Quarta-feira, 20 de Outubro de 2021

Actos religiosos, actos humanos e recursos técnicos

1 – Foi notícia há dias a declaração do Vaticano de que a Confissão sacramental não pode ser feita pelo telefone nem por outros meios técnicos modernos de comunicação. O caso foi comentado na rádio e na televisão. A decisão disciplinar merece uma reflexão sobre as razões profundas dessa atitude, pois elas estendem-se a outras realidades da vida cristã.

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A sociedade actual está dominada pelo império da técnica e da eficácia, sendo grande a tentação de a utilizar em tudo, inclusive na esfera humana mais íntima, como são os actos de culto e da vida humana. É essa, fundamentalmente, a questão.

2 – Os actos religiosos são actos da pessoa humana na sua totalidade anímica, incluem a inteligência, a vontade, a sensibilidade: «amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças», que é como quem diz, os actos religiosos devem ser entendidos, assumidos e vividos pela pessoa toda. As celebrações incluem ainda os gestos físicos, tais como levantar-se, sentar-se, ajoelhar-se, deslocar-se, falar e cantar e, quando são actos públicos como é o caso da Confissão, requerem a presença da respectiva autoridade pública. Infelizmente, alguns fiéis não vivem o acto religioso em plenitude, limitam-se a ver, e essa tendência é que leva ao desejo de o reduzir ainda mais.

No acto religioso propriamente dito o núcleo central e o objectivo final é a criação e o desenvolvimento da relação integral da pessoa com Deus e com a comunidade cristã, e não a simples obtenção interesseira de um despacho jurídico ou de um «benefício» religioso. Naquela riqueza anímica se distinguem os actos humanos e religiosos dos actos técnicos, nos quais se pretende um efeito, seja a obtenção de uma certidão, seja um depoimento jurídico, seja mesmo uma informação doutrinária. Domina aí o sentido utilitário, e não a criação de uma relação da pessoa.

Esse utilitarismo religioso verifica-se na magia, na qual se deseja captar e controlar uma força espiritual e não o «rosto» de Deus, uma relação amorosa. Por esse motivo se diz que a magia não é propriamente um religião, mas uma pré religião ou um desvio da mesma.

3 – A sociedade actual está dominada pelas relações técnicas e eficazes, sendo grande a tentação de as utilizar em tudo, inclusive nos actos de culto e na vida cristã.

Essa tentação sente-se na Catequese, confundindo uma «sessão» de catequese com uma «aula» de cultura cristã: nesta dão-se «conhecimentos e informações científicas», naquela procura-se a «adesão» da pessoa a outra pessoa, Jesus Cristo; naquela usam-se projecções e filmes, nesta tem de chegar à adesão afectiva oração pessoal.

Aquela tentação técnica sente-se ainda na celebração da Missa. Os recursos técnicos podem auxiliar mas não substituir, e reduzem-se ao uso do microfone e da instalação eléctrica, não podendo substituir o canto nem a proclamação da Palavra. O canto tem de ser executado pelos participantes e sustentado pelo órgão ou outros instrumentos musicais, preferencialmente de sopro, e nunca substituído por música gravada, ainda que se diga «para ambientar»; a Palavra tem de ser ali proclamada pelos presentes e essa proclamação não pode ser substituída pelo registo de uma declamador artístico. A distribuição da Comunhão tem de ser feita por ministros e não colocada em cestos onde cada um se vai abastecer.

Além da liturgia, a tentação técnica invadiu o Matrimónio e a intimidade pessoal dos cônjuges. É conhecida a reivindicação de alguns casais de terem um filho «a qualquer preço», seja pela fecundação artificial da mulher, seja pela fecundação «in vitro» e recurso às «barrigas de aluguer». Nada disso é verdadeiramente humano e, por isso, não pode ser reconhecido pela Igreja. O filho nasce do amor humano, é um dom, e não o efeito de um laboratório. O filho é um valor em si mesmo e como tal deve ser amado e procurado. A gratuitidade e não a utilidade é a lei da transmissão da vida humana. A Constituição conciliar da Igreja no mundo moderno (GS 52) fala do direito ao filho por parte dos casais face ao Estado, não podendo este impor ou proibir um casal de gerar filhos, mas o casal não tem um direito absoluto de arranjar um filho de qualquer modo. O filho não é uma «utilidade», não existe somente para dar alegria ao desejo dos seus pais e menos ainda para satisfazer um capricho Mesmo antes de o filho existir, é necessário partir do filho e da sua dignidade pessoal, que está sempre acima da alegria e do sonho dos pais.

A técnica invade ainda a prática médica e de enfermagem. Os actos médicos são cada vez mais precedidos de actos de diagnóstico e seguidos de actos terapêuticos, ambos com recurso à tecnologia. Esta presença da técnica tem de ser controlada, humanizada, e rejeitada quando vai longe demais e ameaça destruir a pessoa. Isso verifica-se frequentemente na fase terminal da vida do doente. Felizmente, a boa prática médica e de enfermagem tem o cuidado de informar o doente de um acto técnico a que ele vai ser sujeito. Desse modo, o acto é interiorizado pelo doente e afasta o pavor.

Em síntese, a técnica está ao serviço da pessoa e não o contrário.

 

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