Domingo, 7 de Dezembro de 2025
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IgrejaUma sondagem religiosa e o Ano da Fé

Uma sondagem religiosa e o Ano da Fé

1 – Em outubro passado, a Conferência Episcopal encomendou a uma equipa da Universidade Católica um inquérito científico sobre «Identidades religiosas em Portugal: representações, valores e práticas». O resultado desse trabalho foi apresentado na assembleia ordinária da CEP do mês de abril, realizada na passada semana, e dele falaram os jornais. O estudo irá ser […]

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1 – Em outubro passado, a Conferência Episcopal encomendou a uma equipa da Universidade Católica um inquérito científico sobre «Identidades religiosas em Portugal: representações, valores e práticas».

O resultado desse trabalho foi apresentado na assembleia ordinária da CEP do mês de abril, realizada na passada semana, e dele falaram os jornais. O estudo irá ser publicado na revista Lumen para reflexão mais aprofundada. Deixam-se aqui algumas anotações apresentadas pelo responsável desse inquérito.

2 – Em vez do recenseamento da prática dominical habitualmente feito de dez em dez anos, que ficaria restrito à vida interna da Igreja, optou-se por encomendar um trabalho que mostrasse qual a identificação religiosa dos portugueses. É um estudo mais abrangente que o recenseamento, mas ainda não inclui as regiões da Madeira e dos Açores. O inquérito foi dirigido a cerca de 4 mil pessoas de 15 ou mais anos de idade, um número superior ao que é habitualmente usado em casos semelhantes

As perguntas formuladas obedeceram a uma grelha variada e as respostas podem agrupar-se em sete categorias: 1. pessoas não crentes (incluindo os indiferentes, os agnósticos, os ateus) – 9,6 %; 2. crentes sem religião – 4,6; 3. católicos – 79,5; 4. protestantes (incluindo os evangélicos) – 2,3; 5. outros cristãos (incluindo a Igreja Universal do Reino de Deus ou IURD e os ortodoxos) -1,4; 6. testemunhas de Jeová -1,3; 7. outras religiões – 0,7

Os que se declararam religiosos podem agrupar-se em dois grupos: os «católicos» que desceram de 86,9 para 79,5, mas este número representa, entre os crentes com religião, 93,3. O outro grupo, formado pelos protestantes, ortodoxos, testemunhas de Jeová, indus e muçulmanos), soma 5,7. (No censo anterior eram 2,7).

3 – Cada um daqueles grupos merecia ser analisado no seu conteúdo interno. Em «católicos», por exemplo, incluem-se os «participantes semanais nos atos de culto», os que «vão mensalmente», os que vão «algumas vezes por ano», os que «vão nas festas», os que «vão raramente». Para saber essas variantes seria necessário o habitual recenseamento. Dos praticantes, mais de metade é de mulheres, com idades superiores a 45 anos. Uma pergunta para que não há resposta seria saber para onde foram os que deixaram de ser «católicos»: se entraram em «outras religiões» ou foram engrossar o número dos «sem religião»?

A zona do país mais heterogénea – com católicos, outras religiões e sem religião -, é o «Vale do Tejo e Lisboa», o que se compreende pela deslocação de pessoas de todo o país e fixação de muitos imigrantes de Leste, de África e do Brasil. O regresso de muitos deles pode alterar os números nos próximos anos.

4 – O inquérito realizado é um trabalho complexo, sobretudo quando se cruzam os números de um grupo com os de outro.

Em primeiro lugar, vale a pena fixar a criação de um grupo não habitual nestes trabalhos de sociologia religiosa – os crentes sem religião -, isto é, pessoas que se dizem não ateias nem agnósticas mas que não se sentem integradas em nenhuma religião organizada. 4,6 dos inquiridos é um número expressivo, que reflete a extensão ao mundo religioso de uma atitude típica dos nossos dias – o individualismo subjetivista. Assim como há na sociedade civil um número cada vez maior de cidadãos que não se reconhecem nos partidos políticos organizados, de igual modo há pessoas que se dizem crentes mas sem o sentido de pertença a qualquer religião organizada. Fazem lembrar o Nicodemos do Evangelho que andava de noite à procura de Jesus para conversar a sós, à margem da multidão e do grupo dos discípulos. Vistos de fora, entregues a si mesmos, esses crentes sem religião parecem descrentes e, se somarmos os dois grupos, constituirão 14,2 dos inquiridos, o que significa alguns milhares de pessoas.

Verifica, depois, que a fé não é uma questão geracional, isto é, a educação familiar não basta para a transmissão da fé, cruzando-se outros fatores, tais como a escola, o ambiente, os amigos, os meios de comunicação social. Todavia, quando os pais se empenham, o papel da família ainda é preponderante na transmissão da fé.

Notou-se também que a fé é apolítica, não arrasta consigo uma dimensão política clara, o que será benéfico se isso significar que nenhum partido esgota a mensagem cristã (permitindo a liberdade de escolha), mas será negativo se significar que a fé não tem reflexos na opção política.

Finalmente, o inquérito revela ser grande a desorientação reinante no mundo religioso e, concretamente, no católico, como fruto do «fenómeno urbano». Chama-se assim uma cultura de massas, híbrida, sincretista, sem grande reflexão, que tende a espalhar-se por toda a parte através dos meios de comunicação social, criando uma «uniformidade cinzenta», o seguidismo da moda ideológica. É um caldo de cultura sem verdade e sem regras, uma vida subjetivista, relativista e amoral, em que os cidadãos seriam controlados unicamente pelo poder policial.

Estes vetores fazem sentir quão necessário é o Ano da Fé, uma jornada que faça perceber a dimensão comunitária da fé cristã, que eduque o sentido de «pertença» à Igreja organizada, conforme ensina a constituição conciliar sobre a Igreja (Lúmen Gentium,10); que promova o conhecimento dos «conteúdos» da fé, ultrapassando o mero sentimento religioso; e que afaste a religiosidade vaga do crente sem religião, desenvolvendo o afeto à pessoa de Jesus Cristo, uma «fé com rosto».

 

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