, para um total de 1,8 milhões de espectadores, saliência para Paredes do Coura, o que reuniu maior quantidade de pessoas em movimento e estadia. Outros: “MEO Sudoeste” de Zambujeira do Mar (188 mil espectadores), “Alive” (Lisboa), com 155 mil espectadores, “Festival do Crato”, em Portalegre (100 mil assistentes), “Neopop electronic” (Viana do Castelo), “Surf at night” (Cortegaça), “Cem soldos” (Tomar), “Sol da Caparica” (Costa da Caparica), “Indie Music” (Paredes), “D’Bandada” (Porto), “Noites Ritual” (Porto), “Marés Vivas” (Vila Nova de Gaia), “Vodafone Mexefest” (Lisboa), entre outros que preencheram os dias e as noites do verão de 2015.
FIFA
Perfilaram-se vários candidatos ao cargo de presidente (um deles foi Luís Figo), mas o escândalo da corrupção em torno desta instituição fez rever tudo (Michel Platini – presidente da UEFA – e Joseph Blatter foram envolvidos nas acusações, com o líder da FIFA a ser constituído arguido por gestão danosa e apropriação indevida de bens. Entretanto, foram suspensos). Vários elementos do organismo desportivo mundial foram detidos num hotel de Zurique, juntamente com outras personalidades, sob a acusação de extorsão, fraude, lavagem de dinheiro, luvas e subornos. Em dezembro, a lista de suspeitos aumentou com mais dezasseis nomes. Depois de ter sido reeleito em maio, Blatter demitiu-se no mês seguinte e, em outubro, foram anunciados oito nomes para o seu lugar.
GOVERNO
Na sequência das eleições legislativas de outubro, apesar de ter recolhido mais votos que as restantes forças políticas concorrentes (38,48%), a coligação “PàF” (Portugal à Frente/PSD+CDS-PP) não obteve a maioria absoluta, sendo ultrapassada por uma coligação pós-eleitoral dos partidos de esquerda na Assembleia da República (PS+PCP+BE+ “Os Verdes” +PAN) – PS (32,38%), BE (10,22%) e CDU (8,27%). Depois de ter indicado novo governo da PàF (liderado por Pedro Passos Coelho), cujo programa foi reprovado pela maioria de esquerda, o Presidente da República, Cavaco Silva, indigitou António Costa (PS) como primeiro-ministro. Questões como a reposição de cortes vindos dos governos anteriores de Sócrates e Passos Coelho, eliminação da sobretaxa do IRS, atualização gradual de pensões, atualização do salário mínimo, entre outras, marcam os primeiros dias da ação de um governo que tem referido ir respeitar os compromissos europeus de Portugal.
GRÉCIA
Um grande movimento no país levou ao aparecimento de novas pessoas, novas ideias e novas forças políticas de que se destacou o “Syriza”, liderado por Alexis Tsipras. O objetivo era que a Grécia se libertasse das políticas de austeridade da “Troika” e encontrasse formas de financiamento alternativas. Essas intenções de otimismo grego chocaram sempre com a insistência alemã na manutenção da austeridade, mas causaram impacto positivo entre os gregos que se vieram a debater entre a confiança nesse pressuposto (Tsipras tornou-se primeiro-ministro em eleições, em julho) e a desconfiança nas conversações do novo governo com os “intermediários” da dívida grega. Após muitas discussões e divergências (que levaram à saída do ministro das finanças, Yanis Varoufakis), o novo governo grego teve de recuar e aprovou um novo pacote de reformas para assegurar um novo resgate (o terceiro), o que dececionou boa parte do eleitorado que, em setembro, tinha optado pelo “Syriza”, em detrimento da “Nova Democracia”, “Aurora Dourada” ou “PASOK” (este socialista). Já em dezembro, duas greves gerais separadas pelos dias de uma só semana atestaram o desagrado e desalento dos gregos pelos cortes acordados entre o governo de Tsipras e os credores internacionais.
HOLLANDE
Depois de ter sido confrontado com uma queda de popularidade no decorrer da sua missão de Presidente da República Francesa, a determinação com que reagiu aos atentados cometidos por grupos terroristas na pátria da “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” fez com que recuperasse posições de consideração no seu país e no estrangeiro. Também tomou parte essencial na decisão estratégica que impediu a vitória da extrema direita nas eleições regionais, em defesa de uma coligação que funcionou como obstáculo à “Frente Nacional”. Foi uma das figuras do ano, a nível internacional.
