Uma das mais importantes maravilhas castrejas da Península Ibérica, o Crasto de Palheiros, no concelho de Murça, já tem o seu Centro Interpretativo construído. Um equipamento multifuncional, virado para o conhecimento sobre o povoado protohistórico e que deverá ser inaugurado em Outubro próximo. Ao todo, ficou orçado em cerca de 600 mil euros.
A obra teve alguns hiatos no seu percurso, mas a Câmara Municipal de Murça empenhou-se a fundo para a concretizar. Tecnicamente, esta obra ficou concluída no fim de Junho último, sendo que a autarquia vai reparar um caminho rural que proporcionará outro conforto aos visitantes e servirá, ao mesmo tempo, vinte e um agricultores locais. O acesso será empedrado no percurso visível do Crasto e o restante será em “touvenant”, sendo o valor total da obra orçado em cerca de 600.000€.
O Centro Interpretativo do Castro de Palheiros vai ficar interactivo com dois pólos de interesse: o Quiosque Multimédia e um pequeno Núcleo Museológico, a instalar no centro de Murça.
No primeiro, o visitante poderá colher as primeiras informações e coordenadas de e para o Crasto, como também informações sobre outros atractivos da vila e do concelho de Murça, tal como a célebre Porca ou a Ponte Romana.
O Presidente da Câmara Municipal de Murça, João Teixeira, manifestou, ao Nosso Jornal, a sua satisfação sobre a conclusão do Centro Interpretativo do Crasto de Palheiros: “Sentimos uma enorme alegria e a sensação do dever cumprido naquilo que foi um dos empreendimentos que o Município acolheu com carinho especial. Não só pela integração feliz do equipamento, num “sítio” importante, pela sua transversalidade regional, nacional e ibérica, mas também por constituir uma valorização e mais uma oferta do próprio concelho, em termos culturais e turísticos. Estamos diante de uma imponente edificação, onde o bom gosto e o cuidado posto na sua construção e arquitectura fazem-na quase passar despercebida na paisagem, revelando o cuidado em não a ferir ou degradar a autenticidade do local”.
Recordando a interrupção da obra, a dado trecho da sua execução, o autarca apontou como causas, “a falência do empreiteiro a quem foi adjudicada inicialmente a obra e também o cuidado que houve sempre nas escavações e na sua edificação, de forma a que vestígio algum fosse posto em causa”.
João Teixeira particularizou alguns pormenores daquilo que é o Centro Interpretativo: “A frente é totalmente em vidro. Isto empresta um efeito fantástico, em termos de visualização, já que espelha as serras próximas e dá-nos a sensação de estarmos na presença de um autêntico quadro paisagístico de rara beleza”.
Mas é no seu interior que existe, sem dúvida, o elemento natural de maior evidência: um afloramento xistoso cinza azulado que serve, magnificamente, como cenário de fundo, mas que acaba por ser a parede interior do próprio Centro Interpretativo.
O Presidente da Câmara Municipal de Murça acrescentou mais pormenores à obra agora concluída.
“A rocha (xisto) permanece tal como no exterior. As instalações serão dotadas de painéis informativos, alguns achados arqueológicos e apresentações em «datashow», equipamento audiovisual que irá mostrar, aos visitantes, a história, a vida e a reconstrução do Crasto. Possui ainda um auditório que permitirá a apresentação a grupos, em filme, e um bar de apoio. Esta infra-estrutura é composta por dois edifícios. O da exposição, local de visionamento multimédia, bar e vigilância. E o edifício técnico, onde estão os dois geradores, um para alimentar o edifício e o outro para o espaço exterior”.
Esta infra-estrutura está incluída na Rota dos Crastos Ibéricos que contempla, no Norte de Portugal, outros monumentos do género, famosos, nomeadamente o Crasto de Briteiros.
O Centro Interpretativo acolherá algumas peças arqueológicas expostas, mas funcionará em complementaridade com o espaço museológico a criar em Murça. O seu interface com outros pontos turísticos do concelho ira valorizar este Centro. Em paralelo, será criado um roteiro cultural que irá proporcionar ao visitante o conhecimento de outras realidades do concelho.
Sabendo da importância que o Centro Interpretativo poderá ter junto da comunidade escolar, João Teixeira mostra-se receptivo à sua divulgação, através de visitas, por parte dos alunos das escolas.
“É uma intenção que nos rege. Para o efeito, existirá ainda um pequeno auditório que possibilitará receber grupos escolares ou outros que, de uma forma confortável, lhes permitirá ver um filme sobre aquele espaço”.
Deste povoado protohistórico, avistam-se os Crastos do Cadaval, Pópulo e Botelhinha (Pegarinhos).
Ao longo do percurso, haverá postes com variada informação, ficando aberto todo o ano.
Ao nível dos recursos humanos, terá dois funcionários permanentes: um técnico de Sociologia e outro de Turismo.
A obra que foi feita preservou a identidade do Crasto, à excepção de uma escadaria construída em cimento (material e modelo impostos pelos arqueólogos), de forma a não inviabilizar futuras intervenções arqueológicas. A afixação de placas informativas, em diversos locais, e os desdobráveis distribuídos ajudarão, também, o visitante a entender e identificar as referências arqueológicas do Crasto.
Foi entre 3000 a 1800 aC que o Crasto de Palheiros (ou Fraguedo de Palheiros, como é conhecido, nesta aldeia) se foi construindo.
As suas escavações arqueológicas iniciaram-se em 1995, dirigidas pela Arqueóloga Maria de Jesus Sanches, supervisionando uma equipa da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, “lendo” os vestígios, catalogando, descobrindo. No entanto, entre 2001 e 2003, tomaram outro rumo, aquando da apresentação, por parte do Município de Murça, de uma candidatura às verbas do Programa Operacional da Região Norte-ON Norte, Medida 3.9 – Cultura.
Neste momento, não há escavações a decorrer. No entanto, a Câmara Municipal está a elaborar um plano no sentido da sua continuidade. O valor estimado da obra é de 395.668,66€, faltando ainda apurar os trabalhos a mais que serão cerca de 10% e a empreitada do arranjo do caminho rural, até ao local, cujo valor andará na ordem dos 124.000€.
José Manuel Cardoso



