Quinta-feira, 11 de Agosto de 2022

As mudanças que afirmam o seu testemunho

Estamos a dois anos da grande celebração que vai fazer de Fátima, mais uma vez, a capital e o grande momento da vida religiosa de matriz católica, especialmente a do culto mariano. Com efeito, foi em 13 de maio de 1917 que a Virgem Maria surgiu aos três pastorinhos, na Cova de Iria. Na mesma data de 2017 deverá estar no mesmo lugar o Papa Francisco que, depois de Paulo VI e João Paulo II, visitará oficialmente Portugal.

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“Desde que a devoção a Nossa Senhora de Fátima se iniciou, tudo foi mudando no espaço em que a celebração tem vindo a ser feita. A Capela das Aparições ainda lá está, recolhida no recanto esquerdo do recinto. Entretanto, foi construída a basílica, cujo recorte se evidencia (sendo o seu perfil conhecido em todo o mundo) numa invejável paisagem de terra verde aqui e ali salpicada de azinheiras iguais àquela em que Nossa Senhora terá aparecido pela primeira vez, perante a estupefação das três crianças de Valinhos (Lúcia, Francisco e Jacinta de seus nomes) e céu azul para onde aponta a torre sineira encimada pela coroa dourada que a distingue e de onde se abrem braços semicirculares a protegerem o terreiro aberto, vasto e livre, ao fundo do qual, agora, se ergue um estranho crucifixo metálico, gigantesco, de arte moderna, exaltando o Filho crucificado, a sul, entre a casa dedicada à Mãe (a basílica propriamente dita) e à Sagrada Família (edifício circular, mais intimista, com vários e diversificados espaços).

Numa conhecida parede de um centro comercial da cidade de Fátima pode ver-se a fotografia antiga (anos 40/50 do século XX) de um conjunto de peregrinas ali chegadas de proveniências rurais longínquas. Arrecadas nas orelhas, rodilhas na cabeça sobre as quais assentavam cestos tapados por xailes (seriam, provavelmente, os mantimentos para, em conjunto com a fé mais inquebrantável e a vontade enorme de entrar no recinto, dar força e alento à caminhada). Mas é grande a diferença em relação ao que acontece hoje. Os grupos de peregrinos são cada vez maiores, ostentam bonés, chapéus, “t’shirts” estampadas e planificadas para a ocasião. Apoiam-se em bordões, o maior, à frente de todos, enfeitado com a imagem da Virgem, com flores, bandeirolas e até com velas de cera. O calçado e as roupas são pensados em termos de condições atmosféricas e da dureza do piso percorrido em quilómetros atrás de quilómetros. Os grupos de peregrinos são acompanhados por viaturas de apoio, garantidas por instituições locais ou nacionais. São previamente reservados espaços de alojamento e tratadas as refeições. E há grupos muito especiais: homens e mulheres (especialmente os mais jovens) montados em motos ou em bicicletas, nas quais se fizeram à estrada. Se os peregrinos mais tradicionais ostentam referências nas camisolas (“Lousada – peregrinação a Fátima a pé”, por exemplo) os roladores revelam os nomes dos seus clubes ou associações de “motards” ou “betetistas”. Depois da chegada, fazem questão de se juntarem num sítio único, surpreendendo a sua grande quantidade.

Fátima possui, na atualidade, unidades hoteleiras criteriosas. Muitos restaurantes, bares, “snacks”, com designativos relacionados com o seu ambiente religioso, desde “Hotel Os Três Pastorinhos” até “Restaurante Senhora de Fátima”. De igual modo, em qualquer lugar, ainda que inesperado, montam-se tendas. Fátima é também um gigantesco parque de campismo.

Voltemos ao grande átrio. Ali se reza a todo o momento, nem um minuto passa sem que alguém ore ou deixe soltar cânticos que se tornam mais evidentes sempre que chega um novo grupo de peregrinos, recebido por palmas por aqueles que já lá estavam. Uns rezam alto, outros apenas balbuciam e os sacerdotes recitam o terço da Capela das Aparições, ouvido pela instalação sonora que é de boa qualidade e que leva as palavras (em português, castelhano, italiano, francês ou em outras línguas mais desconhecidas) a todos os recantos.

As pessoas são de origem diversa. Muitos africanos, mais destacados pela cor da sua pele. Muito deles com um terço entre os dedos das mãos e outros a percorrerem de joelhos a passadeira rugosa das promessas. Por ali passam penitentes incessantemente, “pagando promessas”. Há doentes, confiantes na capacidade de satisfação dos seus desejos pela via da Fé que sentem e da Nossa Senhora que veneram.

A estátua levantada a João Paulo II é majestosa e “abafa” todas as outras. Não admira que assim seja, pela contribuição que este papa teve na elevação universal do grande acontecimento que Fátima é e que vai ser de novo celebrado em grande, na altura do centenário da primeira aparição. Em 2017. O mais certo será nessa altura termos cá o Papa Francisco, cujo anúncio da sua vinda já fez esgotar a capacidade hoteleira de Fátima e da região envolvente. Francisco, como João Paulo II, ficará também marcado no coração dos portugueses que acreditam nos acontecimentos de Fátima desde há um século atrás.

 

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