HOMO NALEDI
Em setembro, foi descoberta uma nova espécie do género humano até aqui desconhecida, numa gruta da África do Sul, perto de Joanesburgo, onde foram exumadas as ossadas de quinze hominídeos. A nova espécie foi designada por “Homo naledi”, cujo pequeno cérebro e a forma da parte superior do corpo estão mais próximos de um grupo pré-humano. Entretanto, um grupo de investigadores descobriu, em Portugal, uma nova espécie de animal fóssil (uma trilobite) com 455 milhões de anos, achado considerado histórico.
INEM
Contestado pelos bombeiros que se recusam a dividir serviço com o Instituto Nacional de Emergência Médica e sobressaltado com abusos do presidente Paulo Campos, entretanto demitido pelo ministro da Saúde, numa gestão marcada por inúmeras polémicas, o INEM esteve em plano negativo nos acontecimentos deste ano.
JE SUIS CHARLIE
Em 7 de janeiro, um atentado terrorista, em Paris, alarmou a Europa. Foi atacada a redação do jornal satírico “Charlie Hebdo” que causou 12 mortos (oito jornalistas, dois polícias e dois civis). Dias depois, uma manifestação de repúdio mobilizou quatro milhões de pessoas, incluindo os principais chefes políticos mundiais. O movimento de repulsa pelo bárbaro atentado e de apoio ao irreverente jornal ficou conhecido como “Je suis Charlie”.
JORGE JESUS
Surpreendentemente transferido do Benfica para o Sporting, em junho, o treinador motivou um conflito de grandes dimensões que implicou o corte de relações entre os dois clubes lisboetas.
KEPLER
Lançado em 2009, o telescópio espacial da agência norte-americana NASA desvendou muitos segredos que pairavam no espírito de descoberta humana. À procura de novos mundos, identificou, em julho, o primeiro planeta gémeo da terra (designado por “Kepler 45 2b”), na “zona habitável” de uma estrela semalhante ao sol.
LAVA JATO
A justiça brasileira procura apanhar políticos envolvidos em corrupção (Operação “Lava Jato”), a partir da “Construtora Odebrecht”, acusada de lavagem de dinheiro de Portugal para a Suíça. A presidente da República, Dilma Roussef, está envolvida, assim como o anterior presidente, Lula da Silva. Manifestações de rua solicitam a demissão de Dilma, que acusa a oposição de um golpe antidemocrático. O processo foi iniciado após a denúncia de “offshores” e verbas usadas pela “Odebrecht” para pagar luvas a ex-dirigentes da “Petrobrás”, um esquema que teve a participação dos partidos PT e PMDB. No final do ano, a polícia federal brasileira lançou uma operação em sete estados, cujas buscas atingiram a cúpula parlamentar. Não obstante as reiteradas manifestações populares, exigindo o fim do governo de Dilma, o Supremo Tribunal Federal do Brasil suspendeu a comissão de exame aos atos da Presidente da República e anulou o atual processo de destituição da presidente, obrigando o Congresso a reiniciar todo o procedimento a partir do zero.
LEGISLATIVAS
Pela primeira vez, na história da democracia em Portugal, o partido mais votado nas eleições legislativas de 4 de outubro não formou governo. A coligação “Portugal à Frente” (sociais-democratas e democratas-cristãos) obteve 38,48% dos votos, o Partido Socialista alcançou 32,38%, o Bloco de Esquerda chegou aos 10,22% e a CDU (comunistas e verdes) reuniu 8,27%.
LUATY BEIRÃO
Vários ativistas angolanos foram presos na sequência de manifestações contra o regime do Presidente da República, José Eduardo dos Santos. Um deles, Luaty Beirão, tornou-se muito mediatizado pela greve de fome que encetou (esteve 36 dias sem comer), exigindo um julgamento rápido e justo, desmentindo a acusação de terem preparado atos tendentes a uma rebelião e um atentado contra o presidente. Já em dezembro, os 15 ativistas que continuam presos anunciaram novamente greve de fome coletiva.
MADEIRA
Depois de tantos anos de Alberto João Jardim como presidente do Governo Regional da Madeira, Miguel Albuquerque sucedeu-lhe, após ter ganhado as eleições, com uma tangencial maioria absoluta que foi posta em causa pela CDU e o seu candidato Edgar Silva (posteriormente apresentado pelo Partido Comunista Português como candidato às eleições para a Presidência da República portuguesa), nas eleições regionais.
