Os produtores de batata desta zona do Barroso têm à porta, este ano, a crise da sua comercialização. Falta de procura, preços de miséria oferecidos à produção (12 cêntimos/kg) e a batata importada estão a provocar muitos prejuízos aos agricultores barrosões. Alguns já estão a dá-las aos animais.
“Sem ofensa, comem melhor batata os meus porcos que os nossos governantes”. Um desabafo de Boaventura Moura, produtor de S. Vicente, freguesia a cerca de 5 km de Montalegre e que pode traduzir as dificuldades de comercialização que causam descontentamento geral aos produtores de batata de consumo, face ao mercado que só a procura quando, na União Europeia, as colheitas são deficitárias.
“O preço, neste momento, não compensa a produção. No mercado, a batata é adquirida dos 10 aos 12 cêntimos, por quilo. Assim, não vale a pena produzir batata de qualidade. Há uma concorrência desigual, entre nós e os agricultores da União Europeia. Em Espanha, os Governos Regionais subsidiam os agricultores, na produção de batata, mas aqui dizem que isso é ilegal” – acrescentou este agricultor que cultiva uma área de cerca de 46 hectares.
“Cheguei a ter uma produção de 100 mil quilos, mas como as fronteiras se abriram e veio tudo cá ter, sem ou com qualidade, comecei a perder muito dinheiro” – frisou, para complementar: “Agora colho cerca de cinquenta mil”.
Porém, para ele e para os apreciadores da boa batata, a que é produzida nas altas terras frias do Barroso possuem qualidades ímpares que “em mais lado nenhum da Europa existe. As nossas batatas são as melhores. São batatas que chupam o azeite. São moles, suaves na boca, com paladar intenso e riem-se, ou seja, abrem-se ao garfo. As que andam no mercado parecem nabos e nem o azeite lhes entra. Além disso, as nossas têm poucos tratamentos químicos. Aliás, há anos em que nem sequer aplicamos qualquer produto, o que não acontece nos países da UE, onde a cultura intensiva predomina”.
Mesmo assim, o ano correu de feição, para os agricultores de Montalegre, no que respeita à produção que “foi boa, em qualidade e quantidade”.
Por fim, uma solução que é defendida pela generalidade dos produtores: “Se houvesse emparcelamento dos terrenos, o custo de produção baixava para menos de metade. Assim, não temos hipóteses de concorrer com o estrangeiro e, até agora, não houve Governo que tivesse a coragem de fazer isto. Se não tomarem medidas para prenderem as pessoas à terra, não fica cá ninguém. As aldeias fecham e a produção vai-se” – concluiu.
De referir que a batata, em Portugal, surgiu em 1647. Na região de Trás-os-Montes foi conhecida a sua primeira referência, em 1758. A nível nacional, existem cerca de 50 mil hectares e 180 mil produtores.
A região de Trás-os-Montes, mormente a zona do Barroso, é, por excelência, privilegiada, para o cultivo da batata, representando, este ano, 27% da área ocupada com esta cultura (sequeiro e regadio) e apresentando 24% da produção nacional. A produção média da região de Trás-os-Montes ronda as 112 mil toneladas de regadio e as 23 mil toneladas de sequeiro, sendo a área cultivada de cerca de 40 mil hectares.
Jmcardoso





