Sexta-feira, 1 de Julho de 2022

“Este ano espero voltar a revalidar o título”

Joaquim Teixeira é natural de Murça e na época passada foi o melhor no Campeonato Nacional de Montanha, título que já tinha conquistado também em 2011. Sendo um piloto com uma vasta carreira no automobilismo, prefere a montanha onde há um convívio muito saudável entre as pessoas, uma coisa que não existe nos circuitos. “Apesar de todos quererem ganhar, se acontecer uma avaria ou acidente a algum piloto, a equipa da concorrência vai ajudar. Somos todos solidários. Nos circuitos isso não acontece, há mais rivalidade”. Desde a reativação do circuito vila-realense, o piloto ainda não faltou a nenhuma edição, conjuntamente com o Luís Martins, e este ano a expetativa é grande, já que vai haver mais público, melhores condições com a chegada do WTCC a Vila Real.

Como começou a sua carreira no automobilismo e a sua paixão pelos carros?

Comecei nas perícias com um mini. Depois começaram as rampas, há 25 anos, e eu como era comandante dos bombeiros de Murça fazia a segurança nas provas. As pessoas vieram ter comigo e desafiaram-me a entrar nas corridas. Comecei pelo troféu dos Toyota Starlet. Posteriormente passei para os Mégane e os Clio. Mais tarde fui para a velocidade, em que fiz o circuito do Estoril, Vila do Conde e Braga, e ainda fiz a OTA, que eram os circuitos mais carismáticos. Cansei-me desta rotina e em 2004 passei para a Montanha, que é muito diferente daquilo a que estava habituado.

Na montanha é mais complicado, pois como corremos individualmente e contra o cronómetro, nós temos de dar o máximo naqueles 5 km, em que não podemos ter desatenções. Para mim é mais motivante.

 

Mas gosta de fazer alguns circuitos?

Gosto de fazer circuitos citadinos que não têm as escapatórias. Se tivermos um despiste vamos mesmo bater nos rails. No de Vila Real e no de Boavista há muito público, mas nos restantes é uma tristeza, há locais onde estão apenas 50 pessoas nas bancadas. Nós, pilotos, gostamos da convivência com público. No entanto, meia hora antes da prova, desligo o fusível e não estou para ninguém.

 

No ano de 2014 alcançou o título de campeão nacional de Montanha – Categoria Turismos. O que significa para si este título, uma vez que já não é o primeiro?

Na velocidade fui campeão em 2002, vice-campeão em 2001. Na montanha fui campeão em 2011, vice-campeão em 2013, e campeão nacional – categoria de turismos, novamente em 2014. É sempre bom vencer porque é um prémio para o esforço que fizemos ao longo da época, sobretudo numa altura em que há dificuldades em patrocínios e apoios.

 

Quais foram os seus principais adversários?

Tive muitos adversários, mas o principal foi o Luís Silva que ficou em segundo. Houve dois Seat que andaram sempre muito próximos, o do José Correia e o do Paulo Silva. É sempre bom ter concorrência porque ganhar sozinho não tem lógica nenhuma.

 

Como se desenrola o campeonato nacional de montanha (quantas provas tem e como se alcançam os pontos).

 

O campeonato nacional de montanha tem 8 provas, que reúnem muito público. Aliás, a par do campeonato de ralis e de todo-o-terreno, a montanha é o que tem maior retorno. Isso está provado através de um estudo da revista Manchete, que na análise que fez ao campeonato nacional de montanha vem referido que deu um retorno aos investidores na ordem dos 2,8 milhões de euros. Tivemos 18 horas nos canais de televisão portugueses, 9 horas nos canais espanhóis, e perto de 500 notícias em jornais e sites. Cerca de 380 mil pessoas assistiram ao vivo às provas. Em 2014, a federação até obrigou os pilotos, que fazem circuitos, a participar em duas provas do CNM, porque é o único sítio onde eles têm público.

Tirando o circuito de Vila Real, que tem muita gente, as outras provas tem muito pouco público. Por exemplo, no Algarve não tem ninguém a ver, as pessoas do Sul não gostam deste tipo de provas e ali só estão os mecânicos e a família, mais ninguém. No Estoril é um pouco mais, mas não muito. Em Braga já há mais gente, mas mesmo assim é muito pouco. Em contrapartida vai à Falperra e estão lá 80 mil pessoas, no Caramulo 30 mil e em Paços de Ferreira 20 mil.

