“Bastam quinze dias sem chuva para aparecerem as fogueiras nos montes”. Este foi o desabafo de um bombeiro ao Nosso Jornal, perante uma situação que, ano após ano, se vem repetindo, não dando descanso aos soldados da paz do distrito.
Só no concelho de Ribeira de Pena, mais de 30 hectares de pinheiro bravo arderam num incêndio que teve origem numa queimada feita por um popular na zona de Seirós. No concelho de Vila Real, também se tem sentido este efeito, mormente nas zonas mais montanhosas e aptas para a pastorícia.
O adjunto de Comando dos Bombeiros de Ribeira de Pena, António Martins, é uma das vozes que mostra preocupação com as causas destes incêndios registados nesta época do ano. Este responsável admite que as acções de sensibilização junto das populações “não têm resultado em nada”. “As pessoas que têm restolho agrícola para queimar, as autoridades não conseguem demovê-las das suas intenções. Acho mesmo que não há volta a dar, pois as pessoas não querem saber. Eles querem os terrenos limpos e que ninguém os chateie. Alguns até queimam à noite e depois dizem que não são eles”.
António Martins sublinhou um aspecto importante, o escalão etário que poderá estar relacionado com a origem dos fogos . “Normalmente são pessoas a partir dos 60 anos, que não ligam nada às acções de sensibilização”. Uma situação curiosa aconteceu em Alvadia, onde se registaram incêndios quase todos os dias. O próprio presidente da Junta reuniu todos os interessados e propôs a realização de queimadas planeadas, com a presença de bombeiros. Mas, isso não foi aceite pelas pessoas, que logo disseram que não, já que cada um sabia quando e como pretendia fazer a queimada. Ainda a semana passada registaram-se dois incêndios, um em Santo Aleixo e outro em Seirós, provocados pelas queimadas, que destruíram floresta e área arbustiva.
Outra problema está nas zonas de pastorícia, como nos confirmou este soldado da paz. “É uma situação muito difícil, onde houver gado para pastar é onde arde. É uma realidade que não vale a pena esconder. Em Ribeira de Pena, as zonas mais sensíveis são Canedo, Alvadia, Lamas”.
O comandante da Cruz Branca, Álvaro Ribeiro, também abordou ao Nosso Jornal esta matéria, ressalvando desde logo que a competência da investigação da origem dos incêndios cabe ao SEPNA e à GNR.
Em relação aos incêndios destes primeiros meses do ano, Álvaro Ribeiro referiu que “estão um pouco ligados à actividade do pastoreio. Grande parte dos fogos ocorrem em áreas em que existem animais, que são alimentados em regime extensivo”. No entanto, apontou uma outra causa. “Também temos encontrado queimadas de sobrantes ou mesmo em terrenos agrícolas. As pessoas limpam a vegetação espontânea, mas como não estão devidamente preparados para controlar essas queimadas, as chamas acabam por evoluir e transformam-se num incêndio. Por vezes, as condições meteorológicas também não são devidamente avaliadas e rapidamente as chamas se desenvolvem, sendo necessária a intervenção dos bombeiros”.
Este responsável sublinhou a importância da sensibilização. “As pessoas estão alertadas para este facto. Mas, tudo tem a ver com uma cultura que está enraizada, e pela falta de conhecimento do reflexo dos fogos numa perspectiva ecológica e também económica. As pessoas são egoístas no sentido de resolver o seu problema, mas falta também a cidadania, já que todos sabem que um incêndio traz prejuízos incalculáveis para o meio ambiente e para todos nós. Este é um problema que só será resolvido ao longo de gerações, aplicando a lei, pois assim também se educa o povo a ter comportamentos regrados”.
Neste Inverno, as zonas mais flageladas foram o Alvão, Vila Cova, S. Miguel da Pena, embora haja registos de incêndios em Vilarinho de Samardã, Torgueda e na Campeã. Em contraste com esta realidade, na área de actuação da Cruz Verde, o comandante Miguel Fonseca referiu que o último Inverno não deu muito trabalho ao nível dos fogos florestais. “A nossa zona de intervenção tem uma tipologia diferente, pontualmente registamos apenas um caso ou outro. Penso que as campanhas de sensibilização estão a fazer efeito na minha área”.





