IgrejaEscolhe a vida e viverás

Escolhe a vida e viverás

1 - Esta semana de 15 a 22 de Maio é a chamada «Semana da Vida», uma instituição do beato Papa João Paulo II para promover na sociedade a estima e o respeito pela Vida, subtilmente ameaçada pela actual civilização.

O slogan deste ano «Escolhe a vida e viverás» é uma frase extraída do livro do Deuteronómio e que lembra aos israelitas já residentes na Palestina o mandamento dado por Deus aos seus antepassados saídos do Egipto. Nascidos e crescidos em regime de escravatura não tinham sensibilidade para compreender o valor da vida humana, a sexualidade, os laços familiares, os direitos da justiça, o respeito pelo bom nome, pelos estrangeiros, pelos velhos, pelas colheitas e mesmo pelo cadáver humano. Ao ler aquele texto bíblico e os livros paralelos do Êxodo e do Levítico impressiona ver os pormenores legislativos a que Moisés teve de descer.

Ligando esta passagem bíblica com outros textos anteriores e posteriores, como a morte de Abel por Caim, a ameaça da morte de Isaac, a venda de José por seus irmãos, a destruição dos sinais da cultura e das populações que Josué encontrou em Canaã além Jordão, as guerras e matança levadas a cabo pelo rei David na unificação das tribos num só reino, e muitos episódios posteriores até à guerra dos Macabeus contra os gregos, sentimos que a violência era a atitude corrente entre os povos. Ao narrar aqueles acontecimentos, a Bíblia não os aprova, contrariamente ao que escreveu José Saramago repetindo outros escritores, mas faz sentir o ponto de partida da educação do povo.

2 – A violência, porém, não se restringia aos povos semitas nem àquela época. Os historiadores dos povos indígenas da América falam dos massacres horrendos levados a cabo entre eles em nome das suas divindades, muito antes dos colonizadores europeus lá chegarem. Tais manifestações da barbárie arcaica prolongam-se hoje nas matanças periódicas dos povos africanos entre tribos rivais, chefes políticos e grupos da oposição. Uma religiosa de Vila Real confidenciava-me, há dias, a frieza de nativos angolanos a passarem ao lado dos cadáveres de jovens abandonados na berma do caminho.

Nos povos ditos civilizados há outro tipo de barbárie estampada na autodestruição das pessoas pela droga, pelo álcool, pela vida nocturna sistemática, pelo suicídio, pela eutanásia, pela ligeireza com que se mata. Mas há mortes sistemáticas mais subtis: são as mortes promovidas por governos em nome do direito à liberdade da mulher, da saúde de reprodução e do bem estar dos cidadãos. Constituem uma nova versão da política que se praticou no séc. XIX com a ideologia nazi (e antes dela com a investigação científica prussiana), com o regime comunista (ainda vigente na China e na Coreia do Norte) e com outras ditaduras. Essa cultura de morte reveste um ar refinado em laboratórios de fecundação artificial para produção de embriões humanos destinados a serem mortos para deles se recolherem as células estaminais; em clínicas de abortos feitos em estruturas hospitalares públicas e privadas; na exploração de pessoas pobres para delas se arrancar órgãos humanos a fim de realizar transplantes.

Dessas silenciosas necrópoles abortistas pouco se fala nos media, silenciosamente aceites como necessárias ao progresso. Fazem parte da «cultura de morte» ou aceitação da morte programada. Que sensibilidade existe por aí acerca dessa praxe? Como a encara o cidadão comum?

3 – Há ainda outra manifestação indirecta da cultura da morte: a agressão maciça à natureza em nome do progresso económico, a qual, por ser o berço natural do homem, acaba por o afectar mortalmente. Acontece isso na destruição das florestas, na poluição dos mares, na industrialização sem regras levada a cabo pelas economias emergentes, nas indústrias nucleares, nas guerras e seu prolongamento em bombas de deflagração. O próprio uso descontrolado dos pesticidas e fertilizantes é, com o tempo, uma agressão às terras e correntes de água. A tentativa de, em várias nações, resolver o exercício descontrolado da sexualidade pela imposição de anticonceptivos é outra manifestação dessa poluição técnica de multidões humanas indefesas, a qual, paradoxalmente, acabaria por fornecer lucros chorudos a empresas internacionais!

4 – Difundiu-se assim um menosprezo pela vida. Como foi possível chegar a isto numa época de tantos recursos e de tanta ciência? – Pela gradual perda do respeito pela pessoa humana na sociedade secularizada. Indo mais longe, a perda do valor da pessoa humana é o reflexo da perda do sentido de Deus e da Criação, pois, ao desligar a natureza e as pessoas do seu Criador, elas deixam de ser «criaturas» de Deus e passam a ser coisas.

Todavia, para recuperar o valor da pessoa e da natureza, não basta restaurar a ideia de uma «divindade», pois os povos primitivos eram profundamente religiosos e isso não obstou a que fossem altamente destruidores de pessoas e culturas. Fizeram-no em nome dos «deuses tribais e nacionais» O Papa Bento XVI insiste ser necessário educar esse vago «sentimento religioso» anunciando ao mundo a pessoa e a mensagem de Jesus Cristo que conduzirão a uma nova relação com Deus e com o mundo como «Criação». A própria dimensão da ressurreição e da eternidade fazem aumentar o apreço pela vida.

 

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