O CNM, esta época vai ter provas na Penha, Falperra (com pilotos que vêm de todo o lado, desde Espanha, Itália, França, Checoslováquia, já que faz parte do Campeonato da Europa), Serra da Estrela, Murça (que foi reativado este ano em detrimento de Cerveira), Caramulo, Paços de Ferreira, e em princípio Santa Marta de Penaguião, em substituição de Bragança. Estamos a ver se conseguimos concentrar o máximo de provas aqui no distrito.

Os pontos, cada um corre dentro da sua categoria e o primeiro fica com 25 pontos; o segundo com 18; o terceiro com 16 e assim sucessivamente. No final quem tiver mais pontos é o campeão.

 

Já está a preparar a nova temporada. Quais são as suas expectativas para este ano?

Sim já estou em preparação para o campeonato nacional de montanha, que espero vencer novamente. Espero ainda ficar nos 3 primeiros classificados nos circuitos.

 

Este ano Vila Real vai receber o WTCC. Foi uma excelente notícia para a região. Que expectativas tem para esse grande espetáculo?

A expectativa para nós pilotos é igual às outras, já que não participamos no WTCC. Para nós, a vantagem é que vamos ter mais público, melhores condições e mais retorno na comunicação social. Para além das expectativas altas para nós, será também bom para a cidade, distrito e região. Aqui não há capacidade hoteleira para albergar todas as pessoas e haverá público que terá de ficar alojado no Porto. Para além disso, o WTCC vai ser transmitido para muitos países.

Nós não podemos participar no WTCC, já que são equipas oficiais e acho muito difícil haver algum português a participar, já que o aluguer de uma viatura ronda os 100 mil euros, por isso não estou a ver ninguém com capacidade para fazer um investimento desses. Mas, se acontecer, ótimo.

 

Como faz a preparação para as provas?

Tenho alguns cuidados. Preocupo-me em fazer exercício de pulso e de pescoço, que são as partes mais exigentes que temos, quer nas travagens, quer nas curvas. Para além disso, faço 6 a 8 km de corrida todos os dias.

 

Quem são os seus patrocinadores? Em altura de crise, como temos vindo a passar, como consegue encontrar apoios?

Não é fácil angariar patrocinadores. Os que tenho já estão comigo há cerca de 15 anos e são sobretudo amigos. A muitos deles já não lhes entrego proposta, contacto-os por telefone e tenho conseguido mantê-los. Ainda estou a ver se consigo arranjar mais dois ou três.

 

É muito dispendioso participar no campeonato nacional de montanha?

Não contando com a aquisição da viatura, o valor do investimento ronda os 20 mil euros. Se tiver que adquirir carro aí já estamos a falar em valores muito elevados. Há carros que custam entre 80 mil (os Mitsubishi) até aos 380 mil euros (o Porsche, do Nogueira, por exemplo). O Mégane que vou utilizar este ano é usado e custa 80 mil euros.

Para além desses 20 mil euros que vou precisar para a montanha, tenho de arranjar mais 15 mil para fazer os circuitos.

 

Recentemente recebeu mais uma distinção no 2º Salão dos Campeões, organizado pela Federação Portuguesa de Automobilismo e Karting (FPAK). A quem dedica o prémio?

A todos os meus patrocinadores, que continuam a acreditar em mim. Aos meus familiares, especialmente ao meu filho e à minha filha, aos meus amigos e à equipa Martins Speed, que sempre me facilitou todas as condições para correr, principalmente ao Luís Martins e ao mecânico Jorge, que são duas pessoas excecionais.

 

Em alguns anos de automobilismo já lhe aconteceram episódios caricatos. Quer contar-nos algum em especial?

Já me aconteceu um pouco de tudo, só não capotei. Já bati de traseira, de lado mas felizmente nunca tive um acidente grave.

 

Que conselho daria a um jovem que pretende iniciar uma carreira no automobilismo.

Se ainda for muito novo deve começar pelo karting, depois deve passar para as fórmulas, que é a melhor escola de condução, mas em Portugal não há grande alternativa e devem fazer os protótipos, que é o mais idêntico às fórmulas.

Quem não tiver a escola dos karting e for um pouco mais velho (mais de 20 anos) deve começar por uma viatura menos potente. A carreira deve ser evolutiva e não saltar degraus, como muitas vezes acontece. No entanto, neste país não contam os resultados mas sim quem tiver bons conhecimentos.

-PUB-

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