MOURINHO
Apesar do apoio dos adeptos, o “Special one” saiu do Chelsea, em dezembro, por culpa de resultados menos conseguidos, num período que o célebre treinador português considera ser “o pior da minha carreira”. Entretanto, muitos clubes já apontam baterias para a sua contratação.
MILIONÁRIOS
Em Portugal, segundo a revista Exame, os milionários estão em fase de perda em relação aos anos anteriores. Américo Amorim, fundador do Grupo Amorim (3,9 mil milhões) é o único entre as 500 maiores fortunas; Belmiro de Azevedo, fundador da Sonae, está na segunda posição nacional (1,8 mil milhões); e Alexandre Soares dos Santos, fundador da Jerónimo Martins, ocupa a terceira posição (1,6 mil milhões).
NOVO BANCO
Num ano em que os três maiores bancos privados portugueses (BCP, BPI e Totta) registaram um lucro total de 700 milhões de euros, verificou-se mais um “buraco” no ex-BES de 1,4 mil milhões. Multiplicaram-se as manifestações do grupo ds lesados do BES que não obtiveram solução para as suas reivindicações. Anunciada a venda do BES para depois do plano de reestruturação, acabou por ser adiada, apesar das candidaturas chinesas do “Aubang” e “Fosun”, cujo dono (que adquiriu a seguradora “Fidelidade” à CGD) acabou por ser detido num aeroporto europeu, acusado de corrupção (branqueamento de capitais). Entretanto, verificou-se um aumento de prejuízos na estrutura do “banco bom” resultante da intervenção do Estado e do Banco de Portugal. Para a venda do “Novo Banco”, o Fundo de Resolução sugere uma operação que faça injetar mais 400 milhões de euros que possam melhorar os rácios do grupo. Nos testes de stresse, o Banco Central Europeu detetou uma necessidade de reforço de capital neste banco no valor de 1400 milhões de euros.
OBITUÁRIO
O cineasta Manoel Oliveira e Maria Barroso foram os portugueses mais evidentes desaparecidos, por morte, em 2015. Outras referências: José Mariano Gago, em abril; Herberto Hélder, em março; José Fonseca e Costa, em novembro; Silva Lopes, em abril; Ana Hatherly, em agosto; Delfina Cruz, em novembro.
PAPA FRANCISCO
O papa da mudança, com gestos que determinam novas direções nos caminhos da Igreja Católica (“pobre para os pobres”), homem de paz, inspirado em Francisco de Assis, a quem foi buscar o nome papal que nunca tinha havido. Sem receio dos confrontos, denunciou os atentados ao ambiente (“ou melhoramos ou destruímos”) – tendo publicado a encíclica, “Laudato si”; o uso de preservativo e de uma sexualidade desmedida (os católicos não devem procriar “como coelhos”) ou a procriação assistida. Dirigiu apelos à paz, contra a corrupção e contra a Máfia; defendeu a integração dos marginalizados e dos refugiados, rejeitou os “bispos patrões dos dons de Deus”, sugerindo perdão para quem aborta e para os divorciados, criticando o capitalismo, a economia e a política que geram desigualdades sociais, incentivando o combate à pobreza, pedindo a abolição da pena de morte e o fim dos atentados e do terrorismo, pronunciando-se até contra o dinheiro sujo do futebol e integrando no Sínodo da Família questões fraturantes como a homossexualidade, a pedofilia (o papa criou um tribunal internacional para julgar encobrimentos de abusos de crianças), a adoção de crianças pelos “gays” ou a separação de casais. Levou a cabo visitas importantes à América Latina (aos “países pobres” do Equador, Paraguai e Bolívia), a Cuba, à África Central (Quénia, República Centro Africana, Uganda e Bangui), estando já marcada a vinda do papa a Fátima, em 2017, no centenário das aparições. Intermediário de causas, recebeu o presidente palestiniano Abbas e discutiu com os presidentes de Cuba (Raul Castro) e dos Estados Unidos (Barack Obama) o termo do bloqueio diplomático entre os dois países. Como fator inesperadamente negativo, o “ato deplorável” da fuga de documentos confidenciais que deu origem à publicação de dois livros que pretenderam revelar o mau funcionamento da estrutura do Vaticano e a existência de fraudes (“Vatileaks”). Em dezembro, celebrou o seu 79º aniversário com o “Jubileu da Misericórdia” em defesa da população mundial que vive em extrema pobreza e de alarme para a indeferença que os demais exibem perante aqueles.
