2 – Para captar esse sentido, a constituição propõe que, além dos conhecimentos literários e linguísticos, se consulte a Tradição da Igreja acerca de cada texto, se faça a integração da leitura nos outros livros da Bíblia e se tenha em conta o que ensina a Igreja oficial sobre o tema. É que a Bíblia não pode contradizer-se e, tendo Jesus Cristo confiado à Igreja a missão de ensinar em seu nome, cabe à Igreja a última palavra: «tudo o que diz respeito à interpretação da Escritura está sujeito, em última instância, ao juízo da igreja, que exerce o divino mandato e ministério de guardar e interpretar a palavra de Deus» (n.12).
Ao fazer o balanço dos primeiros vinte e cinco anos do Concílio Vaticano II no que concerne à aplicação da Dei Verbum, um professor com a responsabilidade do P. Inácio de la Potterie diz que muitos exegetas não têm revelado fidelidade a esta orientação da Constituição, e se limitam ao sentido histórico do texto bíblico. E o Papa Bento XVI diz repetidamente na sua obra recente sobre Jesus Cristo que o sentido histórico da Bíblia, sendo necessário, não basta para se conhecer o sentido geral da Bíblia que é Jesus Cristo, Filho de Deus e Redentor.
3 – Além desse trabalho de «interpretação» confiado aos exegetas, a constituição fala da «atualização pastoral» da Palavra de Deus.
«Atualização não significa, aqui, modificação do texto nem alteração da doutrina, como acontece ao atualizarmos uma máquina envelhecida à qual se mudam ou suprimem peças. Também não significa subterfúgios, entrelinhas ou subtilezas ou cabalas, como fazem escritores do género «Código da Vinci», que não passam de jogos de imaginação.
«Atualização espiritual» é uma meditação pessoal da Bíblia. Por vezes chama-se «lectio divina», leitura interior que, no diálogo com Deus, permite captar a mensagem para o condicionalismo atual. Essa finalidade faz parte da intenção original do texto, nasce da ação do Espírito Santo ao inspirar o texto original, Espírito que mais tarde foi dado à Igreja e a cada batizado.
É, pois, um exercício diferente da exegese, é o aproveitamento espiritual do texto, a busca de luz, de conforto, de incentivo que a leitura da Bíblia traz ao leitor nas circunstâncias da vida de hoje, muito diferentes daquelas em que foram escritos os textos. Esta meditação espiritual não constitui violência, faz parte do plano da inspiração de Deus que quer falar a todos os povos. Também aqui é necessário ler a Bíblia religiosamente, isto é, com aquele mesmo espírito com que foi escrita (n.12).
4 – O ambiente mais apropriado para escutar esses apelos do Espírito é a proclamação oficial do texto na liturgia, diz a Introdução ao Lecionário romano. Mesmo antes de o padre falar, o Espírito de Deus desperta nos fiéis movimentos espirituais. Depois de ouvirem proclamar os textos bíblicos, as pessoas desejam receber uma ajuda do padre que preside, o qual deve fazer essa «atualização» para aquele povo e naquelas circunstâncias. Deste modo, a Bíblia é uma sarça que arde e ilumina o passado, o presente e o futuro, porque nela está acesa a chama do Espírito Santo que não se extingue.
Aos fiéis que aprenderam as verdades da fé em fórmulas catequéticas, a Constituição recomenda o contacto pessoal com o texto da Bíblia. Aí encontrarão, disseminada pelos vários textos, a doutrina que aprenderam em fórmulas de síntese, mas agora envolta numa enorme riqueza de sentimentos de louvor, de admiração, de adoração, de ação de graças, de arrependimento, de súplica, de beleza de quadros humanos e históricos, de perfis de homens e mulheres que incarnam exemplarmente o crente, o pecador e o convertido, e encontrarão o rosto de Deus – Criador, Providência, Pai, Filho e Espírito Santo. É muito diferente ouvir falar teoricamente de arrependimento e da misericórdia e ler os textos de David, da cananeia e da adúltera e do pródigo. As figuras bíblicas vão muito para além das fórmulas e dos casos moralizantes de autores pagãos e moralistas que entraram na pregação e na catequese dos últimos séculos.




