Quarta-feira, 10 de Agosto de 2022

“Não há limitações àquilo que podemos ser e aspirar, a não ser as limitações que colocamos a nós próprias”

Numa sociedade em que as diferenças de géneros esbatem-se cada vez mais, para falar da força Mulher em Portugal há um rosto que aparece quase de imediato, o de Maria Luís Albuquerque, ministra das Finanças. Numa entrevista exclusiva à VTM, a governante falou do sonho de infância de ser veterinária, da sua forte ligação com o Douro, da sua entrada para a política e do desafio de equilibrar a vida profissional e familiar. Considerando-se uma privilegiada por nunca ter sentido qualquer desvantagem por ser mulher, a ministra deixa a uma mensagem às portuguesas: para se atingir objetivos é preciso “acreditar”…

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O Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, teve como origem as manifestações das mulheres por melhores condições de vida e trabalho. Mais de cem anos depois dos acontecimentos que levaram ao estabelecimento desta data, qual a sua visão sobre o papel da mulher na sociedade portuguesa e no mundo?

Evoluiu muito o papel da mulher na sociedade portuguesa e mundial. Em particular nos últimos 30, 40 anos. Tenho a sorte de viver num país onde tive igualdade de oportunidades, apesar de saber que não é a situação de todas as mulheres. Pessoalmente tive essa sorte de nunca sentir qualquer tipo de discriminação, nem pelo comportamento da minha família, nem no local de trabalho, até porque pertenço à Administração Pública, onde há de facto muitas mulheres. É um papel que sempre foi fundamental e que tende a aparecer mais com destaque na vida pública, política, nos cargos de liderança, onde em algumas áreas ainda há uma desigualdade muito marcada, mas as mulheres claramente têm ganho espaço. Nas escolas, em qualquer nível de ensino, é evidente que a taxa de sucesso das mulheres é em média superior e isso vai acabar por se refletir a todos os níveis, na liderança das empresas, da vida política e a tendência é para se acentuar nos próximos anos.

 

É um exemplo da força feminina em Portugal, pelo papel que tem desenvolvido ao nível profissional e político. Alguma vez sentiu que a sua caminhada tenha sido mais difícil por fazer parte do sexo fraco, como muitos ainda classificam?

Nunca senti nenhuma desvantagem pelo facto de ser mulher. Aliás, acho que sou uma privilegiada. Mesmo que tenhamos todo o apoio e condições, algumas mulheres ainda sente em demasiado o peso da culpa da falta de afeição que damos aos filhos e à família. Mas, pessoalmente, nunca senti que tivesse qualquer tipo de discriminação e hoje, em alguns lugares, até há vantagem em ser mulher porque há uma grande preocupação com a igualdade de género.

 

Há a consciência que as mulheres estão na política devido às cotas que estão estabelecidas. Acha que o lugar atribuído à mulher na política é em função de uma lei que estabelece essa presença?

No meu caso não senti de todo. Mas, as mulheres têm hoje essa vantagem competitiva. Há uns anos eu não tinha qualquer simpatia pelas cotas, hoje tenho uma visão um pouco diferente. Às vezes é preciso acelerar com este tipo de medidas para acompanhar as mudanças na sociedade, como já aconteceu com outras causas, como a integração de minorias. Não se deve confundir o preenchimento da cota com a questão do mérito, as duas coisas não são de todo incompatíveis. O significado do preenchimento de cotas é dar oportunidade a alguém que tem mérito, devido a uma resistência à mudança em determinadas áreas. No meu caso nunca senti que estivesse a preencher uma cota ou que o meu mérito estivesse em causa.

 

Acha que a política ainda é um mundo machista?

Não. Acho que os homens estão mais disponíveis para as exigências da política, nomeadamente a nível de tempo. Para quem tem uma família é muito complicado prescindir de fins de semana, não ter horas para chegar a casa e as mulheres tendem a assumir um papel mais relevante, sobretudo quando têm filhos pequenos ou idosos em casa, e isso também lhe dá menos disponibilidade para o envolvimento na política.

 

Além de ministra das Finanças é mãe de três filhos. Como é conciliar o seu dia-a-dia, enquanto uma das mulheres mais influentes em Portugal, mas também esposa e mãe?

Não é fácil, mas durante toda a semana estou no trabalho, muitas vezes fora de Portugal e só com apoio grande do meu marido é que é possível gerir a vida profissional e pessoal, pois nesta altura não concilio muito bem o tempo.

 

Como foi a sua juventude? Hoje é uma mulher “dos números”, mas quando era jovem sentiu já essa vocação?

Queria ser veterinária. Mas quando cheguei ao 11.º ano percebi que não era aquilo que queria. Mudei de ideias e acabei por tirar o curso de economia. Tinha a ideia romântica que talvez não fosse só tratar de cães e gatos e aquilo não era para mim.

