Quinta-feira, 28 de Outubro de 2021

A defesa da Amazónia

Os incêndios na Amazónia e a sua desarborização sempre tiveram lugar naquele vasto espaço em que a Natureza atinge a maior exuberância.

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“O que se queima na Amazónia sempre se queimou, mas nunca neste volume”

(Tarcísio Feitosa, Comissão Pastoral da Terra – Brasil)

Os recentes incêndios (prodigamente revelados pelos canais televisivos) mereceram (neste momento ninguém fala já deles) grande destaque, revelaram muita preocupação mundial como se estivesse próximo o apocalipse, destaque a que a circunstância de Jair Bolsonaro ser o atual presidente da República brasileira aumentou o impacto mundial.

DOS ÍNDIOS AOS FAZENDEIROS

Em tantos governos e presidências, sempre a Amazónia foi uma preocupação. Sempre foi alvo de cobiça, de interesses obscuros, de agressões e de conflitos, sempre foi parte litigiosa entre os que a desrespeitam e os que a defendem e preservam. Saliência para as tribos nativas constituídas por gente que conhece o rio e as árvores, as plantas e os caminhos que percorrem e atravessam naquele pedaço de mundo. Gente que persiste, que não arreda pé apesar de serem politicamente incorretas em relação às decisões do Estado brasileiro. Muita gente gananciosa gostaria que também essa gente que habita reservas amazónicas fosse dali desterrada. Especialmente os índios…

“A Amazónia transformou-se, de um momento para o outro, num tema mundial. Discute-se a sorte de um pedaço do nosso planeta com cerca de 500 milhões de hectares de área, banhada por 80 mil quilómetros de rios importantes, espalhados por uma bacia hidrográfica com 7,3 milhões de quilómetros quadrados; que abriga 20% das reservas mundiais de água doce da Terra. Discute-se porquê e só agora? Eis uma questão para a qual apenas encontro respostas muito embrulhadas em razões de caráter altamente duvidoso”. (José Almeida Fernandes, presidente do Instituto Nacional do Ambiente, no jornal “Público” de 17 de dezembro de 1990)

UM HOMEM CHAMADO FRANCISCO

Em 22 de dezembro de 1988 (já lá vão 31 anos) Francisco Alves Mendes Filho foi assassinado no quintal de sua casa, em Xapuri, Acre, na Amazónia brasileira. Tinha 44 anos de idade. A história dos heróis e dos mártires acolheu-o com o nome de Chico Mendes. Ele foi um símbolo da luta ecológica. Era o presidente do Conselho Nacional dos Seringueiros (extratores do látex das árvores de borracha) e ativista sindical. Foi fundador da secção estadual do Partido dos Trabalhadores. Com tais atribuições, facilmente se tornou num alvo para aqueles que utilizavam impunemente a floresta a seu belo prazer, com a conivência do próprio Estado brasileiro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Um ativista no Brasil anda sempre com um alvo nas costas. É um alvo preferencial, especialmente se falarmos da Amazónia” (Tarcísio Feitosa da Silva, em “Notícias Magazine” de 22 de setembro de 2019)

Chico Mendes (morto por dois tiros de caçadeira em Xapuri, onde morava) chegou a ser considerado “inimigo público” do governo de José Sarney, após ter levado o Banco Mundial a anular o envio de créditos para a instalação e asfaltamento da estrada que os maiores pecuários e madeireiros pretendiam construir, desde o interior do Brasil ao Oceano Pacífico, atravessando toda a Amazónia.

“Chico Mendes morreu por ter empreendido a sua luta como sindicalista, técnico e ecologista de vocação contra os grandes proprietários que vivem do corte da madeira e da criação de gado. Morreu objetivamente assassinado por mandantes de um desses proprietários, mas, em nossa opinião, morreu assassinado por todos nós, os das comunidades mais ricas que não dispensam a madeira exótica nos seus salões e no revestimento dos seus grandes edifícios enquanto pleitam, ao mesmo tempo, para que o Brasil não permita mais cortes de árvores na Amazónia”. (José Almeida Fernandes, no jornal “Público” de 17 de dezembro de 1990)

Foi sepultado no dia de Natal de 1988. Tornou-se um símbolo a partir de então. Era nessa altura praticamente desconhecido no seu país. A opinião pública brasileira acordou para os crimes e atrocidades cometidos contra o meio ambiente em diversas zonas do Brasil, especialmente na Amazónia, passando a intensificar-se as pressões internacionais que denunciaram a morte de 1527 nativos desde 1964 até ao ano da morte de Chico Mendes.

AS FLORESTAS DESPROTEGIDAS

O ativista brasileiro adivinhou a sua morte numa entrevista televisiva dois anos antes, indicando nomes de políticos e fazendeiros que se dispunham a matá-lo, acusando-os de serem coniventes com o mundo do crime. Nessa altura, denunciou queimadas ilegais por lenhadores, mineiros e pecuaristas.

