Em Santo Aleixo de Além Tâmega, aldeia pitoresca com o rio Tâmega a seus pés, encontramos um raro mas autêntico postal ilustrado das artes e ofícios que ainda perduram nesta região de transição entre Trás-os-Montes e o Minho. Álvaro Dias é conhecido como o homem dos sete instrumentos, tantas são as habilidades profissionais que tem exercido ao longo da vida. Há cerca de 50 anos que se dedica à arte de soqueiro, uma habilidade que o pai lhe incutiu. “Quando tinha 20 anos, o meu pai disse-me que seria melhor eu começar a fazer socos com madeira de amieiro”. Em pequeno teve uma contrariedade que lhe moldou o futuro. “Aos oito meses de vida tive uma doença que me paralisou uma das pernas, e o meu pai pagou 400 escudos a um soqueiro para me ensinar esta arte. Aprendi e comecei a fazer socos, embora já tivesse a trabalhado numa fábrica de blocos de cimento, mas dadas as minhas limitações não pude continuar”.
Apesar da idade, Álvaro Dias, além de atender clientela de todo o concelho de Ribeira de Pena, ainda se desloca ao domicílio para cortar o cabelo a idosos. O rés-do-chão da sua casa está dividido em dois espaços: a oficina de socaria e a barbearia. Alguns amigos entram nos seus pequenos aposentos com o cabelo comprido e sapatos a precisar de conserto, e saem de cabelo cortado, rosto barbeado e sapatos como novos.
Álvaro Dias ainda se lembra que levou “quinze tostões” ao primeiro cliente ao quem cortou o cabelo. Agora “é mais o vício do que a vontade de ganhar dinheiro”, embora não se importe que “os clientes deixem dois euros e meio”.
Manuel Dias, presidente da Junta de Freguesia de Santo Aleixo de Além Tâmega, é um dos seus mais fiéis clientes. “O Álvaro já me já corta o cabelo desde a minha infância”, confessou.
A Junta de Freguesia já promoveu uma acção de formação sobre socaria, onde o septuagenário ensinou a sua arte, tendo participado no último cortejo etnográfico da Feira do Linho.
De referir que, o concelho de Ribeira de Pena possui uma grande atractividade etnográfica ligada aos usos e costumes de índole rural e artesanal, alguns considerados únicos na região.





