Quinta-feira, 28 de Outubro de 2021

A “guerra” do futebol

Em tempo de isolamento e de quarentena, o desporto também parou e, como tal, as discussões do futebol que têm vindo a ser sustentadas acerrimamente entre clubes e os seus adeptos e fortemente manifestadas em programas de “debate” televisivo. Tempo para o historial de uma “guerra” antiga.

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Duas situações causaram a virulência entre clubes e suas direções, arrastando também as instituições no tornado das opiniões mais agressivas, nomeadamente a FPF / Federação Portuguesa de Futebol e as comissões ligadas à Arbitragem (CA) e à Disciplina (CD), a Liga de Clubes, o TAD / Tribunal Arbitral do Desporto ou a própria Secretaria de Estado da Juventude e Desporto. A primeira, em 2015, foi levantada pelo ex-presidente da Direção do Sporting Clube de Portugal, Bruno de Carvalho (entretanto caído no descrédito por parte da agremiação “leonina”) que levou a um programa televisivo a denúncia de ofertas a árbitros e outros agentes do futebol pelo Benfica, o que configurava aliciamento. Perante a incredulidade de Pedro Guerra (ex-diretor de conteúdos da Benfica TV e colaborador do programa como adepto benfiquista) que não conseguiu tomar uma posição de réplica ou desmentido, pelo inesperado da situação, Bruno de Carvalho abriu uma caixa que possuía no interior um livro sobre Eusébio, uma camisola com o emblema das águias, um cachecol encarnado, outras pequenas lembranças e, sobretudo, “vouchers” para usufruto de estadias e jantares que envolviam centenas de euros. Ofertas que se dirigiam a árbitros, a observadores e a delegados dos jogos. Este facto levou à criação de um “Código de Conduta” que estabelecia “uma linha de comportamento ético e moral”:

“As ofertas dos clubes e não só constituem o tema mais marcante do documento, tendo sido estabelecido um valor máximo de 150 euros, embora a recomendação é que os árbitros rejeitem qualquer tipo de oferta”. (Conselho de Arbitragem, em 9 de outubro de 2018).

“O crescimento sustentável da arbitragem portuguesa implica a constituição e a uniformização de processos assentes na garantia de uma atuação de total transparência, rigor e imparcialidade”. (Fontelas Gomes, presidente do Conselho de Arbitragem, na mesma data).

AS REVELAÇÕES DOS E-MAILS

A segunda situação foi outro caso de grandes dimensões, um ano após a conquista do título europeu de Portugal no Campeonato da Europa: o diretor de comunicação do FC Porto, Francisco J. Marques, revelou uma série de e-mails capturados eletronicamente de fontes clandestinas (o Benfica, um dos clubes atingidos pelas visitas de “hackers”, equiparou o uso dos e-mails a “um ato de espionagem” – segundo Miguel Moreira, diretor financeiro do Benfica, em 28 de março de 2019. A SAD encarnada exigiu às autoridades a proibição de divulgação desse tipo de documentos, em 9 de janeiro de 2018, denunciando a “ação concertada” dos rivais “para usarem o ilícito em proveito das suas ambições”. Para Alcino António, vice-presidente do Benfica, “fazem coação sobre os árbitros que cometem sempre borrada” (23 de fevereiro de 2018). Já Luís Filipe Vieira, presidente encarnado, tinha afirmado, numa Assembleia-Geral do seu clube (11 de junho de 2017): “Em relação aos e-mails, desculpem-me falar à portuguesa, são merda, é zero!”.

CYBERCRIMES: UM “HACKER” E AS “TOUPEIRAS”

Desde que essa denúncia se iniciou e até hoje, o assunto dos e-mails está muito longe de chegar ao fim. Tal como a averiguação sobre o papel desempenhado pelo “hacker” Rui Pinto que tem sido acusado (ficou em prisão preventiva desde 22 de março de 2019) de obter os documentos e cedê-los ao seu clube de estimação, o FC Porto. 

