Quinta-feira, 11 de Agosto de 2022

Vida perdida na barragem do Tua só vale 5500 euros

Valter Rodrigues morreu numa derrocada na barragem do Tua. Três anos depois, a viúva ainda espera pelo apoio da EDP, que nunca chegou. A EDP descarta qualquer responsabilidade neste caso, uma vez que a entidade empregadora não é a EDP e por isso não tem que assumir compromissos com os colaboradores de terceiros.

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Maria Manuela Rodrigues, de 50 anos, residente em Póvoa, freguesia de Castedo/Cotas, concelho de Alijó, perdeu o marido a 26 de janeiro de 2012, numa derrocada nas obras da barragem de Foz Tua, que provocou a morte de três trabalhadores, que residiam nos concelhos de Alijó, Armamar e Cabeceiras de Basto.

 

Os três operários foram apanhados por pedras e terra na sequência do desprendimento de uma rocha de grandes dimensões que esmagou por completo uma máquina giratória que se encontrava parada numa plataforma das obras, na zona onde está agora construído o paredão da barragem.

 

Valter Rodrigues, a vítima residente em Póvoa, trabalhava desde agosto de 2011 na ACE, grupo de empresas contratadas pela EDP para a Barragem de Foz Tua.

 

Depois de algumas promessas de responsáveis da EDP de que ajudariam a família no que fosse necessário, a verdade é que, volvidos quase três anos depois da tragédia, Manuela Rodrigues recebeu apenas apoio psicológico durante um ano, em consultas que teve em Alijó. “Tive consultas quinzenais, depois de três em três semanas, em Alijó durante um ano. A psicóloga fez um relatório em que referia que ainda necessitava de mais apoio psicológico mas a EDP decidiu acabar com as consultas. Esta foi a única ajuda que recebi da EDP. Da Companhia de Seguros recebi o que foi estabelecido pelo Tribunal de Trabalho, uma indemnização a rondar os 5500 euros, mais uma pensão vitalícia de 254 euros/mensais.

 

Inicialmente, a empresa elétrica terá prometido ajuda às famílias enlutadas, no entanto, na prática e passados quase três anos ninguém mais procurou ajudar as viúvas. Manuela Rodrigues refere que Rui Rodrigues, engenheiro na ACE, lhe garantiu que a EDP iria ajudar a família. Contactado pela nossa reportagem, Rui Rodrigues, referiu que, na altura, a “EDP pediu-nos para obtermos informação sobre a situação das famílias enlutadas pelo acidente. Eu próprio fiquei com esse papel e falei com os familiares, inclusive com a senhora Manuela Rodrigues, e disse-lhe que eventualmente a EDP não se iria esquecer deles. Na minha boa-fé, foi induzido a criar falsas expectativas nas pessoas. Sei que dentro da empresa elétrica havia a intenção de algumas pessoas ajudarem, mas isso não terá passado no topo da administração”.

 

O engenheiro lamenta ter-se envolvido nesta situação, já que ele próprio chegou a pensar que a EDP iria mesmo ajudar os familiares das vítimas, eventualmente com empregos, e sublinha que a ACE acionou todos os mecanismos legais para ajudar as famílias, inclusive pagou as despesas dos funerais e enviou o processo para a companhia de Seguro, como lhe competia.

 

No entanto, Manuela, com as lágrimas a correrem-lhe na face, só pede um emprego para conseguir sobreviver com dignidade, uma vez que os 254 euros/mês não dão quase para nada. “Só peço à EDP ou à ACE que me arranje trabalho, compatível com as minhas habilitações. Qualquer coisa serve”.

 

Já passou por vários empregos e o último que teve foi no Hotel da Romaneira, que só a contratava sazonalmente, seguiu-se um período no desemprego, em que esteve a trabalhar, através do Instituto do Emprego e Formação Profissional, numa escola em Castedo, que terminou em novembro, altura que também acabou o subsídio de desemprego.

Aos 50 anos e “cheia de saúde para trabalhar”, Manuela Rodrigues vê assim a sua vida suspensa e a solidão em que vive só é minimizada quando desce à aldeia ou quando está junto dos seus animais de estimação (um cão e um gato).

 

Os seus cinco filhos vivem em Lisboa, mas Manuela, apesar de ter lá vivido 11 anos, já não se identifica com a cidade grande e prefere mesmo continuar pela Póvoa, assim como o falecido marido, que sempre quis vir viver para a sua aldeia. “O meu marido sempre quis vir morar para a terra. Ele dizia que quando tivesse os filhos orientados, pretendia vir gozar a casinha dele. Mas nem isso conseguiu”.

“Infelizmente já nada tenho a perder, o que tinha a perder já perdi, por isso vou continuar a lutar para arranjar um trabalho”, disse lavada em lágrimas Manuela Rodrigues.

 

A viúva contou ainda um episódio que se recorda com muita tristeza, pois até parece que foi ironia do destino. “Antes de ter acontecido o acidente, o meu marido e os outros viram uma pedra soltar-se e pediu ao engenheiro para não o colocarem a trabalhar de noite. Um dia, ele estava sentado no sofá e disse-me que iam começar a trabalhar por turnos, mas de noite não queria trabalhar. Se me colocarem a trabalhar de noite, venho-me embora. Pois de noite não vejo as pedras a soltarem-se e de dia vejo. Afinal, foi à luz do dia que tudo aconteceu, logo ao início da tarde…”, lamenta Manuela Rodrigues.

 

ASSEMBLEIA MUNICIPAL DE ALIJÓ APROVA MOÇÃO

A 27 de dezembro, a Assembleia Municipal de Alijó aprovou uma moção de repúdio pela forma como a EDP tratou uma família após a morte do seu chefe. “O respeito pela vida humana e pela família das vítimas foi algo que não aconteceu, em particular para com a família de Valter Rodrigues, que foi ‘compensada’ pela perda humana com o valor simbólico, e verdadeiramente ofensivo, de 5000€ de indemnização e as despesas de funeral, num ato de verdadeiro desrespeito pela dignidade humana. A dona da obra, a EDP, ao que se sabe, também não mostrou preocupação pela situação em que ficaram as famílias ao ficarem órfãs do seu chefe”, refere a Moção aprovada.

 

Fonte oficial da EDP refere que a empresa “fez o que estava ao seu alcance”, mas sublinha que “a responsabilidade é sempre da entidade empregadora, ou seja, do consórcio construtor”. Ainda assim, a EDP “chegou a demonstrar alguma disponibilidade para ajudar  numa altura em que havia algum impasse burocrático em torno das indemnizações e seguros. Entretanto, estes instrumentos de cobertura de risco foram ativados e a situação ficou resolvida”, conclui a empresa elétrica.

 

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