IgrejaJornalismo e jornalismo cristão

Jornalismo e jornalismo cristão

1 - No mês de maio, no dia da Ascensão, celebrar-se-á o «Dia das Comunicações Sociais» englobando nessa designação um vasto leque de tecnologias da informação, desde o telemóvel à Internet, que rapidamente colocam todo o mundo em comunhão recíproca, fazendo dele uma aldeia global.

Falaremos disso na altura. Hoje gostaria de me referir somente ao jornalismo e, dentro dessa área, ao jornalismo cristão ou de inspiração cristã, como agora se diz. E faço-o em ligação com a festa de S. Francisco de Sales que ocorreu no dia 24 de janeiro, e que o Papa Pio XI proclamou padroeiro dos jornalistas, em virtude de aquele célebre bispo de Genebra haver recorrido a livros e folhetos para esclarecer os fiéis desorientados no auge do Protestantismo no séc. XVII.

2 – É sabido que o jornalismo atravessa uma época difícil, e muitos títulos vêm a suspender a sua publicação. Contribui para isso a crise económica que se instalou entre nós, obrigando as pessoas a cortar nas despesas de artigos que pareçam menos urgentes; a falta de publicidade ligada ao movimento comercial e industrial, atualmente em maré baixa; e também a facilidade em encontrar informações permanentes por meios rápidos e sem custos financeiros, tais como as rádios e as televisões.

Apesar disso, o jornalismo continua a ter o seu lugar, não só pelo prazer do contacto com o papel impresso mas também pela satisfação de ler e reler a notícia que os outros meios de comunicação lançam no ar e desaparece rapidamente. Acresce ainda o desejo de conhecer as circunstâncias que rodeiam o acontecimento e, sobretudo, o comentário acerca dos acontecimentos maiores. É pelo rigor da informação e por aqueles comentários que os jornais hoje se distinguem e se afirmam.

3 – Nasce aqui a necessidade do jornalismo cristão.

De facto, o dilúvio de informações é tão vasto que um jornal tem necessidade de fazer a seleção das mesmas. Na seleção dessas notícias, no rigor de informação circunstancial e até na sua colocação nas páginas do jornal manifesta–se a orientação do jornal e a sua influência no leitor. A própria seleção da publicidade praticada pelo jornal é um critério de orientação do mesmo, pois é sabido que a publicidade, que suporta muitas publicações, está ao serviço de forças e grupos.

Além disso, muitos factos veiculados nas notícias levantam perguntas de caráter ético e até religioso. Há ainda factos, textos e legislação no interior das comunidades cristãs (paróquias, dioceses e igreja universal) que devem ser dados a conhecer ao público mais vasto, tanto aos praticantes (e aqui têm lugar de relevo os emigrantes) como aos não praticantes. Mesmo numa sociedade laicizada, diria mesmo, sobretudo nessa, tais notícias têm interesse. De outro modo, os cidadãos ignoram segmentos significativos da sociedade. Esses factos e textos têm, naturalmente, a sua dimensão própria e não se vai trazer para um diário nem sequer para um semanário acontecimentos da rotina da vida paroquial. Pode acontecer, porém, que alguns desses factos ditos de rotina revistam interesse. As escolas jornalísticas só reconhecem interesse ao escândalo e ao insólito, mas esses não podem ser os únicos critérios do jornalismo cristão.

Além da informação criteriosa a que me referi, há a área da formação e do entretenimento promovidos pelo jornal. No jornalismo, a formação dos leitores faz-se sobretudo pelo comentário aos factos e às propostas legislativas, pela divulgação sintética de textos oficiais e das tomadas de posição do magistério da Igreja. Estas tornam-se cada vez mais importantes devido à legislação que os Estados são chamados a fazer em áreas novas, marcadas pelo avanço científico e tecnológico. Recordemos a legislação feita em anos recentes sobre o divórcio e o aborto, e, mais recentemente, a problemática das células estaminais, da maternidade assistida, do testamento vital e da eutanásia, os enormes problemas económicos e seus reflexos nas famílias e equilíbrio social, os desafios postos à democracia por grupos secretos, o sindicalismo, a legislação familiar. Todas estas questões fazem parte da doutrina social da Igreja que os pastores de almas (padres e bispos) devem expor aos fiéis logo depois das verdades da fé indispensáveis à salvação, como se prescreve nos cânones 768 e 771 do código de direito canónico. A própria sociedade civil tem interesse em conhecer essa doutrinação, pois, mesmo os que se dizem não crentes, reconhecem à Igreja uma sabedoria secular e um profundo humanismo que pode enriquecer a vida das sociedades.

 

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