“Vamos fazer tudo para que volte a enriquecer o Parque Natural do Alvão”, garantiu João Cabral, coordenador do Laboratório de Ecologia Aplicada (LEA) da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), sobre a intenção de importar projetos e ideias que estão a ser desenvolvidas em vários países para impedir a extinção da gralha-de-bico-vermelho, espécie que, se nada for feito, poderá desaparecer nos próximos 20 anos.
O investigador explicou que o objetivo de mais uma edição do Workshop Internacional para a Conservação da Gralha-de-bico-vermelho, realizado em Vila Real, nos dias 10 e 12, foi exatamente “fazer uma atualização do número de indivíduos” e analisar “as medidas para inverter o declínio da espécie na Europa”.
No nosso país, a gralha- -de-bico-vermelho “está com estatuto ameaçado”, o que quer dizer que está “num limiar preocupante”, podendo resultar na extinção da espécie.
O mesmo documento apontava estimativas que indicam a existência de até mil indivíduos em todo o território nacional, no entanto, segundo dados recolhidos pelo LEA, que desde de 2006 faz a monitorização da espécie, “as contagens não excedem as 500” aves.
“O panorama é sombrio”, considera o investigador da UTAD, revelando que, por exemplo, no Parque Natural do Alvão, onde em 2006 foram contabilizadas 16 gralhas, a população residente tem vindo a reduzir-se ao longo dos anos. “As observações que se conseguiram foram muito fortuitas, provavelmente de indivíduos que estariam a passar. Neste momento pode-se dizer, embora seja preciso tempo para confirmar, que não há uma população viável de gralha–de-bico-vermelho”, confirmou.
Para dar resposta ao desafio de garantir a continuidade daquelas aves, a UTAD reuniu vários investigadores de diversos países que falaram sobre as suas experiências e conquistas nesse processo, entre as quais está a possibilidade da criação em cativeiro e reintrodução nos seus habitats naturais.
Além de reconhecer que a reprodução da espécie em cativeiro nem sempre é bem-sucedida, João Cabral sublinhou ainda a questão da consanguinidade entre indivíduos da mesma população, que podem causar graves problemas de saúde para os indivíduos. “Por exemplo, a síndrome de cegueira que afeta as populações da Irlanda, tudo indica que seja provocado por um conjunto de genes que é reincidente”, exemplificou.
Outro importante passo para a manutenção da espécie é a promoção de algumas atividades agropecuárias tradicionais que constituem o habitat natural da gralha- -de-bico-vermelho. “Isso não é fácil porque tem a ver com questões sociológicas e socioeconómicas das regiões, mas a ideia é criar condições para que a espécie possa permanecer em zonas viáveis”, sublinhou o investigador.
João Cabral referiu que se trata de “pequenas batalhas” para a evitar a extinção e que o LEA está empenhado em travá-las, nomeadamente através da dinamização de projetos que tragam para a região e para o território nacional as experiências bem–sucedidas de outros países, sendo necessário para isso o financiamento adequado.
De sublinhar que, todo o investimento de tempo, recursos humanos e financeiros do LEA não se limita a subsídios-dependência, não espera por financiamentos, uma vez que o laboratório sustenta-se a partir de fundos conseguidos através da prestação de serviços.
Em Portugal existem cinco núcleos populacionais da gralha-de-bico-vermelho, nomeadamente Alvão/Barroso, Douro Internacional, Serra da Estrela, Serra de Aire e Candeeiros e Sagres, todos eles monitorizados por investigadores do LEA.



