Terça-feira, 6 de Dezembro de 2022
No menu items!
0,00 EUR

Nenhum produto no carrinho.

Mais-valias tardam, para o “território” da UNESCO

Vai fazer cinco anos que, a 14 de Dezembro, a Unesco classificou o Alto Douro Vinhateiro como Património Mundial. Após este tempo, existe alguma frustração, na região. As expectativas criadas de desenvolvimento integrado, a vários níveis, e a preservação ambiental e paisagística do território classificado ainda são pouco visíveis. O “prémio” para as gerações que, […]

PUB

Vai fazer cinco anos que, a 14 de Dezembro, a Unesco classificou o Alto Douro Vinhateiro como Património Mundial. Após este tempo, existe alguma frustração, na região. As expectativas criadas de desenvolvimento integrado, a vários níveis, e a preservação ambiental e paisagística do território classificado ainda são pouco visíveis.

O “prémio” para as gerações que, anos a fio, erigiram a paisagem vinhateira, ainda não foi recebido. A qualidade de vida das populações não evoluiu. A desertificação não foi estancada. Os vinhedos ancestrais e tradicionais vão desaparecendo. Alguns autarcas estão desiludidos e não escondem algum desencanto. Afinal a classificação da UNESCO, não foi a “árvore das patacas” que muitos pensavam.

A Unidade de Missão, criada pelo Governo, para o “território”, poderá ser a última esperança, em termos de operacionalidade das muitas medidas, planos e projectos de milhões que, ano após ano, vão sendo apresentados, mas que acabam por ficar na gaveta.

Neste trabalho, registamos as opiniões de alguns autarcas e agentes de desenvolvimento durienses, quando confrontados com o balanço destes cinco anos. As suas opiniões são quase unânimes: embora a esperança seja a última coisa a morrer, a desilusão predomina, nas suas alusões.

O Presidente da Câmara Municipal de Sabrosa, José Marques, é um deles: “Os benefícios recolhidos pela distinção da UNESCO estão aquém das expectativas. Embora o Douro esteja na moda, nota-se que não existem meios, instrumentos e condições para o desenvolvimento de um trabalho que possa capitalizar, para a região, todas as mais-valias, em termos ambientais, humanos e financeiros. Por outro lado, também é verdade que não soubemos tirar partido da atribuição da classificação e é notório, também, que falta uma reforma institucional, para o Douro. O Douro não tem uma estratégia afirmada. Existem situações desgarradas, valências dispersas, como é o caso da existência de quatro Regiões de Turismo, numa área tão diminuta. Falta uma verdadeira política nacional que encare o Douro numa perspectiva de desenvolvimento e cujos destinatários sejam aqueles que lá vivem. O próprio Governo deve olhar para o Douro como Património Nacional. Quanto à Unidade de Missão para o território da UNESCO, ao fim e ao cabo, só existem promessas, promessas e não se concretiza nada”.

 

Não se tem notado qualquer efeito palpável

 

A mesma opinião, mas com a esperança de que as coisas melhorem, tem o Presidente da Câmara Municipal de Santa Marta de Penaguião, Francisco Ribeiro.

“Não se tem notado qualquer efeito palpável, na qualidade de vida das pessoas que habitam o Alto Douro Vinhateiro. Pelo contrário. Após a classificação da UNESCO, o sector vitivinícola entrou numa profunda recessão e os lavradores durienses estão em dificuldade. Até agora, tem sido, apenas, um título, para a região, mas cujos proveitos tardam em chegar. Embora ainda haja decorrido pouco tempo, até agora não há reflexos no desenvolvimento e progresso da região. Haja esperança em melhores dias e que os fluxos turísticos que têm aumentado possam deixar um residual económico importante, para a região”.

Por sua vez, o Presidente da Câmara Municipal de Mesão Frio, Marco Teixeira, reconhece que “a classificação da UNESCO tem trazido, até agora, deveres para os Municípios, mas as compensações tardam em chegar. Não se vê nenhum investimento, na região. Tudo fica no papel. Milhões para lá, milhões para cá, tudo não passa dos gabinetes. De facto, existe algum desencanto, quando esta distinção da UNESCO é um filão que deve ser explorado”.

