“Quando tinha 7 anos já andava de mota e sempre andei rodeado de pessoas ligadas ao motociclismo”. Os colegas e o pai tinham motas e gostavam de andar todos juntos a correr pelos montes e não só. No entanto, André Pires sentia que queria chegar mais longe, pois gostava de competir e não andar de mota só por andar. O ‘bichinho’ estava lá e a vontade de aprender também. “Gostava muito de competição, de aprender a fazer mais e melhor, e dar sempre o máximo. Foi assim que começou a minha vocação para correr”. Este ano está a reunir apoios para o campeonato Europeu, onde deverá competir com os melhores da Europa. Um dia espera chegar ao campeonato mundial. Entretanto, tem feito algumas provas ao Campeonato Espanhol, que é um dos melhores do mundo, e em 2013 foi convidado pela primeira vez para fazer o Grande Prémio de Macau, que é umas das provas mais míticas do motociclismo e mais perigosas do mundo, onde correm os melhores pilotos mundiais.
A Voz de Trás-os-Montes – Como começaste a tua carreira no motociclismo?
André Pires – Não foi nada fácil, eu tinha apenas 14 anos e era um sonho entrar no motociclismo. Como não tinha quase ninguém para me ajudar, comecei a ver revistas e a procurar na Internet informação. Vi numa revista uma notícia em que andavam a selecionar jovens pilotos para correr num troféu. Então, tentei fazer logo de tudo para poder ir aos testes, lá consegui convencer a minha família e arranjar maneira de ir. Claro que íamos todos com poucas expectativas pois nunca tinha andado em competições e pensávamos que ia ser uma viagem perdida. No entanto, ao chegar lá, adaptei-me depressa e fui logo selecionado, o que foi uma surpresa. A partir daí foi sempre muita vontade de querer aprender e de querer dar sempre o meu máximo. Acho que quando trabalhamos e damos o máximo, conseguimos os nossos objetivos.
VTM – Em outubro alcançaste o título de campeão nacional de SuperBikes. O que significa para ti este título?
AP – Este título significa muito, estou muito feliz por ter conseguido ser Campeão Nacional na classe rainha que é a SuperBikes, apesar de já ter sido Campeão Nacional de 125cc e de SuperStock 600cc. Mas este é realmente especial pois é a classe que, quando comecei a correr, eu via e admirava muito, é onde existem as motas mais potentes e mais rápidas. Claro que eu sonhava um dia poder correr nesta classe mas sempre pensei que seria muito difícil pois já na altura era muito complicado arranjar patrocínios. Mas, agora, olho para trás e vejo que este título foi o resultado do trabalho e dedicação que sempre coloquei nas corridas. É ainda o culminar de um percurso que comecei a trilhar ainda muito jovem, mas não é só meu mas também das equipas por onde passei, dos patrocinadores, que me ajudaram, e estes três últimos anos do Team Sbk/IncortCar, que fizeram um excelente trabalho de equipa e, em conjunto, conseguimos bons resultados.
VTM – Quais foram os teus principais adversários?
AP – No ano que agora terminou o principal adversário foi o piloto Tiago Magalhães, pois no ano de 2013 perdi o campeonato para ele, em que na penúltima prova no Circuito de Braga caí na última curva e na última volta, tendo perdido 5 pontos que deram para ele se sagrar campeão. Eu sabia que em 2014 ele iria estar mais forte para defender o título, já que é o piloto com mais experiência e anos nas SuperBikes. Em todas as provas foi uma luta direta entre mim e o Tiago, até à linha da meta e cavávamos separados por milésimas de segundos, mas em 2014 tive mais sorte, apesar das avarias. Consegui sempre acabar as provas e reunir pontos, o que foi muito importante para o título. As duas últimas provas que ganhei seguidas em Braga deram-me uma grande vantagem para ser campeão.
VTM – Explica-me como se desenrola o campeonato nacional (quantas provas tem e os pontos como se alcançam).
AP – O campeonato costuma ser composto entre 7 a 8 provas, nos Circuitos de Braga, Estoril e Portimão. O importante é terminar sempre na melhor posição possível, que nos dá pontos, se for em 1º é 25 pontos, 2º é 20 pts, 3º é 16, 4º é 13 e assim sucessivamente. O número de pilotos tem vindo a diminuir de ano para ano, mas este ano nas SuperBikes ainda houve 13 inscritos. É um bocado triste porque se formos comparar com um campeonato espanhol, que está mesmo aqui ao nosso lado, numa prova são 40 inscritos, logo aí fica demostrado o nível de competitividade, que é muito elevado.
VTM – A nível internacional, em que provas já participaste e qual foi o teu melhor resultado?
