Sexta-feira, 19 de Junho de 2026
EnsinoA escola que nos define

A escola que nos define

Há um país que se decide nas salas de aula.

E há uma região — a nossa — que há muito percebeu que o seu futuro não se “joga” apenas na economia ou na demografia, mas naquilo que conseguir ensinar às suas crianças e aos seus jovens. É a esse retrato que dedicamos esta edição especial, percorrendo as escolas de Trás-os-Montes e do Alto Douro para perceber o que aí se aprende, se debate e se transforma.

O ponto de partida é a proximidade. Em escolas como a de Vendas de Cima, na Campeã, as turmas pequenas — tantas vezes vistas como sinal da fragilidade do interior — revelam-se afinal uma forma de ensinar mais atenta, em que cada criança é acompanhada ao seu ritmo e os mais velhos ajudam os mais novos. É um modelo que resiste ao encerramento de tantas escolas e que merece ser olhado não com resignação, mas com orgulho.

Essa escola de raízes convive hoje com um desafio que ninguém previa há uma década: a inteligência artificial. Já entrou nas salas e nos hábitos de estudo, e divide opiniões. Pode personalizar a aprendizagem e abrir portas, mas também ameaça o pensamento crítico e o esforço individual quando substitui em vez de apoiar.

Como ouvimos a quem ensina, o caminho não é proibir — é ensinar a usar, com consciência e responsabilidade. O mesmo espírito atravessa o debate sobre os trabalhos de casa, a leitura e os métodos que melhor preparam os alunos.

A tecnologia regressa noutro tema destas páginas: os telemóveis. A restrição do seu uso, alargada no último ano letivo, trouxe menos indisciplina, mais convívio e mais leitura nos intervalos — e o Governo pondera estendê-la. Sinais de que, às vezes, recuar no ecrã é avançar na escola.

Há também conquistas que importa celebrar. Portugal reduziu o abandono escolar precoce de 44% no início do milénio para perto de 6%, abaixo da média europeia. É uma das maiores vitórias silenciosas das últimas décadas, sustentada pelo alargamento da escolaridade obrigatória e pela aposta nas vias profissionais — esse ensino que ainda luta contra o estigma injusto de ser «para os alunos mais fracos», quando é, cada vez mais, uma escolha de futuro e uma resposta às necessidades das nossas empresas.

Modernizar a escola sem perder aquilo que a torna profundamente humana: é esse o equilíbrio delicado que estas páginas procuram retratar.

A fechar, damos voz às instituições que constroem o ensino da região: dos agrupamentos escolares ao Ensino Superior, das escolas profissionais ao Conservatório, passando pelas mudanças no Plano Nacional de Leitura.

A todos — professores, alunos, famílias e funcionários — dedicamos esta edição.

Porque informar sobre a escola é, também, defendê-la. E porque continuamos a acreditar que é nas salas de aula de Trás-os-Montes e Alto Douro que se escreve, todos os dias, a melhor parte da nossa história.


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