O Tribunal Judicial de Vila Real decidiu entregar à mãe biológica uma criança de seis anos que estava a viver, desde os 25 dias de vida, com os pais afectivos.
A sentença foi conhecida pelo casal Américo (empresário) e Graça Carquejo, pelas 18 horas de quarta-feira da semana passada. De imediato, misturaram-se nesta família que tem dois filhos, Ima, de 23 anos, e Ivan, de 20, “a revolta, a dor, as lágrimas, os choros convulsivos e a indignação”. Américo e Graça, ambos de 46 anos, ficaram “arrasados, chocados e inconformados”.
A intenção de Brigite Salgueiro, mãe de “Iara”, Anabela Margarida Alves Salgueiro, em requerer, no Tribunal de Alijó, o regresso da sua filha, colheu de surpresa os pais afectivos.
“Somos uma família que a ama” – disse Carlos Bessa, cunhado de Américo. Entre lágrimas, revelou-nos a sua tristeza e dor.
“Não sei como vamos passar o Natal sem ela e viver sem ela”.
Iara frequenta o 1.º ano do 1.º Ciclo, no Colégio de S. José, em Vila Real, sendo “uma criança inteligente e alegre”.
A decisão do Tribunal de Vila Real em considerar que Brigite já reúne condições para receber de volta a sua filha não convence a família de Américo Carquejo.
“Agora, vão entregá-la, porque dizem que a mãe está bem, mas por quanto tempo? Até quando? Não é a primeira vez que o Tribunal tira as crianças de quem as ama, para, depois, acontecer o pior” – diz, indignado, Francisco Bessa, cunhado de Américo.
Ao que soubemos, na altura do baptizado, os pais de acolhimento (a criança, quando nasceu, foi entregue, pela Segurança Social de Vila Real, ao casal) convidaram Brigite e o seu ex-companheiro, Álvaro, para a festa, tendo estando presente, na mesma. Mas não ficaram por aqui as atitudes deste casal, para com a própria mãe biológica. Esta seria acolhida na casa dos Carquejo, onde ainda esteve cerca de um mês.
O advogado de Brigite, Paulo Souto, considera que “foi uma decisão muito bem ponderada e alicerçada em pareceres técnicos. No momento em que tem estabilidade emocional e estabilidade económica e financeira, o Tribunal entendeu que era o momento certo para recuperar a filha”.
A decisão judicial já chegou ao conhecimento da criança que “viu os noticiários de ontem e fartou-se de chorar, já não quis ir à escola, à tarde, também fez chichi nas calças” – contou Carlos Bessa, entre lágrimas.
“O que vale é que nunca lhe escondemos nada, ela sabe que a Brigite existe, ela tem 6 anos, mas uma criança que cresce entre lutas de adultos e tribunais amadurece mais, parecendo que tem 10 anos” – sublinhou.
Entretanto, Rui Santos, Director do Centro Distrital de Solidariedade Social de Vila Real, referiu que “o que o Tribunal decidir, terá de se proceder conforme”. “Acompanharemos, com zelo, com cuidado, salvaguardando sempre os interesses dela, mas ainda não fomos notificados, pelo Tribunal Judicial de Vila Real” – concluiu.
A criança pode ser retirada, a qualquer momento, da família de acolhimento, por ordem do Tribunal. Mesmo assim, a família Carquejo não desarma e, segundo o advogado Fernando Miranda, “vai recorrer, para a Relação do Porto”, embora esta atitude não tenha efeitos suspensivos.
Entretanto, a criança já foi consultada, por psicólogos e uma pediatra, e o seu estado não é o melhor, revelando problemas psicossomáticos. Para apoiar a causa da família Carquejo e “os interesses da criança”, está à disposição da população uma petição, ao mesmo tempo que foi criado, na Internet, um blogue de apoio que já recebeu cerca de quatro mil assinaturas. Também alguns “outdoors” foram colocados, em alguns locais da cidade.
Jmcardoso






