Vila Pouca de Aguiar não é só uma localidade rica em granito, é também uma terra de tradições, de água, pão e moinhos, são “pedaços” de memória que ficam na história das localidades e da vida das pessoas. Eusébio Borges, de 64 anos, é um verdadeiro resistente e ainda mói os cereais para os seus animais num antigo moinho movido a água. Esteve alguns anos emigrado em França, no entanto, quando regressou à terra natal, em Telões, concelho de Vila Pouca de Aguiar, voltou a trabalhar na agricultura e na criação de animais. Tem um cavalo, vacas, porcos, galinhas, ovelhas, que são alimentadas exclusivamente por cereais que saem do seu moinho, pois não há nada “mais puro do que aquilo que colhemos nas nossas terras e depois moemos para dar aos bichos”. O seu dia começa bem cedo, com várias tarefas que tem agendadas meticulosamente, como a alimentação para os animais, o trabalho nos terrenos agrícolas, onde há sempre muito para fazer, sobretudo nesta altura, da primavera, em que é necessário semear para mais tarde colher.
Hoje (terça-feira) foi dia de ir até ao moinho, localizado no cimo da aldeia de Telões, no concelho aguiarense. Prepara os sacos com o milho, trigo ou centeio, carrega a carroça que é depois puxada pelo cavalo e sobe serra acima, por caminhos sinuosos e escorregadios, até ao moinho. Já lá no cimo da aldeia, fica o moinho, movido a água, que por esta altura tem muito que “fazer”. Os sacos são retirados da carroça e os cereais colocados numa caixa de madeira, mais conhecida por tremonha, que depois deixa descer os pequenos grãos até à mó, que os transforma em farinha. Antigamente era muito utilizado nas aldeias para fazer pão, mas atualmente serve essencialmente para dar de comer aos animais. Eusébio Borges sempre fez isto desde pequeno, já que costumava ir com o pai até ao moinho da família para ajudar nas tarefas agrícolas. “Vinha com o meu pai até aqui e foi aprendendo, ao ver como ele fazia. Isto nem toda a gente sabe fazer, há coisas que é preciso saber manobrar”.
Enquanto tiver forças, este agricultor pretende continuar a moer os cereais que colhe no seu moinho, já que também lhe custou muito a reconstruir, há cerca de quatro anos, numa altura que estava quase a cair. “O moinho funciona à base da água, que é a energia que o move, mas já ninguém se interessa com isto, tenho um filho, de 17 anos, que não liga nada a este trabalho”, lamenta Eusébio Borges, que garante que faz este tipo de trabalho “com muito gosto”.
Não vai diariamente ao moinho, só quando precisa de alimento moído para dar aos seus animais. “A farinha que sai daqui é muito melhor do que a ração que se compra para dar aos porcos, galinhas, vacas. É tudo muito mais puro e sem pesticidas”, garante.
Depois de algumas horas de espera, é tempo de colocar a farinha nos sacos e trazer até casa para dar de comer aos seus animais.
Autarquia dedica quatro dias aos moinhos
O dia nacional dos moinhos é a 7 de abril e a autarquia de Vila Pouca de Aguiar aproveitou o desafio lançado pela Associação Nacional de Moinhos para promover os moinhos que tem em funcionamento no concelho. Assim de 7 a 11 de abril, os moinhos vão estar abertos às pessoas que os queiram visitar, como nos referiu Rita Dias, vereadora da Cultura da autarquia aguiarense. “Estes espaços vão estar permanentemente abertos para quem os quiser visitar e ver como era o sistema de moagem e triagem dos produtos. Neste momento temos sete moinhos a funcionar, mas há mais espalhados pelo concelho, que estão degradados e que seria necessário recuperar”.
Vreia de Jales, Telões, Tresminas são algumas das localidades onde há moinhos a funcionar e que as pessoas poderão visitar durante os quatro dias, em que há programas definidos aliados a estas visitas. “As escolas e o grupo de escuteiros vão visitar os moinhos, através de percursos pedestres, já sinalizados, e depois podem fazer um convívio e um pic-nic”.
No futuro, a autarquia poderá vir a apresentar um projeto de preservação e valorização deste património nas suas vertentes material e imaterial, permitindo assim que os visitantes possam conhecer um pouco melhor o concelho, as suas gentes e a sua história. “Se for viável e houver fundos comunitários, poderemos avançar com novas ações de reabilitação das duas dezenas de moinhos que estão desativados”, sublinhou a vereadora da Cultura.