Esta configuração causada por Rui Pinto alicerçou-se no  site “Football Leaks” e num outro, por si gerido, o “Mercado de Benfica”, onde foi massivamente divulgada correspondência de administradores e funcionários do clube, com relevo para as “E-toupeiras”, funcionários judiciais que desvendavam ao clube tópicos de processos relativos à instituição encarnada e ao seu presidente da Direção, mesmo sobre aqueles que estavam em segredo de justiça. Assim, o responsável jurídico dos encarnados, Paulo Gonçalves, acabou por demitir-se do cargo e constituído arguido no “caso dos e-mails”, em que o Ministério Público investiga um gigantesco esquema de corrupção na arbitragem.

Apesar de a SAD benfiquista ter sido acusada, nenhum membro da administração foi constituído arguido, acabando mesmo por serem ilibados pelo Tribunal da Relação de Lisboa, o qual considerou apenas a responsabilidade de Paulo Gonçalves “a solo”, não levando a SAD benfiquista a julgamento.

Quero dizer a todos os benfiquistas que nunca, nem eu nem a direção, manchamos a honra e a dignidade do Benfica. O que se tem passado, infelizmente para nós, é que fomos vítimas de um ataque sem precedentes em Portugal. Violaram o nosso espaço, a nossa privacidade e até agora nada sucedeu”. (Luís Filipe Vieira, em 10 de março de 201).

TRÁFICO DE INFLUÊNCIAS, FAVORECIMENTO E CORRUPÇÃO

Em 25 de junho de 2018, a Polícia Judiciária investigou pagamentos do Benfica a adversários. As buscas vieram aumentar o lote de suspeitas: terá havido também incentivos a jogadores dos adversários do FC Porto para a derrota deste clube e, noutros casos, para facilitarem o sucesso das águias. Este facto teve a ver com uma reportagem do canal televisivo SIC que adensou suspeitas sobre o jogo Marítimo-Benfica de 2015-16, decisivo para o título. Em 30 de maio, um jogador maritimista tinha revelado uma oferta de 40 mil euros para perder o jogo. Um nome, o de César Boaventura, surgiu repetidamente nas notícias da comunicação social. Era ele o responsável pela atribuição de convites para os jogos do Estádio da Luz (desde políticos a juízes). Era a Operação “Mala Ciao”, levada a cabo pelo Ministério Público e pela Polícia Judiciária.

PROTESTOS, CONTESTAÇÕES, DENÚNCIAS E DESMENTIDOS

A ex-deputada Ana Gomes utilizou o termo “lavandaria” para se referir ao branqueamento de dinheiro feito pela direção benfiquista, na sequência de denúncias feitas por Rui Pinto, no “Football Leaks”. O Benfica reagiu asperamente, após novas buscas feitas na SAD benfiquista. Entretanto, Francisco J. Marques relembrou que um antigo vice-presidente das águias divulgara uma lista, no canal Benfica TV, supostamente publicada no jornal britânico “Daily Mail”, com os dezasseis clubes mais corruptos do mundo. Segundo essa lista, os três clubes mais corruptos seriam o Marselha (em primeiro lugar), a Juventus (em segundo) e o FC Porto (em 3º). O jornal citado desmentiu ter publicado tal lista e os protestos e ameaças dos azuis e brancos foram imediatos. 

“O presidente e a administração do Benfica não podem fingir que isto foi dito por um tolinho. O Benfica, depois de ser o dono de tudo isto, perdeu agora o controlo de tudo isto também”. (Francisco J. Marques, 20 de dezembro de 2017).

Em 8 de junho de 2018, a imprensa desportiva anunciava a condenação em primeira instância do FC Porto, da FC Porto SAD e de Francisco J. Marques ao pagamento de dois milhões de euros ao Benfica, devido à divulgação dos e-mails (os advogados do clube da Luz exigiam 17,78 milhões por prejuízos resultantes da divulgação dos documentos). Foi uma decisão do Tribunal Judicial da Comarca do Porto que adeptos e associados portistas contestaram nas redes sociais e em plena rua. O FC Porto recorreu, os benfiquistas aplaudiram a “decisão exemplar”.