Passei a minha juventude Portugal em vários sítios diferentes e também em Moçambique, onde o meu pai trabalhava.

 

Como se deu a sua entrada para a política?

Eu conheço o primeiro-ministro da universidade Lusíada, já que fui sua professora. Encontrei-o casualmente em 2008, já não o via há algum tempo, conversamos e trocamos contactos. Quando ele se candidatou pela segunda vez à liderança do PSD eu contactei-o e ofereci-me para colaborar, se ele achasse útil, e as coisas foram acontecendo.

 

Nas próximas legislativas vai encabeçar alguma lista? Fala-se no círculo eleitoral de Viseu…

Essas decisões têm a ver com a forma como o partido se vai organizar para as próximas eleições e ainda não tive nenhuma conversa sobre isso, portanto nada está definido. Estou disponível para concorrer às próximas legislativas, mas não vou adiantar mais nada, a seu tempo se saberá. É prematuro e não vou falar sobre isso.

 

É apontada como possível candidata à liderança do PSD. Admite essa possibilidade?

Não admito essa possibilidade. E não faz sentido naquilo que é a minha perspetiva de futuro.

 

Quase dois anos após ter assumido o lugar de ministra das Finanças, qual o balanço?

Eu já estava no Ministério, como secretária de Estado, aliás, toda a vida trabalhei em torno do Ministério das Finanças, na Direção Geral do Tesouro, numa empresa pública, na dívida pública. A experiência tem sido dura ao nível da exigência do trabalho, mas eu tive a sorte de entrar numa altura em que as coisas começaram a melhorar, o que tornou o meu trabalho mais fácil e mais leve, apesar das dificuldades que vão aparecendo.

Agora, em março vamos reembolsar em 6 milhões de euros o FMI, o que é um sinal muito importante da nossa capacidade de aceder ao mercado a custos interessantes e poder substituir dívida cara por dívida mais barata, o que ajuda depois a reduzir o nível da dívida pública e do défice.

 

Numa fase tão complicada da vida pública portuguesa, alguma vez equacionou a hipótese de desistir?

Às vezes desisto à noite, mas depois retomo de manhã. Desistir mesmo a sério não, até porque tenho um compromisso com o país e não faz sentido não o cumprir.

Temos tido momentos difíceis, mas quando se está nestes lugares temos mesmo que tomar decisões, muitas delas difíceis mas temos de as tomar na mesma. As fáceis quase que acontecem sozinhas.

 

Tendo em conta as suas funções enquanto membro do Governo e mesmo o seu papel na União Europeia, acha que ainda vive “num mundo de homens”?

Não sou a única mulher das finanças no Eurogrupo, pois há também a ministra da Estónia. No Ecofin, somos nós as duas mais a ministra sueca, mas é um mundo ainda muito masculino, sobretudo na área das finanças, basta ver as administrações dos bancos, onde o panorama é quase exclusivamente masculino. Já vai havendo algumas mulheres mas ainda somos poucas. Temos de inverter essa tendência.

O ideal é haver equipas mistas, que tendem a ser mais equilibradas e mais eficientes. Os homens e mulheres têm de facto maneiras de estar diferentes, que se refletem em todas as vertentes.

 

Nasceu em Braga, mas tem raízes fortes no Douro…

Nasci em Braga porque o meu pai era na altura comandante da GNR em Guimarães, onde vivi até aos três anos, depois fui para Fafe, mas as minhas raízes familiares estão no Ribatejo (de onde é natural a minha mãe) e em Armamar (de onde é natural o meu pai), onde sempre passei férias e onde estudei durante três anos. Vivi na casa dos meus avós e é em Armamar que eu sinto essas raízes. É a minha terra.

 

Mas considera-se duriense?

Eu considero-me portuguesa e vivo há muitos anos na região de Lisboa, onde tenho a minha vida organizada. Mas quando me perguntam qual é a minha terra, eu claro que respondo Armamar, que é onde me sinto muito bem.

 

Uma mensagem às mulheres portuguesas…

Tenho uma admiração grande pelas mulheres portuguesas em geral. A mensagem que gostaria de deixar é que não há objetivamente limitações àquilo que podemos ser e aspirar, a não ser as limitações que colocamos a nós próprias. Se acreditarmos que conseguimos atingir os nossos objetivos, nós, mulheres, normalmente conseguimos. Somos nós que educamos os filhos e temos uma influência determinante sobre eles quando são pequenos, por isso parte muito de nós que eles não sejam machistas nem preconceituosos. Portanto, se a sociedade é machista é porque as mulheres também se reveem nesses valores e tradições.

 

As oportunidades existem para todas independentemente do local onde se nasce?

