Sábado, 25 de Abril de 2026
Em FocoUma rua, uma história para contar…

Uma rua, uma história para contar…

Algumas contam com a mestria da calçada portuguesa nos passeios, outras, mais simples, apenas somam paralelos ou fazem lembrar rios de asfalto. Em algumas são inúmeras as portas, outras há onde são poucos os que lá vivem. Umas são centrais e movimentadas, outras nem por isso… Qualquer que seja o perfil, a localização ou a dinâmica de uma rua, a verdade é que todas, todas encerram no seu nome algo para contar, como se a cada esquina se vire mais uma página da história de um povo

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O dia está escuro e a chuva leva os peões a caminhar de forma apressada, cada um concentrado no seu destino final. Num dia assim, em que não há lugar ao calcorrear despreocupado das ruas, a desatenção para o que está à volta ainda é maior. Se habitualmente são poucos os que olham para a placa que diz Avenida Aureliano Barrigas, hoje é mesmo provável que ninguém tenha cruzado os olhos com o pequeno sinal, estrategicamente colocado. Mas é exatamente aqui que começa a nossa “aventura” toponímica pela cidade de Vila Real.

“Uma povoação revê-se nos nomes que dá às suas ruas. E é sempre estimulante, quando estamos numa terra alheia, ler a sua toponímia, saber que pessoas, datas e acontecimentos estão consagradas nela. É um pouco um acesso privilegiado à história da localidade”, explicou o historiador Elísio Neves numa sessão dedicada à Toponímia Vila-realense do ciclo de encontros “História ao Café” (textos publicados no livro com o mesmo nome).

Mas o desafio da VTM é que, antes de descobrir a toponímia de outras localidades, comece pela sua rua e arredores. Saiba o porquê dos nomes ou quem foi a individualidade que mereceu um lugar nas tais pequenas placas estrategicamente colocadas no início de cada rua, avenida, travessa ou mesmo quelho. Vão descobrir que passear, atentamente, por um bairro, aldeia ou cidade é descobrir momentos importantes da história e lendas locais ou verdadeiramente homenagear pessoas excecionais, que se destacaram na sociedade pelo seu altruísmo, pela sua dedicação à causa pública, pelo seu profissionalismo ou por terem elevado mais alto o nome da sua terra natal.

 

Da Aureliano Barrigas até ao “Buraco Sagrado”

 

Começar uma (curta) caminhada na Avenida Aureliano Barrigas é começar por recordar um dos grandes emblemas de Vila Real: As corridas. Como a própria placa indica, Aureliano Barrigas nasceu em 1893 e morreu 55 anos depois, mas não sem antes ter marcado a cidade com a sua paixão pelo desporto, sendo reconhecido como o grande impulsionador do Circuito Automóvel, que se realizou pela primeira vez em 1931. Outra curiosidade de sublinhar é o facto deste vila-realense, também um dos fundadores do Sport Clube de Vila Real, ter assinado, em 1922, o cartaz a anunciar a inauguração do Campo do Calvário, antigo Campo da Eira.

E seguimos o caminho, em direção ao centro da cidade, que nos leva até à avenida Almeida Lucena, artéria que deve o seu nome a um vila-realense que, segundo o historiador Barroso da Fonte, no Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses, “fez muito em pouco tempo, pois faleceu com 38 anos de idade”. Destacando-se enquanto político, António Correia de Almeida Lucena foi presidente da Câmara, por eleição direta, em 1866/67 e 1872/73, e a sua história foi perpetuada numa avenida que antes ostentava o nome de Rua da Carreira e, ainda antes, de Rua do Jogo da Bola.

Mais à frente, e deixando para trás as ruas da Boavista, 31 de Janeiro e Combatentes da Grande Guerra, eis que “encontramos” Teixeira de Sousa, um médico, escritor, natural de Celeirós do Douro (1857) mas que começou a sua carreira política em Vila Real e que ficou na história do país por presidir o último governo da monarquia constitucional, sendo deposto pela revolução de 5 de outubro de 1910.

As passadas seguintes levam-nos a atravessar a avenida 1º de Maio, seguindo depois pelas apertadas artérias de uma das zonas mais antigas da cidade, onde não é difícil encontrar a casa onde viveu o escritor Camilo Castelo Branco e onde, obviamente, se pode também caminhar pela rua que lhe foi atribuída como forma de homenagem.

Se a grande maioria das pessoas conhece, um pouco que seja, sobre o homem atrás da obra “Amor de Perdição”, muitos poucos saberão contar a história dos Freitas, dois irmãos cuja memória está perpetuada no Largo onde vai dar a rua Camilo Castelo Branco. Pois foi graças aos dois beneméritos que foi construído, há cerca de 200 anos, o atual edifício dos Paços do Concelho, uma construção que albergou primeiro o “Hospital da Divina Providência” e que há cem anos serve de morada à autarquia vila-realense.

A “dois passos” da rua do Buraco Sagrado, pode-se escolher seguir entre a rua com o mesmo nome, ou caminhar em direção a Rua de S. Dinis, pequena artéria mas que deverá ser uma das mais antigas de Vila Real, sendo de sublinhar que foi a primeira “rua Direita” da cidade, assim batizada popularmente por ser considerada a que ia dar mais diretamente ao centro da localidade.

Ao lado, eis que está o quelho e a rua do Buraco Sagrado, uma zona, cheia de história, que integra a lenda do Santo Soldado. Reza a lenda que ali foi escondido o cálice que o soldado António Pegueira foi erradamente acusado de roubar, um crime pelo qual acabou por morrer injustamente. Depois de ter sido fuzilado o Santo Soldado, um outro soldado acabou por confessar que tinha escondido o cálice num buraco das muralhas, “tendo-o posteriormente colocado na mochila de António Pegueira, alarmado pelo facto de que os machos e cavalos dos moleiros se atiravam para o chão ao passarem junto ao esconderijo e só depois de muito fustigados prosseguiam caminho, o que poderia constituir sinal de que o roubo acabaria por ser descoberto”, contou Elísio Neves numa outra sessão do ciclo “História ao Café”.

 

Dezenas de ruas, dezenas de histórias

 

O percurso que a VTM fez, com o apoio de Vítor Nogueira, historiador e diretor da Biblioteca de Vila Real, é um dos muitos que podem ser “desenhados”. Muitos outros caminhos podem ser calcorreados e muitas outras histórias podem ser descobertas. Gonçalo Cristóvão, Madame Brouillard, Emílio Biel, D. Margarida Chaves, Dr. Henrique Botelho (pai e filho), Augusto Rua. Esses e muitos mais nomes fazem parte da toponímia de uma cidade que também tem um Pátio das Cantigas, um Beco das Bruxas, duas artérias com a mesma denominação e um bairro em que as ruas mereceram o nome de todos os concelhos do distrito.

A mais recente rua da cidade, a rua Padre Max, foi inaugurada no dia 25 de abril de 2014, depois de um processo que se prolongou ao longo de alguns anos. “É uma homenagem merecida pelo seu papel na democracia portuguesa, pelos valores que defendia e pelo que significou para a região”, explicou Rui Santos, presidente da Câmara Municipal de Vila Real.

A atribuição de nomes às artérias é uma responsabilidade da autarquia, no entanto, como explicou o autarca, apesar de muitas outras personalidades merecerem esta homenagem, atualmente “já é um processo mais complicado” uma vez que o ‘mapa’ do concelho já está “consolidado”, ou seja, são praticamente inexistentes as ruas e avenidas que ainda falta “batizar”.

 


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