Sábado, 30 de Maio de 2026
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Município é referência nacional na recuperação de moinhos

Cinco anos depois da criação da Rede Portuguesa de Moinhos (RPM), em Boticas, o município transmontano mantém activa a sua forte aposta na recuperação e reaproveitamento dessas infra-estruturas, sendo considerado mesmo como uma “referência nacional não só na preservação dos seus moinhos, mas também na generalidade do Património Molinológico Português”.

Jorge Miranda, antropólogo e dinamizador da RPM, explicou, ao Nosso Jornal, que o município barrosão foi “claramente pioneiro” na missão da preservação dos moinhos, sendo de referir que, além de ter estado na origem da Rede, em 2006, da qual é Alto Patrocinador, também acolheu, em 2004, o XI Simpósio Mundial, um dos momentos altos da molinologia em Portugal ao acolher investigadores e entusiastas dos cinco continentes.

Segundo o mesmo responsável, “os moinhos portugueses são um cartaz e uma imagem de marca do país. Basta ver a difusão espontânea de referências e fotos nos materiais turísticos e mesmo nas publicações oficiais”. “Sobretudo os de vento são inconfundíveis marcos na paisagem que qualificam e caracterizam o nosso território, acompanhando a sua diversidade territorial com a diversidade cultural que nos caracteriza”, sublinhou ainda Jorge Miranda.

Tendo em mente o aproveitamento turístico da sua riqueza molinológica, o município de Boticas tem apostado, nos últimos anos, na recuperação dos seus moinhos, mantendo em prática, por exemplo, um conjunto de apoios aos proprietários. “Nós apoiamos todos os proprietários que queiram recuperar os seus moinhos, através da isenção de taxas e licenças para as obras e facilitando a aquisição de materiais, por exemplo”, explicou Fernandos Campos, presidente da Câmara Municipal, adiantando que os apoios podem variar dependendo do interesse histórico e patrimonial de cada moinho.

No que diz respeito ao aproveitamento dos já recuperados, a autarquia tem desenvolvido vários projectos, não só ao nível turístico, com a implementação de três Rotas Pedestres, mas também promovendo a aproximação da população, em especial dos jovens em idade escolar, às infra-estruturas, outrora consideradas muito importantes para a economia do concelho.

“Queremos optimizar ainda mais o seu potencial turístico”, sublinhou o autarca, revelando que, desde que foram criadas, as rotas já foram percorridas por centenas de pessoas, inclusivamente por grupos estrangeiros de entusiastas da molinologia.

Fernando Campos garante que a autarquia está “muito satisfeita com o interface de ligação” criado com a RPM através da Etnoideia, entidade dinamizadora da mesma, deixando o apelo a outros municípios para que sigam as suas pisadas ao nível da recuperação dos moinhos.

Segundo Jorge Miranda, “é difícil” contabilizar o número de moinhos existente no distrito, no entanto, “tratando-se de moinhos de rodízio, que são sistemas de baixa potência e de uso sazonal, a tradição aponta para uma quase paridade com o número de casas rurais (no sentido tradicional casa-família)”, sendo de sublinhar a existência de “alguns moinhos do povo, sobretudo no Alto Barroso”.

“Em Boticas, por exemplo, identificámos mais de 260 moinhos deste tipo, num trabalho conjunto entre a Sociedade Internacional Molinologica, a Etnoideia e a Câmara Municipal”, contabilizou.

O antropólogo sublinha que, “atendendo que são literalmente centenas por município”, existe um vasto número de casos que necessitam de uma intervenção urgente, no entanto explica que, “há que fazer uma gestão territorial e patrimonial quando se pensa nesta escala, uma vez que os moinhos estão muito dispersos e disseminados, e fazem uma cobertura intensiva do território”.

“Em suma, não parece realista que todos possam ser recuperados para a sua antiga função, mas a limpeza dos sistemas de captação de água, levadas e irrigações associadas, bem como outros usos (turismo, educação e lazer e mesmo micro-geração) podem e devem ser equacionados”, defendeu.

Quando questionado sobre o porquê da importância de recuperação dos moinhos, Jorge Miranda refere que se trata de “um património rural importante para o desenvolvimento, sobretudo, das zonas de baixa densidade onde a coesão territorial e social são progressivamente diminuídas, e onde todos os valores endógenos devem ser utilizados ao serviço de novas oportunidades empreendedoras, de fixação de jovens qualificados e de criação de emprego”. Isso além de ser “inegável” a “importância cultural e identitária dos moinhos”.


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