 

 

 

 

 

“Há uma quantidade muito grande de floresta amazónica que não tem destino, são as chamadas florestas desprotegidas que abrangem cerca de seis vezes e meia a área de Portugal. São florestas públicas mas o Estado não tem hipóteses de controlá-las. Não são florestas indígenas, não têm qualquer uso atribuído para proteção da biodiversidade. É aqui que o fogo é mais provocado”. (Jornal “Público” de 27 de outubro de 2019)

Para além dos fogos postos, há também a retirada de madeiras nobres e secundárias. O fogo surge depois, para converter o que sobra em áreas de pastagem, agricultura e cultivo de soja em grande escala. O número de incêndios no Brasil cresceu 70% neste ano de 2019, com especial ocorrência no mês de julho.

MANDANTES E JAGUNÇOS

Depois de um filho de um fazendeiro (Darci da Silva Pereira – 21 anos de idade) ter confessado o assassinato de Chico Mendes, decorreu o julgamento desse, de seu pai Darli Alves da Silva e de seu tio Alvarinho Alves da Silva. Foram condenados a 19 anos de prisão. Foi a primeira vez na história da justiça brasileira que o mentor da morte de um trabalhador rural envolvido num dos muitos conflitos agrários no Brasil sofreu uma pena tão pesada. O julgamento contou com sete jurados.

“Ficou provado que proprietários pistoleiros se movimentam impunemente, desmatando, incendiando, assassinando” (Sentença do juiz Adair Longuini, em 16 de dezembro de 1990)

ACUSAÇÕES A BOLSONARO

O facto de o crescimento quase absurdo dos fogos amazónicos ter acontecido na governação de Jair Bolsonaro, este ano, acentua no presidente brasileiro o foco maior das recriminações e protestos que se têm feito sentir a nível internacional. Bolsonaro, todavia, acusa as Organizações Não Governamentais (ONG) de serem os verdadeiros incendiários, como vingança pelos cortes a créditos que estas possuíam e a que pôs cobro.

“Não será, com certeza, responsabilidade exclusiva de Jair Bolsonaro que a Amazónia esteja a arder ao ritmo mais acelerado dos últimos dez anos. Mas com certeza terá contribuído para isso o enfraquecimento que Bolsonaro impôs à agência ambiental brasileira, a promoção da desflorestação e o ataque às ONG”. (Ana Catarina Mendes, secretária-geral-adjunta do PS, em “Jornal de Notícias”, 26 de setembro de 2019)

BOLSONARO RESPONDE

O presidente do Brasil, sem alterar significativamente o teor das suas ideias sobre a questão reconhece que os incêndios da Amazónia devem ser combatidos, tal como, afirma, os da Califórnia, Austrália e, mesmo, os de Portugal.

“Depois de meses de negação dos dados sobre desflorestação e das suas acusações às ONGs, à União Europeia e aos índios, Bolsonaro assumiu a amplitude da crise amazónica e assinou uma nova lei para proteger o ambiente lutando contra queimadas e destacou militares e aviões para combater os fogos”. (Ivete Carneiro, em “Jornal de Notícias” de 25 de agosto de 2019)

DADOS

A Amazónia tem 7 milhões de quilómetros quadrados. Abrange 9 países. 61% da sua área localiza-se em território brasileiro, vivendo aí 23 milhões de pessoas (12,3 % do total da sua população). %,5 milhões de quilómetros quadrados são constituídos por floresta tropical. A área ardida, em 2019, foi de 344.500 hectares.

“Empates” são manobras pacíficas através das quais os seringueiros tentam impedir as queimadas das florestas. Foram incentivadas por Chico Mendes que foi galardoado pelas Nações Unidas com o prémio “Global 500”. Osmarino Amâncio foi o seu sucessor, seguindo-lhe os passos na defesa da floresta tropical.

OPINIÕES

“Apelo a uma mobilização mais forte da comunidade internacional para preservar a Amazónia”. António Guterres, secretário-geral da ONU

“Poderemos deixar de apoiar o acordo do comércio alcançado pelo Mercosul e a União Europeia devido à falta de compromisso do presidente brasileiro com o ambiente”. Emmanuel Macron, presidente francês

“Defendo um pacto regional de conservação da Amazónia. Uma proposta nesse sentido vai ser enviada à ONU”. Ivan Duque, presidente da Colômbia

“Hoje, o Brasil tem 140 milhões de hectares de área degradada. É solo que poderia estar a ser recuperado e não está. Se tal acontecesse, não seria necessário mexer num palmo de área de floresta na Amazónia”. Tarcísio Feitosa, Comissão Pastoral da Terra

“A Agressão à floresta amazónica é uma face assustadora da destruição da soberania nacional. É um crime de lesa pátria”. Dilma Rousseff, ex-presidente da República do Brasil

 

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