Sexta-feira, 1 de Julho de 2022

“Encontrei um grupo que não estava habituado ao rigor, ao profissionalismo e à disciplina, foi um trabalho muito desgastante”

Nuno Pinto, 39 anos, natural de Amarante, foi convidado a assumir o comando técnico do Vila Real a 19 de março, com a difícil missão de alcançar a permanência da equipa no Campeonato Nacional de Seniores. Quando poucos acreditariam que isso seria possível, eis que o jovem veio operar uma autêntica revolução no balneário.

Com a mesma matéria-prima, conseguiu aumentar os níveis de motivação dos jogadores, que aos poucos começaram a ser mais responsáveis e as vitórias acabaram por aparecer, vindo a dar outro ânimo à equipa. Num balanço muito positivo mas também desgastante, Nuno Pinto fala com frontalidade de todas as questões, sem rodeios ou meias palavras. Mostra-se disponível para continuar, no entanto, sabemos que tem propostas tentadoras de outros clubes com mais ambição, resultado dos dois meses e meio que desenvolveu com grande qualidade à frente dos vila-realenses…

 

Como chegou a treinador de futebol?

Ainda estava no primeiro ano da Universidade no Porto quando fui convidado pelo professor Rui Quinta para treinar uma equipa jovem do Penafiel. Deixei a universidade quando frequentava o quarto ano e optei pelo futebol profissional. Estive na formação do Penafiel durante três épocas, no final foi convidado para treinar o Lousada na II divisão. Durante 14 anos fui treinador-adjunto e preparador físico com vários treinadores, desde a distrital do Porto até à I Liga. Passei pelo Vitória de Setúbal, Lixa, Rebordosa, Paredes, Pedras Rubras, Desportivo de Chaves, entre outros. Comecei a minha carreira como treinador principal no Vila Meã, que na altura tinha subido à II divisão B. Já são 10 anos como treinador profissional. Aceitei liderar esse projeto da II divisão, depois fui convidado pelo Desportivo de Chaves para acompanhar a equipa de Ricardo Formosinho, novamente para a II Liga e como treinador-adjunto. Ao final da terceira época convidaram-me para treinador principal até chegar ao final da Taça de Portugal, em que fomos eliminados pelo Paços de Ferreira. Trabalhei ainda com o Leonardo Jardim, no Chaves, que estava na II divisão, série B.

 

Como surgiu o convite para treinar o Vila Real?

Já tinha sido convidado para assistir a algumas partidas por amigos que tenho em Vila Real. Como estava desempregado vim ver três jogos a Vila Real, como curioso, porque me diziam que tinha um grupo de jovens muito talentosos e de boa qualidade. Como moro em Lousada, também acompanhei alguns jogos do Vila Real em Vizela e em Felgueiras. E foi no final de um jogo em Felgueiras que o empresário Quim Ribeiro me abordou para dar a minha opinião sobre aquela equipa. Foi aí que tudo se iniciou. Duas semanas mais tarde, surgiu o convite do Quim Ribeiro e da direção do clube. Apesar do quadro ser bastante negro, achei que valia a pena arriscar. Sempre acreditei que era possível, porque sabia que o Vila Real individualmente tinha elementos com grande qualidade.

 

Como encontrou o balneário?

Vi uma equipa com pouca confiança, desanimo, descrédito. Mas achei que ia ser fácil mudar aquele clima e dar outra motivação, porque eles são muito jovens e apesar de estarem quase ‘traumatizados’ seria muito fácil, com trabalho, qualidade no treino e com a conquista de resultados positivos, mudar aquela mentalidade e aquele estado de espírito.

 

No primeiro jogo que se sentou no banco em Amarante criticou muito os jogadores. O Vila Real fez uma primeira parte em que poderia ter goleado e acaba por perder no último minuto. Porque criticou publicamente os jogadores nesse jogo? E qual foi a reacção deles?

Foi um momento importante, porque no futebol valoriza-se muito a parte negativa, dos desaires e dos desânimos e pouco a parte positiva. Lembro-me de uma frase que disse que daqui para a frente vamos encarar cada jogo com espírito de missão e de conquista. Um dos males do futebol é que os jogadores nunca são responsabilizados e isso faz toda a diferença. A culpa é sempre do treinador, diretor desportivo, do árbitro, sendo que os jogadores nunca são responsabilizados. Isso comigo não acontece. Eu sou o responsável máximo, dou a cara por eles em tudo, defendo-os, protejo-os dos fatores externos, mas internamente, entre nós e em família, eu responsabilizo diretamente e publicamente, se for preciso, porque o futebol é um espetáculo público, com toda a gente a ver a nossa organização e empenho, por isso acho justo que quem comete erros graves que prejudicam o nosso trabalho e a nossa vida profissional seja responsabilizado. Foi isso que fiz, sem dizer nomes, claro. Mas, no balneário, apontei nomes e culpabilizei as pessoas responsáveis pela nossa derrota em Amarante.

 

É uma pessoa muito frontal?

Não sei ser de outra maneira.

 

Alcançar esta manutenção foi o trabalho mais complicado que lhe apareceu pela frente?

