Quando a vida interior se fecha nos próprios interesses, deixa de haver espaço para os outros, já não entram os pobres, já não se ouve a voz de Deus, já não se goza da doce alegria do seu amor, nem fervilha o entusiasmo de fazer o bem. Este é um risco, certo e permanente, que correm também os crentes. Muitos caem nele, transformando-se em pessoas ressentidas, queixosas, sem vida. Esta não é a escolha duma vida digna e plena, este não é o desígnio que Deus tem para nós, esta não é a vida no Espírito que jorra do coração de Cristo ressuscitado”.(2) Estas palavras do Papa merecem uma reflexão séria.
1º Coração cheio. A Alegria do Evangelho enche o coração e a vida interior daqueles que se encontram com Jesus. Precisamos de cultivar este encontro contínuo, amigo, cordial, tu a tu, coração a coração. Isto supõe mais tempo para Ele, mais oração, mais diálogo, mais contemplação, mais permanência junto d’Ele, mais intimidade com Ele mesmo durante o dia, o trabalho, a viagem, etc. Só assim seremos salvos por Ele, perdoados, redimidos, reconciliados. Libertos do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Só com este encontro contínuo poderemos ter o coração cheio da paz e da alegria. Como alimento a relação orante e amiga com Jesus e com o Evangelho? Que tempo, que companhia Lhe faço? Como permaneço n’Ele, estou n’Ele, vivo n’Ele e vou beber à fonte da Vida, que é paz e alegria?
2º O risco do mundo. A oferta do consumo e a busca dele lança-nos na tristeza, pois o coração se torna comodista e mesquinho. Há busca desenfreada de prazeres superficiais e a consciência fica isolada. Como sinto este risco mundano na minha vida, nos meus prazeres superficiais, na busca do consumismo doentio, nos apegos desordenados? Fecho-me nos meus interesses e não tenho espaço para os outros, para os pobres, os marginalizados, os doentes, os “pecadores”? Fechado nos meus interesses e prazeres, preocupações e apegos, não ouço a voz de Deus, não gozo da doce alegria do seu amor, nem fervilha em meu coração o entusiamo de fazer o bem. Sinto que esta “doença”, esta “atrofia”, esta mentalidade me prende, me torna “doente”, me manipula?
3º A vida que jorra do Coração do Ressuscitado. Quando me deixo aprisionar, adoecer, entristecer, fico ressentido, queixoso, sem vida para mim e para dar aos outros. Uma vida plena e digna, que é desígnio de Deus para seus filhos, é plena de paz e de alegria. A vida do Espírito em nós é fonte dessa paz e alegria que são os primeiros dons e frutos do Espírito Santo. É assim que eu vivo, que me esforço por viver, aceitando o desafio do amor de Deus que me dá a audácia do dom e da entrega e me faz feliz? Recordo a palavra de Paulo que “a felicidade está mais em dar do que em receber”? Dou e dou-me sem recusas, sem reservas, tentando ser “tudo para todos”? Ou deixo-me instalar, viver comodista, aburguesado, sem a alegria que nasce do Coração do Ressuscitado? Sem buscar a união contínua com Ele, sem esforço e audácia de querer fazer de Jesus meu tesouro, minha vida, minha paixão, meu único amor?





