Alguns populares contaram ao Nosso Jornal que não têm memória de uma tempestade e de uma devastação tão grande como aquela que ocorreu na semana passada. O concelho de Sabrosa foi o mais afetado, mas em algumas aldeias de Alijó o efeito também foi devastador. Em Vale de Cunho, por exemplo, registaram-se muitos estragos. No entanto, Celeirós do Douro, no concelho de Sabrosa, foi uma das freguesias mais atingidas. António Rocha, viticultor nesta freguesia, viu cerca de 90 por cento da colheita ser destruída pelo granizo. “Em apenas 15 minutos, perdeu-se um ano de trabalho. A vinha tem 2700 pés e ficou praticamente toda destruída”, acrescentou.
O problema maior tem a ver com a produção do próximo ano que poderá estar comprometida porque a vara também ficou afetada. “Tenho 75 anos e esta foi uma das piores tempestades que me lembro”, recordou.
O granizo acabou por dizimar também as oliveiras no terreno deste agricultor. “Nos ramos das 53 oliveiras existentes em bordadura, quase se podem contar pelos dedos as azeitonas que ficaram nas árvores, já que tudo foi parar ao chão”.
A dimensão dos estragos provocados pela tempestade de granizo destruiu cerca de 700 hectares de vinha, olivais, pomares e hortas no Douro. O presidente da Câmara de Sabrosa, José Marques, chegou a classificar a situação de “dramática” e pediu medidas urgentes do Governo para atenuar a miséria em que muitos viticultores vão ficar. Esta mesma posição foi assumida numa carta enviada à ministra Assunção Cristas.
De referir que, a maioria dos lavradores não tem seguro de colheita, por serem considerados muito caros. As freguesias de Vilarinho de S. Romão, Celeirós do Douro, Provesende e S. Cristovão do Douro foram as mais afetadas não só na colheita deste ano, mas também na do próximo ano. Em Favaios e Sanfins do Douro, Alijó, também há registos de prejuízos, assim como em Murça e em Ervedosa do Douro (S. João da Pesqueira).
Técnicos da Direção Regional de Agricultura e Pescas do Norte (DRAPN) estiveram todo o dia no terreno a avaliar a situação.
Partidos políticos e associações reclamaram intervenções do Governo
Os prejuízos causados pelo granizo levaram algumas forças políticas e associações a reclamar medidas urgentes e compensatórias para fazer face aos prejuízos sofridos pelos viticultores. Durante a tarde de quinta-feira, os deputados do Partido Socialista entregaram um requerimento na Assembleia da República (AR) para saber se o Governo está a fazer o levantamento dos danos nas áreas afetadas e como tenciona ajudar os vitivinicultores. “Não chega virem técnicos ao local fazer a avaliação dos estragos, é necessário ir mais longe e apoiar financeiramente os agricultores”, referiu o deputado do PS eleito pelo círculo de Vila Real, Rui Santos.
A Associação de Viticultores Independentes do Douro, Avidouro, também acompanhou a situação no terreno e reclamou ao Ministério da Agricultura e ao Governo “o rápido levantamento dos prejuízos e a atribuição de uma ajuda excepcional, de emergência, de forma a possibilitar a atividade produtiva destes vitivinicultores e o sustento das respetivas famílias”.
Nesta segunda-feira, o PCP confrontou o Governo com os prejuízos das intempéries. Já o Bloco de Esquerda de Vila Real, num comunicado distribuído à imprensa, reclamou a intervenção urgente dos serviços regionais do Ministério da Agricultura para o tratamento da vinha afetada e defendeu o apoio público aos agricultores que sofreram prejuízos não cobertos pelo seguro. Assegurou ainda que “irá propor que sejam acionados mecanismos europeus para o financiamento da reposição da capacidade produtiva. Defende também a criação de um sistema de seguros à agricultura a preços acessíveis e financiados pela PAC”.
Apoios do Governo
A ministra da Agricultura, Assunção Cristas, não prometeu apoios a fundo perdido para os agricultores, mas mostrou disponibilidade em outros apoios. “Vamos apoiar no tratamento das plantas e o Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto foi sinalizado para os lavradores, que perderam a colheita este ano, possam ter direito ao benefício para produzirem vinho do Porto no próximo ano”.
Entretanto, o Ministério da Agricultura anunciou a implementação de algumas medidas de apoio independentemente do agricultor ter ou não seguro. Assim, será aberta uma linha específica de financiamento no âmbito do PRODER, para investimentos necessários para relançar a produção. Outra iniciativa passa pelo apoio à formação dos agricultores, nomeadamente como se devem tratar as vinhas. Para ajudar os agricultores afetados, é ainda prometida ajuda para tratamentos de emergência nas plantações atingidas. Como medida extra, o ministério admite que os produtores afetados possam vender os seus cartões de benefício de vinho do Porto ou que, em alternativa, acumulem esses direitos com aqueles que vão ter na próxima colheita.



