São apenas duas letras, mas que representam o sustento e a sobrevivência de muitos vitivicultores. Os rumores surgiram com base num estudo em que a Associação de Exportadores de Vinho do Porto, AEVP, manifesta interesse quanto à alegada extinção das duas letras e que poderá alterar o tecido sócio-vinhateiro da região. A contestação e opiniões contra têm aumentado e por isso há vozes que alertam para as consequências desta intenção. Berta Santos assume que a Avidouro está contra, obviamente. “O corte das letras é preocupante e grave. Claro que estamos contra porque irá penalizar milhares de pequenos e médios viticultores”.
A associação não aceita a extinção das letras E e F. “Sabemos que o Comércio pretendeu que não fosse atribuído o Benefício à letra F e falou na letra E, posições logo contrariadas pela Produção. O Comércio tem assumido determinação neste caso de acabar com as letras, o que só vem agravar esta situação. Poderá vir a ser mais um atentado contra a pequena e média propriedade (entre o meio e um hectare). Serão muitos reformados a contar com o pouco dinheiro do Benefício. Caso isto avance será uma tragédia. Estamos a acompanhar este processo, vamos ter uma reunião na próxima sexta- -feira com o presidente do Instituto do Vinho do Douro e Porto, e uma outra com o senhor diretor Regional da Agricultura de Trás-os-Montes, onde iremos defender isto tudo”.
“No sábado, na última reunião do Conselho Regional da Casa do Douro, foi abordado este assunto e aquilo que nos foi transmitido é que a própria Casa do Douro, que faz parte da comissão de trabalho, não está de acordo com o fim das letras. Nós vamos pressionar a CD para não abandonar os agricultores”, reforçou a dirigente da Avidouro.
O deputado do PS pelo distrito de Vila Real, Rui Santos, também mostrou a sua preocupação, caso se avance com a eliminação das duas letras. “Na Assembleia da República, na Comissão de Agricultura e Mar, tive a oportunidade de receber uma delegação de vitivinicultores da Região Demarcada do Douro e ficámos muito preocupados com a perspetiva de se diminuir ainda mais a litragem para o próximo ano, do Benefício para o vinho do porto. Ficámos também muito preocupados com o desaparecimento de um angariador de vinhos, que deixou aqui na região um calote de muitos milhares de euros. No entanto, o que mais nos preocupa é a eventualidade de se legislar para ser eliminadas as letras E e F do Benefício. Se tal vier a acontecer, só irá trazer pobreza a quem já é muito pobre. Tudo faremos para apresentar soluções que contrariem estas intenções do atual Ministério da Agricultura”, salientou Rui Santos.
No concelho de Vila Real, as letras E e F têm maior incidência nos viticultores de Abaças e Guiães, e ainda de Vila Seca de Poiares, a parte alta de Santa Marta.
O presidente da Casa do Douro, Manuel António dos Santos, já no verão passado alertou para “a pretensão do Comércio”. “Não deixem (viticultores) para mais tarde aquilo que devem começar a tratar já. Não adormeçam, pois quando acordarem já poderão estar sem Benefício”.
O deputado do PSD pelo distrito de Vila Real, Pedro Pimentel, também não vê com grande entusiasmo a proposta avançada. “Eventualmente, vai afetar os pequenos e médios viticultores. Não é a melhor altura de equacionar esta situação quando se sabe que o setor atravessa dificuldades. Neste momento, há outros assuntos que devem ser discutidos e não este. O país está a atravessar grandes dificuldades, assim como os agricultores no Douro, e não é agora que se põe isto em causa, até porque está em questão o pouco Beneficio que muitos viticultores têm. Será um assunto a rever quando a situação for melhor, mas sempre numa situação de equilíbrio e em acordo entre a produção e o comércio”.
Dadas as suas características geográficas, o concelho de Sabrosa possui muitos viticultores com as letras E e F. Gouvães do Douro é uma das freguesias com muitos viticultores beneficiados com esta classificação. O presidente de Junta, António Pinheiro, deixou bem claro o seu pessimismo sobre esta matéria. “É mais uma machadada para os pequenos agricultores”. Estas letras vão fazer falta e “estou muito preocupado, pois na minha área existem centenas de agricultores abrangidos por esta classificação”. Por outro lado, são letras que fazem falta para ‘compor’ os vinhos mais nobres. Há vinhos das letras A e B que são bastantes cálidos e as uvas derivadas das E e F acabam por os ‘refrescar’.
A zona de Cima Corgo será a mais afetada. “Já estou acompanhar este processo e a Junta irá informar os seus pequenos e médios viticultores do que se irá passar”, prometeu.
De acordo com a localização, as características do terreno, as castas e a idade da vinha, a Casa do Douro atribuía anualmente a cada viticultor uma autorização para produzir uma quantidade de mosto determinada, a que corresponde uma certa qualidade (da letra A, o melhor, até à letra F) e um preço correspondente.



