Teve necessariamente uma longa catequese teórica e prática na paróquia da sua residência em Portugal, ministrada por uma pessoa adulta e piedosa, pois não se tratava somente de uma informação cultural mas de uma mudança de vida e de comportamento religioso. Por isso, antes do baptismo, senti necessidade de me encontrar com esse homem para um diálogo pessoal, a fim de me informar do seu real estado de alma e da motivação mais profunda do baptismo: se era somente o desejo de se casar com uma mulher católica (e, para isso, não seria necessário baptizar-se, bastando uma dispensa de disparidade de culto) ou se era mesmo vontade de ser cristão, o que exigia o abandono definitivo do credo islâmico com todas as suas consequências.
Com surpresa minha, o homem declarou que a sua vontade era mesmo ser cristão e que, se não casasse com aquela mulher, desejava igualmente ser admitido na Igreja católica e abandonar definitivamente a crença muçulmana. Prolongando o diálogo, notei que tinha um especial afecto pela pessoa de Jesus, pelo Evangelho e até por toda a Bíblia; que ia à Missa aos Domingos para aprender a rezar como os cristãos; e gostava de ser baptizado na Sé como a igreja mãe dos cristãos da diocese.
Falámos da mudança mental que o cristianismo implica: a concepção do mistério de Deus (a fé na Santíssima Trindade e não somente num monoteísmo vago), a fé na Criação do mundo e na Incarnação do Filho de Deus, a existência da Igreja como comunidade prescrita pelo próprio Jesus. Tudo isso conhecia intelectualmente e nisso acreditava com plena adesão e alegria interiores. Percebendo a minha admiração pela sua capacidade de discernimento, disse que havia frequentado durante um ano a universidade na sua terra de origem, que depois abandonou para ir trabalhar em França.
Feito o baptismo, continuei a interrogar-me a mim próprio o que será um adulto mudar de estrutura mental religiosa, afectiva e social.
2 – Volvidos estes meses, chegou às minhas mãos o livro “O Preço a pagar”, editado pelas Paulinas, em que um muçulmano do Iraque narra em primeira pessoa a sua conversão à fé católica, o casamento imposto pela família, a conversão da esposa, a perseguição que isso desencadeou no seu poderoso clã familiar e na sociedade iraquiana totalmente organizada em torno do credo islâmico, a fuga heróica através da Jordânia, a rede policial para o capturar e, finalmente, a chegada a Paris.
A narrativa, viva e sangrenta, tem a sedução de um romance policial e a frescura pascal do baptismo, e revela a alma de um homem surpreendentemente corajoso e coerente. Evoca imediatamente o heroísmo dos mártires cristãos dos primeiros séculos (Eu lembrei-me depressa de «A Fabíola», um romance histórico sobre os primeiros cristãos em Roma). Em «O Preço a pagar» encontrei a resposta vivida às perguntas que me fizera a mim próprio acerca do baptismo do muçulmano na Sé de Vila Real.
3 – Não tenho nenhuma comissão nem intuito de apresentação crítica deste livro, e a referência que lhe faço obedece unicamente à sua premente actualidade e ao forte impacto que ele exerceu sobre mim.
Para além de ajudar a perceber o que é por dentro uma conversão à fé católica e o encanto por Jesus Cristo e a consequente vida cristã levada ao heroísmo – experiência que nós, herdeiros pacíficos da fé, não tivemos -, o livro permite conhecer a luta interna entre os vários ramos do islamismo, o que é uma sociedade totalmente islamizada e vigiada, fechada a qualquer outro credo e que persegue e mata os cidadãos que pretendam abandonar essa sociedade ou os estrangeiros que tentem influenciar os cidadãos dela prisioneiros. Em contraste, sente-se a libertação cristã pessoal e familiar, a dignidade da mulher, o encanto pela leitura piedosa do Evangelho e sua aplicação ao dia a dia, a razão por que as Igrejas devem estar separadas dos Estados.
Numa época em que as agências noticiosas nos informam de perseguições e torturas infligidas aos cristãos em terras muçulmanas, e lançam dúvidas sobre o futuro político e religioso do Egipto, da Tunísia e da Líbia, recentemente libertas de longos e autoritários governos de cariz familiar, este livro é de uma actualidade flagrante. Pode ainda servir para fazer o contraste cultural e vivencial entre os que, de fora, tentam minar o valor da Bíblia e os que nela encontram a fonte da sua vida pessoal, familiar e social.


