Sexta-feira, 1 de Maio de 2026
RegiãoBarbeiro e soqueiro aos 70 anos

Barbeiro e soqueiro aos 70 anos

“Faço socos, coloco meia-sola aos sapatos e corto o cabelo aos meus clientes”. Assim o diz, assim o faz, Álvaro Dias, 70 anos, residente na rua do Outeiro, em Santo Aleixo de Além Tâmega, um dos raros soqueiros que ainda existe em Trás-os-Montes. Além desta actividade, este septuagenário corta com maestria o cabelo e faz alguns serviços de sapateiro.

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Em Santo Aleixo de Além Tâmega, aldeia pitoresca com o rio Tâmega a seus pés, encontramos um raro mas autêntico postal ilustrado das artes e ofícios que ainda perduram nesta região de transição entre Trás-os-Montes e o Minho. Álvaro Dias é conhecido como o homem dos sete instrumentos, tantas são as habilidades profissionais que tem exercido ao longo da vida. Há cerca de 50 anos que se dedica à arte de soqueiro, uma habilidade que o pai lhe incutiu. “Quando tinha 20 anos, o meu pai disse-me que seria melhor eu começar a fazer socos com madeira de amieiro”. Em pequeno teve uma contrariedade que lhe moldou o futuro. “Aos oito meses de vida tive uma doença que me paralisou uma das pernas, e o meu pai pagou 400 escudos a um soqueiro para me ensinar esta arte. Aprendi e comecei a fazer socos, embora já tivesse a trabalhado numa fábrica de blocos de cimento, mas dadas as minhas limitações não pude continuar”.

Apesar da idade, Álvaro Dias, além de atender clientela de todo o concelho de Ribeira de Pena, ainda se desloca ao domicílio para cortar o cabelo a idosos. O rés-do-chão da sua casa está dividido em dois espaços: a oficina de socaria e a barbearia. Alguns amigos entram nos seus pequenos aposentos com o cabelo comprido e sapatos a precisar de conserto, e saem de cabelo cortado, rosto barbeado e sapatos como novos.

Álvaro Dias ainda se lembra que levou “quinze tostões” ao primeiro cliente ao quem cortou o cabelo. Agora “é mais o vício do que a vontade de ganhar dinheiro”, embora não se importe que “os clientes deixem dois euros e meio”.

Manuel Dias, presidente da Junta de Freguesia de Santo Aleixo de Além Tâmega, é um dos seus mais fiéis clientes. “O Álvaro já me já corta o cabelo desde a minha infância”, confessou.

A Junta de Freguesia já promoveu uma acção de formação sobre socaria, onde o septuagenário ensinou a sua arte, tendo participado no último cortejo etnográfico da Feira do Linho.

De referir que, o concelho de Ribeira de Pena possui uma grande atractividade etnográfica ligada aos usos e costumes de índole rural e artesanal, alguns considerados únicos na região.

 


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