Nove dos doze idosos que ficaram “desalojados” com o encerramento do Lar de Barqueiros foram reintegrados em famílias de acolhimento, residentes no concelho de Peso da Régua. Por garantir continua o serviço de apoio domiciliário a 33 idosos, pelo qual a Associação de Barqueiros era responsável.
A consternação era bem visível no rosto e nas palavras dos idosos que, no dia 25, viram o seu quotidiano levar uma reviravolta, ao serem obrigados a deixar o Lar em que vivam, devido a dificuldades financeiras da Associação de Apoio a Crianças, Jovens e Idosos de Barqueiros (AACJIB), em Mesão Frio.
Segundo Rui Santos, Director do Centro Distrital de Segurança Social de Vila Real (CDSS), dos 12 idosos que residiam no Lar de Barqueiros, três regressaram às suas famílias e nove foram recebidos por famílias de acolhimento, residentes no concelho de Peso da Régua.
“Contactámos os idosos que foram realojados e todos estão satisfeitos com as famílias que os receberam”, garantiu, ontem, o mesmo responsável.
Para além do Lar de Idosos, a AACJIB era ainda responsável pelo apoio domiciliário a 33 utentes idosos “que continuam sem esse serviço”, já que, naquele concelho, não existem outras instituições capazes de o garantir.
António Cerqueira, de 84 anos, foi um dos idosos que, no dia 25, se viu obrigado a deixar o Lar, onde residia há dois anos e meio.
“Se sair daqui, não tenho para onde ir. Tenho uma casa, mas não sou capaz de viver sozinho, por isso, se for para voltar para lá, é para morrer”, revelou o octogenário, poucas horas antes de, à semelhança dos outros idosos, ter sido “desalojado” do Lar, recordando que, só para lá entrar, teve que pagar “800 contos”.
O processo de ruptura financeira da Associação de Barqueiros aconteceu numa altura em que as dívidas já ascendem aos 500 mil euros, sendo que foi exactamente a “crise financeira” que a associação atravessa que levou ao pedido de suspensão dos protocolos de colaboração com a Segurança Social, como explicou, ao Nosso Jornal, Luís Cortês, actual Presidente, um dos fundadores da AACJIB e, entre 2001 e final de 2007, “Vereador responsável pelo Pelouro da Acção Social, em regime de tempo inteiro”, na autarquia de Mesão Frio.
O mesmo responsável explicou que os problemas financeiros se arrastam, desde 2002, e acumulam, actualmente, para além das dívidas a fornecedores, Segurança Social e Finanças, atrasos de seis a 12 meses nos salários dos 11 empregados, sendo que um dos funcionários já recorreu ao Tribunal de Trabalho de Lamego que, no dia 28 de Fevereiro, vai levar a hasta pública a sede da instituição, com uma base de licitação de 159 mil euros.
“Tudo está em causa, mas não irremediavelmente perdido”, sublinhou Luís Cortês, explicando que a Direcção da associação já pediu a realização de uma Assembleia Geral, de onde deverá sair a resolução final dos problemas da associação que poderá passar pelo “seu encerramento definitivo”, “pela sua integração noutra instituição” ou, ainda, pela concretização de “um negócio pendente” que poderá revitalizar o projecto.
Rui Santos frisou que “não foi a Segurança Social que tirou os idosos do Lar”, mas que se limitou a “aceitar o pedido de cessação de contrato” e a dar resposta adequada aos utentes que ficaram sem o Lar.
O mesmo responsável revelou, ainda, a importância de “averiguar as responsabilidades” de toda a situação de ruptura financeira, adiantando que, a partir do momento em que se acumulam dívidas, na Segurança Social, o Ministério Público avança, para o terreno, para as devidas investigações, “o que já deve estar a acontecer”.
Criada em 1993, a AACJIB contou, no seu auge, com quase 100 funcionários, mas, já em Janeiro do ano passado, a questão das dificuldades financeiras foram levantadas, com as dívidas à Segurança Social, por parte da Associação de Barqueiros, a impedir o financiamento para a execução do projecto social “Mesão Frio Integra”, do qual a associação era a entidade executora e a Câmara Municipal a promotora.
Em comunicado, a concelhia de Mesão Frio do Partido Socialista sublinhou que o encerramento do lar representou “o culminar de alguns anos de gestão confusa e problemática e de conhecidas dificuldades financeiras”.
“O Vereador José Luís Cortês foi o obreiro da construção da IPSS – Associação de Barqueiros, e o responsável pela sua actividade e sucessos. A pessoa e a instituição sempre pareceram uma só entidade. Mas também é o responsável dos últimos anos de ruptura financeira e de avultados incumprimentos”, explicou o partido da oposição no concelho sublinhando que o próprio presidente da associação “admite que na origem dos problemas, estão diversas situações de alcance partidário e político, nomeadamente o aproveitamento da Associação para opções eleitorais que pretendiam favorecer o PSD local e o Senhor Presidente da Câmara” entre as quais “contratação, desnecessária, de dezenas de trabalhadores em período eleitoral”, “execução de diversas obras e construções particulares, assumidas pela Associação, para assegurar vantagens eleitorais, que nunca foram ressarcidas pela autarquia ou assumidas pelos seus responsáveis”.
Maria Meireles