PRESIDENCIAIS
Para além de vários nomes de cidadãos comuns e desconhecidos, a direita está representada pelo mediático “comentador televisivo” Marcelo Rebelo de Sousa, da família social-democrata, depois da desistência de Rui Rio. Na esquerda, três candidaturas vindas da família socialista (Sampaio da Nóvoa, Henrique Neto e Maria de Belém), uma proposta e apoiada pelo Partido Comunista Português (Edgar Silva) e uma outra do Bloco de Esquerda (Marisa Matias). Em dezembro, uma sondagem da Universidade Católica avançou com um resultado que aponta para uma vitória de Marcelo Rebelo de Sousa (62%), seguido de Sampaio da Nóvoa (25%) e Maria de Belém (14%).
QUEDAS DE AVIÃO
O último dia de outubro conheceu uma grave tragédia que se seguiu a uma série de atentados que fizeram cair aviões, vitimando civis de várias nacionalidades. O abate de um avião russo no Monte Sinai (Egito) matou 224 pessoas que terminavam as suas férias. Dias depois, a Turquia abateu um outro avião russo (“caça”), alegando violação do seu espaço aéreo, forçando novas tensões entre os dois países. Mas a grande e mais impressionante tragédia na aviação ocorreu em 24 de março. Nos Alpes, morreram 150 pessoas, na sequência da queda de um “Airbus” da companhia “Germanwings”, motivada por atitude suicida do copiloto Andreas Lubitz, quando este se encontrou sozinho no “cockpit”, devido a uma saída momentânea do comandante do voo. Lubitz sofria de uma grave depressão que o levou a fazer despenhar voluntariamente o aparelho. Em agosto, um avião caiu na região de Papua, com 54 pessoas a bordo. Não houve sobreviventes. Foi acidente e não atentado, neste caso.
REFUGIADOS
A “Primavera Árabe” associada aos proverbiais desencontros de povos no Médio Oriente e regiões adjacentes levaram ao conflito armado que permitiu a formação do ISIS, exército autointitulado “Estado Islâmico”. Com o eclodir das numerosas guerras, massas enormes de pessoas (800 mil) avançaram pelo mar Egeu e pelo Mediterrâneo, em busca de uma redenção que lhes fosse garantida no continente europeu. A marcha dos milhares de refugiados demonstrou fragilidades no velho continente, mesmo assim tentando a recomposição de uma situação complexa, absurda e estranha que causou mortos na fuga ao horror. O trajeto foi iniciado em Lampedusa (Itália) e estendeu-se pela Grécia (ilha de Lesbos), Espanha (Málaga), Turquia e Malta, com a criação de campos de refugiados e vários países limitando e impedindo a marcha dos migrantes asiáticos (Síria, Líbia, Paquistão, Egito, Iraque) colocando muros nas fronteiras, invocando a suspensão do acordo Schengen. Em novembro, Portugal acolheu os primeiros refugiados dos cerca de 4500 previstos para se instalarem no nosso país. Esta é a maior crise de fluxos migratórios desde a 2ª Guerra Mundial.
RONALDO
O futebolista português colecionou recordes no Real Madrid e na seleção nacional. Em janeiro, foi eleito, pela terceira vez, o melhor jogador do mundo, “esmagando” a concorrência do argentino Messi e do alemão Neuer (para 2016, volta a ser candidato, desta vez defrontando o mesmo Messi e o brasileiro Neymar). Sempre nas “bocas do mundo”, por todos os motivos, Ronaldo recebeu também, pela quarta vez, a “Bota de Ouro” europeia, ao marcar 48 golos este ano (ultrapassagem dos 500 golos na carreira, tendo-se tornado no melhor marcador da história dos “merengues” e da Liga dos Campeões). Homenagens, livros, um avião a jato por si adquirido, um filme documentário, exposições, contratos de publicidade sem conta, o Museu CR7 na Madeira, a separação de Irina Shayk, a presença do filho e a faustosa festa do seu 30º aniversário, fizeram parte dos êxitos de Cristiano Ronaldo neste ano.