O sítio onde nascemos molda a nossa maneira de pensar e muitas mulheres acreditam não ter oportunidades ou capacidades porque a família lhe coloca esse sentimento, e elas sentem-se presas a isso. Não é irrelevante, mas hoje com o acesso que temos à informação, é possível para muitas mulheres que nasceram nesses meios, que à partida não seriam propícios à tomada de posições de liderança (de autonomia, independência e afirmação) superar o desafio. Tem muito a ver com vontade, autoconfiança e aproveitar as oportunidades. Claro que há situações mais difíceis que outras, mas não se pode desistir.

 

O interior está cada vez mais desertificado. O governo não deveria ter uma atenção especial para esta vasta região ao nível de incentivos fiscais para as empresas se instalarem aqui?

O interior tem merecido muita atenção por parte do governo. Durante muito tempo achava-se que o interior precisava de boas infraestruturas, se houvesse muitas autoestradas haveria mais gente a viver no interior, a verdade é que temos um rede viária das melhores do mundo e isso não fixa as pessoas no interior. Depois houve múltiplos fundos comunitários para criar infraestruturas sociais, desportivas, culturais, que em muitos locais não têm população que os utilize, e com custos de manutenção que são incomportáveis para os municípios. Esta estratégia não funcionou e as pessoas saíram. É fundamental criar emprego, mas as empresas também dizem que têm dificuldade em estabelecer-se no interior porque não há mão- de-obra. Estamos numa situação que se foi degradando ao longo do tempo, o país está envelhecido, o número de jovens tem reduzido e este movimento de êxodo do interior para o litoral tem já muito tempo, sendo difícil reverter. Nós temos um conjunto de medidas, por exemplo no novo quadro Portugal 2020, há majorações dos fundos comunitários para investimentos no interior, em que os territórios de baixa densidade são objeto de um tratamento privilegiado. Tem havido muitas medidas para dar capacidade de resposta às necessidades do interior. As empresas que invistam no interior já têm um código fiscal do investimento com benefícios assinaláveis para se instalarem em territórios de baixa densidade. Temos uma rede de infraestruturas que permite servir o mercado a partir de uma localização do interior. Há um conjunto de projetos, que conseguimos depois de uma grande luta em Bruxelas, que são pequenas ligações viárias entre os locais de produção e as autoestradas, que vão permitir dar maior acessibilidade onde as empresas estão e onde outras se podem instalar. Portanto, há um conjunto muito significativo de incentivos para que as empresas se instalem no interior. Agora depende dos empreendedores avaliarem estas condições e ponderarem as alternativas. Há múltiplos mecanismos de incentivos mas há também uma mudança de mentalidade que o país precisa de fazer, pois é preciso criar oportunidades no interior. Mas este processo vai demorar porque é um fenómeno muito enraizado na forma de estar das pessoas. Os jovens, por exemplo, pensam que para ter um emprego têm de ir para Aveiro, Porto ou Lisboa. Isso vai levar tempo a mudar. É preciso demonstrar que viver no interior tem muitas vantagens.

 

A maioria dos autarcas do interior queixa-se da lei das finanças locais, das limitações que tem e da dificuldade em gerir esta situação. O governo já equacionou a possibilidade de alterar ou olhar caso a caso, já que eles são tratados todos por igual?

Não, isso não é assim. Nós fizemos alterações recentes à lei das finanças locais e fizemos um acordo com a Associação Nacional de Municípios, relativamente por exemplo à lei dos compromissos e pagamentos em atraso, onde há uma diferenciação conforme a situação financeira das autarquias, mas o controlo tem de existir. Apesar de a maioria ter contas equilibradas, há um número muito grande de autarquias que tem situações de desequilíbrio gravíssimas. A verdade é que quando estamos no Ministério das Finanças e temos de cumprir um défice de 2,7 por cento, o défice das câmaras conta e tem que haver alguma capacidade de controlo das regras de funcionamento, dos limites de endividamento e das boas práticas orçamentais. As autarquias não são totalmente desligadas do Estado central, apesar da sua autonomia. Quem tem de responder pelo resultado final é o governo e o Ministério das Finanças, que dependem também dos resultados dos governos regionais e das autarquias locais. Quem tem situações de desequilíbrio grave tem muito mais restrições à sua atuação e quem tem uma situação financeira equilibrada, naturalmente, tem mais liberdade de atuação. À medida que a situação financeira das autarquias vai melhorando, tal como a situação financeira do Estado, vamos ter tendencialmente menos restrições, mas há regras que não vão desaparecer. A lei dos compromissos permite hoje ter queixas em março, em vez de novembro, altura em que já não podemos fazer nada. Em março ou abril ainda vamos a tempo de dar a volta, e como temos a restrição dos fundos disponíveis, quando começamos a notar a falta mais cedo, podemos atuar. Antes desta lei, éramos confrontados com o facto consumado e não podíamos fazer nada. São regras duras, agressivas, exigem uma postura diferente, mas acho que conseguimos um bom resultado nas últimas alterações, em que é feita uma diferenciação entre quem tem, ou não, uma situação financeira sólida e estável.

 

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