AP – A nível internacional, sempre que conseguimos um patrocínio extra, aproveito para ir fazer provas fora, pois são campeonatos muito competitivos. Mas, como somos muitos pilotos, puxamos todos uns pelos outros e damos sempre um bocadinho mais. Tenho feito algumas provas no Campeonato Espanhol, que é um dos melhores do mundo, e no ano de 2013 fui convidado para fazer o Grande Prémio de Macau, que é, sem dúvida, umas das provas mais míticas do motociclismo e mais perigosas do mundo, mas fiquei muito contente por ser convidado porque só se pode correr por convite e convidam os melhores. Foi uma surpresa, pois não estava nada habituado a circuitos citadinos e tinha perfeita noção do perigo, mas, com calma e sem arriscar muito, as coisas foram saindo bem e em 40 pilotos consegui terminar em 13º, sendo ainda o melhor “Estreante” entre 10. Foi uma alegria poder correr no meio de grandes pilotos do Road Racing e da Ilha de Man. No ano que agora terminou, tive a mesma oportunidade mas já não correu nada bem, logo nos treinos cronometrados, na terceira volta, tive uma queda sem consequências mas fui hospitalizado e a mota não ficou nas melhores condições, o que não me permitiu participar na prova.
VTM – Como te preparas para as provas?
AP – Preparo-me fisicamente ao andar de bicicleta, ir ao ginásio, faço motocross e treino na mota de corrida, que é muito importante para conhecer bem, sentir-me à vontade e confortável, pois estando bem fisicamente, a nível psicológico também fica muito mais fácil.
VTM – Na próxima temporada vais correr no Campeonato Europeu de SuperBikes 1000cc. Como está a correr a preparação?
AP – Sim, vou tentar o FIM Superbike European Championship, mas ainda não está nada definido, estou a tentar arranjar uma equipa para isso, pois para fazer o Europeu é muito difícil, os custos são o triplo. Tem que ser uma equipa profissional, pois é um trabalho quase a tempo inteiro e, claro, para isso, é preciso arranjar os apoios necessários. Ainda estou a estruturar o projeto mas espero conseguir os objetivos. Serão provas em França, Espanha e Portugal e se correr bem, o Europeu será uma rampa de lançamento para o Mundial. Se as provas não coincidirem, espero poder defender o meu título nacional.
VTM – Quem são os teus patrocinadores? É fácil encontrar apoios?
AP – Os patrocinadores que me têm acompanhado sempre são a Câmara Municipal de Vila Pouca de Aguiar, GonkSYS, InterMarche, IS-Madeiras, Brivel, Moto Clube do Corgo, Team SBK/IncortCar, entre outros. Quero agradecer-lhe muito por estarem sempre comigo. É muito complicado arranjar patrocínios pois sei que sou de uma zona com muita pouca indústria e as empresas que existem não podem ajudar muito, isso torna as coisas muito difíceis, pois eu tenho que ajudar a equipa com uma parte dos custos, o que é um esforço enorme. Acho que dão pouco valor ao motociclismo, vejo milhões a ser gastos no futebol e a maioria das vezes o resultado é zero, e eu mostro resultados mas mesmo assim é muito difícil arranjar patrocínios. Mesmo os meios de comunicação não ajudam muito e mostram-se pouco interessados. Por outro lado, a cultura dos portugueses parece que só gostam e veem futebol e até mudarem ainda vão passar muitos anos. Era necessário mais apoios para o motociclismo, pois sempre tivemos grandes pilotos com capacidades de serem campeões do mundo e nunca lhes deram a oportunidade de mostrarem o que valem.
VTM – Recentemente foste homenageado em Vila Pouca de Aguiar. O que significou para ti essa homenagem?
AP – É um grande orgulho e fico muito feliz por ter pessoas da minha terra sempre a acompanhar-me e a reconhecerem o meu valor e esforço para alcançar as vitórias. Já são três títulos nacionais, graças ao apoio e à força de todos os que me acompanham e me dão ainda mais força para continuar, poder fazer um bom resultado e levar o nome da minha terra o mais longe possível.
VTM – Explica-me alguma peripécia que te tenha acontecido em alguma prova…
AP – São bastantes, mas uma das que mais me marcou foi em 2012, altura em que corria em SuperStock 600cc. Foi numa prova em Braga em que estava a chover bastante e então decidiram juntar as 1000cc com as 600cc. Eu atrasei-me um bocado e não me deixaram entrar na grelha, então tive de arrancar das Boxes e só o podiafazer quando o último piloto passasse. Fiquei chateado e enervado e quando arranquei logo na segunda volta já ia em 5º lugar, na quarta volta já estava em 3º à geral e depois passei para 1º à geral, entre as 1000cc e as 600cc, onde ganhei com meia reta de avanço. Foi, sem dúvida, a minha melhor prova. Também foi engraçado ver a equipa a ralhar comigo no fim, pois eles diziam-me “para ter calma e ir devagar porque levava bastante avanço”, mas estava tão motivado que “acelerava ainda mais”. Em tom de brincadeira, a equipa dizia: “vais começar a sair sempre da última posição”.
VTM – Que conselho darias a um jovem que pretende iniciar uma carreira no motociclismo.
AP – Se for o que realmente gosta, que tente, lute por isso, porque o importante é fazer o que gostamos e se for com prazer ainda melhor. Só assim as coisas saem e correm bem. Sei que é uma tarefa difícil mas nunca devem baixar os braços. E o mais importante é acelerar mas com juízo, sempre em pistas e nunca na estrada.