SÓCRATES
Detido no ano anterior, no aeroporto de Lisboa, vindo de Paris, suspeito de fraude fiscal, corrupção e branqueamento de capitais, o ex-primeiro-ministro português esteve preso nove meses e dez dias na cadeia de Évora. Travou lutas contra o sistema judicial, invocando inocência que o levaram à libertação após tempo de prisão preventiva que foi palco de inúmeras peripécias. Antes de ser libertado sem qualquer acusação, múltiplos recursos não tiveram o resultado que o seu advogado João Araújo defendia. Apesar de reavaliações de medidas de coação e de pedidos de “Habeas Corpus”, Sócrates manteve-se preso até setembro, sendo sustentada pelo juiz Carlos Alexandre a tese de “perigo de fuga” e de “perturbação do inquérito”. Em junho, o Ministério Público propôs detenção domiciliária com pulseira eletrónica que Sócrates não aceitou. Em 4 de setembro, Sócrates passou a ficar detido em casa, sem pulseira, tendo-se deslocado à assembleia eleitoral em que exerceu o seu direito de voto, em 4 de outubro. O seu amigo Carlos Santos Silva, extravio de dinheiros na Suíça, “Freeport”, “Grupo Lena”, parcerias público-privadas, “Operação Marquês”, “Octafarma”, “Parque Escolar”, TGV, “Vale do Lobo” foram peças de um “puzzle” que fez de Sócrates o primeiro ex-chefe de um governo preso em Portugal. Em 24 de novembro, teve acesso ao processo, o que sempre exigiu, e conseguiu impedir que um jornal e um canal de televisão divulgassem elementos desse processo em segredo de justiça. Retomou aparições públicas, tem vindo a conceder entrevistas e aguarda a acusação e possível julgamento, num processo que será moroso e complexo.
TAP
A companhia aérea de Portugal foi vendida em junho de 2015, em ano que acumulou prejuízos de 180 milhões de euros, quando se constatou não haver já dinheiro para pagar salários e despesas básicas, nomeadamente combustíveis, correndo o risco de insolvência financeira. Sobressaltada por um número inusitado de greves e pela concorrência “low cost”, passou de empresa lucrativa para a situação deficitária, providenciando o governo a sua privatização e venda a todo o custo. A venda acabou por processar-se a um consórcio (“Gateway”) dos empresários David Neeleman e Humberto Pedrosa que anunciaram, de imediato, investimentos de 269 milhões de euros. O Governo vendeu 61% da companhia por 354 milhões. Já no final do ano, o primeiro-ministro António Costa manifestou a sua intenção de recuperar a maioria do capital da companhia aérea para o Estado, tentando alterar o contrato de venda, permitindo que os dois acionistas (que afirmam não aceitarem ser minoritários) mantenham, no entanto, privilégios de gestão. Sem acordo adivinhável, a venda da TAP poderá terminar nos tribunais.
VOLKSWAGEN
O grande escândalo do ano foi o da manipulação das emissões de gases poluentes nos automóveis da Volkswagen (11 milhões em todo o mundo), mas que se estende a outras marcas do mesmo universo empresarial. Por entre pedidos de reembolso das ajudas públicas que foram concedidas para a compra de “veículos verdes” por vários países, a empresa foi causticada, em consequência, por prejuízos enormes (3,48 mil milhões no terceiro trimestre do ano, os primeiros em 15 anos) e por uma substancial quebra de vendas, obrigando a poupar nos custos e diminuir o número de trabalhadores. E a manipulação vinha acontecendo desde 2008. Em Portugal, a Autoeuropa passou incólume à problemática, mas a fraude aumentou 0,5% as emissóes poluentes do país. Portugal tem 94.400 carros adulterados.
YANIS VAROUFAKIS
Face mais visível do governo radical grego, como ministro das Finanças (responsável pelo diálogo, conversações e negociações com os “intermediários” da União Europeia) foi também a imagem da cedência consequente ao estabelecimento de um terceiro resgate que motivou o seu divórcio com o “compagnon de route” Alexis Tsipras.
ZONA EURO
Falou-se muito dela, a propósito das ameças da Grécia e do Reino Unido em deixá-la, o que motivou preocupação entre os Estados Unidos e os demais estados-membros que constituem a União Europeia. Até ao último dia de 2015, nada se modificou quanto a essa matéria.