“Na decisão do tribunal, é clara a confirmação de que os e-mails divulgados são verdadeiros no seu teor, pelo que fui condenado por dizer a verdade”. (Francisco J. Marques, logo após a sua condenação).

“Lembrem-se todos os benfiquistas que é o Estado quem pagará esta indemnização”. (Pinto da Costa, presidente do F. C. Porto).

“Não me interessa em circunstância alguma o que os outros dizem de nós. Importa-me apenas aquilo que nós fazemos e o que nós pensamos. É-me indiferente ouvir os outros ladrar. A caravana passa e o nosso trabalho continua”. (José Eduardo Moniz, vice-presidente do Benfica, em 7 de dezembro de 2017).

De acordo com o jornal “Expresso”, as autoridades judiciais estão a investigar diversos SMS, WhatsApp e Messenger envolvendo César Boaventura e jogadores de vários clubes em 163 desafios dos encarnados relativos a 2017/18 e às quatro épocas anteriores. 

“Se for provado que estive ligado a estes casos de suposta corrupção, deixo o futebol” – argumentou o empresário César Boaventura, desta forma aproximando-se de uma outra frase proferida pelo presidente Luís Filipe Vieira: “Se um dia o Benfica for condenado, demito-me” (em 30 de outubro de 2018).

AS CLAQUES, OUTRA VERTENTE DA “GUERRA”

Em 22 de abril de 2017, altura da realização de um Sporting – Benfica, um cidadão italiano (Marco Ficini, de 41 anos de idade), adepto da Fiorentina e apoiante dos leões, foi morto por atropelamento, durante uma quezília entre as claques de ambas as equipas. A questão das claques tem vindo a constituir fonte de intranquilidade nos estádios e de preocupação para as autoridades policiais.  

O FC Porto apoia a sua claque (“Super Dragões) que está devidamente legalizada. O Benfica não reconhece a necessidade de legalizar as claques e diz não apoiar a “No Name Boys” que considera antes ser um GOA (Grupo Organizado de Adeptos). Já Bruno de Carvalho, ex-presidente do Sporting, foi acusado de ter apoiado excessivamente a “Juve Leo” e de ser o mandante do ataque à Academia de Alcochete. Enquanto Luís Filipe Vieira afirma nunca ter ouvido falar de claques no seu clube, o sucessor de Bruno de Carvalho cortou todas as ligações às claques sportinguistas.

As claques têm-se revelado desordeiras, partindo cadeiras nos estádios ou lançando pirotecnia para os recintos de jogo. Por causa disso, o Benfica foi punido em sete jogos à porta fechada, nunca praticados por ter havido recurso à medida. Também o FC Porto se viu confrontado com um jogo nessas circunstâncias, recorrendo também, de igual modo. 

(E agora até se fala em jogos à porta fechada em toda a normalidade, por causa do COVID 19 e da necessidade de terminar a época que esse vírus letal interrompeu).

NOTA FINAL

Rui Pinto, o “hacker” do “Foot Ball Leacks” e do “Mercado do Benfica” que esteve detido mais de um ano (desde 22 de março de 2019), acusado de extorsão à empresa de intermediação Doyen, passou para detenção domiciliária, ficando a viver em instalações/casa da PJ. No entender da própria instância judicial que lhe mudou a medida de coação, Rui Pinto será protegido das máfias que alastram no futebol português e europeu, por haver um compromisso entre ele e as autoridades que o integraram num programa de informadores de ajuda à Justiça (vulgo, denunciantes). 

As novas revelações que aí virão, o acesso das autoridades a novos caminhos e códigos informáticos ou a divulgação de ações ilegais irão confrontar vários agentes do futebol, da política e da economia. 

Por isso, no caso do futebol, tudo indica que a “guerra” vá continuar.

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