Tive um enorme desgaste. Sou treinador de futebol, esta é a minha profissão, não trato de outras coisas, como logística, burocracia. Sou profissional de futebol há 18 anos e recuso-me a fazer trabalho que não é meu, porque o meu trabalho tento fazê-lo bem e o melhor que sei. Agora questões de outra ordem não são minhas. O SC Vila Real estava muitíssimo mal habituado, em que o treinador fazia um pouco de tudo. Comigo isso não pode acontecer, porque estou aqui para treinar jogadores e ganhar jogos de futebol, se possível, o resto não é comigo. Sou frontal e exigente, têm de cumprir comigo e recuso-me a trabalhar se as condições não forem cumpridas. E foi esse o desgaste enorme que tive aqui, perante um grupo que não estava nada habituado ao rigor, ao profissionalismo e à disciplina. Quando cheguei tive de impor uma disciplina séria, com rigor exacerbado, porque se as coisas estão mal temos que optar pela punição para dar o exemplo. Foi mesmo um grande desgaste, mas quando as vitórias começaram a aparecer, e os jogadores a mostrar em campo o seu rigor, foi aí que começaram a aparecer os resultados do nosso trabalho e as pessoas começaram também a compreender. Mas posso afirmar que foi a experiencia mais difícil e trabalhosa que enfrentei até hoje.

 

Neste lote de jovens jogadores, dois já saíram para o Boavista, mas há mais que podem vir a singrar no mundo do futebol?

Do onze habitual, há três elementos que vão chegar seguramente à I Liga. Depois há outros jovens que chegarão a patamares superiores, se calhar não tão elevados como este grupo de cinco, mas andarão em equipas profissionais de boa qualidade.

 

A direção já o convidou para continuar na próxima temporada?

Ainda não falamos sobre isso. A época terminou na sexta-feira passada, num jogo treino com o Boavista, mas esta semana ainda vou falar com a direção sobre o projeto que têm para o clube. Primeiro tenho de saber qual é o projeto e as ideias. As primeiras pessoas que tenho de ouvir são as do Vila Real, pelo respeito por tudo o que me proporcionaram, já que foram eles que me foram buscar ao desemprego. Neste momento estou aberto a tudo e disponível para conversar.

 

Quer dedicar essa conquista a alguém em especial?

Tudo o que acontece a minha vida dou graças a Deus. Pessoalmente dedico este feito à minha mulher, que tem sido minha companheira, o amor da minha vida, que está comigo há 23 anos. É a mãe dos meus filhos e tem sido o meu grande apoio nesta minha caminhada de 20 anos como treinador profissional. Ela é enfermeira, fica com os miúdos e consegue manter o barco no bom caminho. Ela trata de tudo para eu me dedicar a 100 por cento ao meu trabalho.

A nível de grupo, estes jovens mereceram, custou-lhes muito, mas eles cresceram e foi muito bom para eles esta conquista. Por vezes temos de castigar, custa muito, mas tem de ser, para que eles possam enveredar pelo rumo certo. Tudo isto foi possível graças ao profissionalismo, pois eles aprenderam a ser profissionais, mas não foi fácil, custou muito porque não estavam habituados. Eram pouco disciplinados e o próprio treino era pouco organizado e essa transferência para o rigor e profissionalismo foi bastante difícil…São regras que tive de implementar e que acabaram por resultar em pleno. Temos o caso do Inácio, onde se vê como um homem pode mudar. É só colocá-lo num ambiente certo, dar-lhe as regras certas e controlá-lo como aos outros todos. Ele cumpriu de uma maneira fabulosa, foi uma grande surpresa para mim, porque me tinham pintado um atleta muito problemático e isso não transpareceu dentro deste grupo. Posso afirmar que ele é um dos que vai vingar no mundo do futebol.

 

Tem algum treinador como referência?

José Mourinho, por tudo o que conquistou, por tudo o que modificou no futebol mundial, por ser o melhor dos melhores naquilo que faz e por se manter sempre no topo. Ganhar uma vez, ou outra, pode acontecer a qualquer um, mas ganhar sempre é muito mais complicado. E ganhar sempre e em diferentes campeonatos é só mesmo para os melhores. Gosto também de André Villas Boas pela sua postura honesta e aberta, em que fala de futebol sem rodeios ou meias palavras. Admiro esta postura e identifico-me com essa forma de estar. No entanto, ao nível de metodologia de treino e de jogo, admiro muito mais José Mourinho. Ao nível de liderança, André Villas Boas é muito bom e isso é fundamental para o êxito em qualquer equipa.

 

Há alguém que o marcou nesse seu percurso?

O António Borges (treinou o Vila Real há muitos anos) que me ensinou a ser disciplinado, rigoroso, líder com punho de ferro. Foi com ele que aprendi a fazer valer a minha posição, a aprender as regras da nossa maneira de treinar. Ele foi sem dúvida o treinador que mais me marcou.

 

Qual o seu grande objetivo no futuro?

Quando estiver como treinador no banco de uma equipa a ouvir o hino da Liga dos Campeões, retiro-me da carreira de treinador, já prometi isso à minha mulher. Aos 50 anos, se tiver oportunidade de jogar a Liga dos Campeões, retiro-me. Gostaria de representar uma equipa de ‘champions’ e se me dessem a escolher seria o Atlético de Madrid, gostava muito de ser campeão pelo Atlético. Quando era criança fiquei maravilhado quando vi ao vivo no Vicente Calderon a equipa de Paulo Futre, desde essa altura que sempre fiquei com um carinho especial por esse clube. É muito mais simples ser campeão no Porto, Benfica, Barcelona ou Real Madrid do que no Atlético, Braga ou Boavista. No meio da adversidade ser campeão é de facto incrível e isso só os melhores conseguem.

 

O Atlético de Madrid é um clube que o inspira?

No época passada, o Atlético, de Diogo Simeone, fez um trabalho fabuloso. Eu disse aos meus jogadores que aquele último jogo da época, com o Atlético a empatar em Camp Nou, foi um jogo que me arrepiou. Há 15 anos que o Atlético não conseguia vencer um campeonato e foi a Barcelona ganhar o campeonato. Foi isso que nós fomos fazer a Santa Maria da Oliveira, em que disse aos meus jogadores é fora de casa, não há problema nenhum, festejamos lá.

 

 

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