Vila Real também tem freguesias inseridas no Património da UNESCO: Ermida e Nogueira. O Vice-Presidente do Município, Nazaré Pereira, também salientou algum desencanto: “De facto, até agora, não tem havido retorno. Por várias razões. Não tem havido investimento público e privado na região, em termos de infra-estruturas, com reflexos na qualidade de vida das populações. Também a própria região ficou a olhar para o seu umbigo e de nada tirou proveito. Tem havido muito pouca acção do Estado. As instituições locais e as autarquias querem, mas não podem. Os seus recursos financeiros são fracos. E os privados evidenciam mais orgulho do que aproveitamento empresarial. A classificação da UNESCO deveria ser sensível em apostas no investimento, no desenvolvimento socio-económico das populações e no próprio ambiente”.

 

Inércia na aplicabilidade das medidas anunciadas

 

Nazaré Pereira, apontou alguns exemplos: “A situação das lixeiras a céu aberto. Pululam por tudo quanto é sítio. É necessário aplicar medidas de protecção ambiental, mas, até agora, e de uma forma visível, nada. Faltam programas específicos para a defesa dos socalcos tradicionais do Douro. Gradualmente, vão desaparecendo e, em seu lugar, surgem patamares sem muros de suporte em xisto. O investimento nas ferrovias não existe, sabendo-se a importância que têm, junto dos núcleos populacionais mais encravados do interior duriense. Planos de recuperação de habitações tardam, também, e o Projecto das Aldeias Históricas Vinhateiras tem-se arrastado”.

Em relação à anunciada criação da Unidade de Missão para o território classificado da UNESCO, Nazaré Pereira foi peremptório: “Só tem sido apregoada. Aqui está um exemplo da inactividade e da inércia da aplicabilidade das medidas anunciadas”.

Menos pessimista está o Presidente da Câmara Municipal de Murça, João Teixeira: “Considero que, em termos globais, vive-se melhor, no Douro, desde a distinção da UNESCO, embora sejam notórias as dificuldades por que passam os agricultores da região, face à crise que assola o sector vitivinícola. Julgo, também, que as pessoas que habitam as zonas classificadas ainda não sabem o que é pertencerem a uma região que é Património da Humanidade. Daí que julgue ser necessário levar a cabo acções de sensibilização, junto das mesmas. As Câmaras, por si, têm tentado fazer valer o galardão atribuído a 14 de Dezembro, mas, por si só, isso não chega. O único sector que se evidenciou, neste processo, foi o turístico”.

 

Turistas não deixam nada de especialmente importante

 

João Teixeira fez questão de salientar um pormenor importante: “Infelizmente, não há nas vias de comunicação que levem ao Alto Douro Vinhateiro qualquer informação ou indicação a anunciar ao visitante que está a entrar numa área classificada como Património Mundial”.

Por fim, o Presidente da Junta de Freguesia do Pinhão, Pedro Perry, apesar de ter ficado contente com o galardão da UNESCO, sublinha que pouco ou nada se alterou, em benefício das populações locais: “O aumento dos turistas é evidente, mas também não deixam nada na região. Sente-se alguma desilusão, junto daqueles que teimam morar no Douro. E convém não esquecer que estes socalcos, estas paisagens, foram “construídos” por quem morou e habita cá. Estes devem ser os destinatários privilegiados, em termos de progresso e desenvolvimento, o que não acontece. Saliento o esvaziamento de serviços a que a vila do Pinhão tem sido sujeita. O nosso povo precisa de ser tratado com algum respeito!” – concluiu.

 

José Manuel Cardoso

PUB

APOIE O NOSSO TRABALHO. APOIE O JORNALISMO DE PROXIMIDADE.

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo regional e de proximidade. O acesso à maioria das notícias da VTM (ainda) é livre, mas não é gratuito, o jornalismo custa dinheiro e exige investimento. Esta contribuição é uma forma de apoiar de forma direta A Voz de Trás-os-Montes e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente e de proximidade, mas não só. É continuar a informar apesar de todas as contingências do confinamento, sem termos parado um único dia.

Contribua com um donativo!

COMENTAR FACEBOOK

Mais lidas

A Imprensa livre é um dos pilares da democracia

Nota da Administração do Jornal A Voz de Trás-os-Montes

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Subscreva a newsletter

Para estar atualizado(a) com as notícias mais relevantes da região.