Quarta-feira, 20 de Outubro de 2021

O Natal e os Vitrais da Sé

1- Senti alguma relutância em publicar este texto. São tantas as vozes a falar da crise social em que estamos envolvidos que uma reflexão cultural pode afigurar-se uma fuga à vida real. Apesar disso, resolvi publicá-lo não só porque da crise económica outros falarão mas também porque nem só de pão vive o homem. A crise social tem por detrás de si uma crise moral e cultural, e convém tratá-las ao mesmo tempo. Este texto nasceu da reflexão da festa de Cristo Rei no Domingo passado e da festa do Natal cuja preparação se inicia no próximo Domingo. Para além dos aspectos litúrgicos e éticos, as festas têm uma dimensão cultural que é preciso exercitar.

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As duas festas podem chamar-se as festas do fim e do princípio ou, melhor dizendo, a festa de Jesus Cristo que empurra o mundo do princípio até ao fim. As festas cristãs possuem esta enorme flexibilidade: têm um rosto acessível às pessoas mais simples e outro a pedir longa reflexão. Ambos trazem encanto. Assemelham-se ao mar: qualquer criança pode brincar com a espuma das ondas que chegam à praia, e o oceanógrafo encontra aí tema para longas investigações. Na festa de Cristo Rei a alma simples saboreia o triunfo do rei que vence o tempo, e o pastoralista recorda a festa instituída por Pio XI para animar os militantes da Acção Católica sobre o empenho dos leigos no mundo; na festa do Natal, a criança fixa-se no brilho das luzes do presépio, nos doces e nas prendas; o catequista falará da Encarnação do Filho de Deus como primeira etapa para a Páscoa. Mas há nas duas festas o diálogo da fé e da razão, no caso concreto, a relação da Encarnação de Jesus com a Criação.

Na prática habitual, a religião e o mundo caminham lado a lado, paralelos, sem nunca se encontrarem, tanto no plano dos comportamentos como no plano da reflexão teórica. As pessoas não fazem qualquer relação do Natal de Jesus ou da Páscoa com o Universo: Jesus teria vindo à terra e tê-la-ia deixado como um turista apressado em terra estrangeira. Ora essa relação existe e celebra-se nas festas de Cristo Rei e do Natal.

2 – O mundo é designado na linguagem escolar pela palavra «Natureza», aquilo donde tudo nasce, chamada por isso a «mãe natureza»; na linguagem bíblica não se fala da «natureza», mas de «Criação». São duas orientações culturais diferentes. O Renascimento é que alterou a linguagem e a expressão «criação» Na linguagem científica (a única que é usada pelos estudiosos, como A. Damásio) parte-se da «natureza» para tudo; na linguagem bíblica diz-se que a dita natureza é «efeito» e como tal é analisada na sua estrutura íntima e na relação com Deus, com o Homem e com o Tempo. Afinal, o Universo, a História e o Tempo são uma só realidade vista de ângulos diferentes: o Universo é a realidade física convergindo num todo, a História é a fluidez dessa realidade no tempo, o Tempo é a coordenada por onde desliza o Universo e se desdobra em passado, presente e futuro. Não há Universo sem História nem História sem Tempo, nem Tempo sem Universo e sem História.

Esta reflexão aberta sobre a beleza interna e externa do mundo, sobre os infinitamente grandes e os infinitamente pequenos, sobre o dinamismo biológico permanente (e não somente sobre a economia do petróleo e diamantes), ocupou sempre os homens da reflexão. O famoso cientista Alberto Einstein confessava-se abismado perante a beleza escondida e a complexidade do Universo: à superfície, ele é um teatro de hecatombes, desastres naturais de águas, ventos, abalos sísmicos e vulcões; o espantoso, porém, é que, apesar de tudo isso e talvez com isso tudo, a unidade e harmonia se mantém quase como um ser vivo. Por esse motivo, os gregos chamaram ao Universo o «cosmos», palavra conotada com «beleza». Desse cosmos infindo (não confundir com infinito) o nosso organismo é uma amostra em miniatura, designado por isso «micro-cosmos». Também aí reina uma espantosa unidade dinâmica, que é patente ao dizermos os «meus» pés e as «minhas» mãos, as «minhas» ideias e os «meus» sentimentos», a «minha» idade e o «meu» futuro, os «meus» sonhos e os «meus» planos, fazendo girar em volta de um «eu» a matéria orgânica, os sentimentos e as ideias. O apagamento desse «eu» será o anúncio da aproximação da morte.

3 – Na história da cultura, a reflexão sobre essa unidade dinâmica levou a formulações ousadas, desde Spinoza que falava de uma alma do Universo num panteísmo estruturado, até ao nosso vizinho amarantino, o poeta Teixeira de Pascoais, que propunha uma confusa teosofia onde também entrava o Verbo.

Há nessas propostas filosóficas e literárias a exigência lógica de uma realidade interna e, embora sejam insatisfatórias, valem como grito de alma inquieta. As ciências positivas, prisioneiras da sua metodologia, limitam-se aos seus segmentos e não gostam de falar de «intencionalidade» nem de «finalidade» da natureza. Todavia, a reflexão humana é mais abrangente que aqueles ramos do saber e detecta no Universo uma ordenação interna dos elementos que levanta perguntas inevitáveis.

Os vitrais da nossa Sé veiculam a resposta bíblica à relação do Verbo com a Criação: o Verbo ocupa o centro do Universo e da História, e são inseparáveis, interligados: tudo vem do Verbo e ao Verbo tudo regressa De modo engenhoso, o vitral sobre a porta principal ostenta, ao centro, um «quadrado» e, dentro dele, um «círculo», figuras geométricas que eram, na cultura antiga, os símbolos da perfeição» e da «totalidade»: os «quatro cantos da terra». S. João diz no Apocalipse que a «praça da cidade da Jerusalém celeste tinha a forma quadrada, o comprimento, a largura e altura eram iguais»; em redor desse quadrado central movem-se doze rectângulos (quadrados imperfeitos, símbolos dos Apóstolos) e, à sua volta, o azul do mar, do céu, da distância – o Universo. Deste modo, em volta de Cristo giram a Igreja (os Apóstolos) e o universo. «Tudo foi feito por Ele e para Ele», dizia grandiosamente S. Paulo na missa de Cristo Rei, e S. João repeti-lo-á na chamada «missa do dia» no Natal.

Essa é a orientação do Universo apresentada pela Bíblia: «as realidades físicas encaminham-se para o homem, o homem orienta-se para Cristo e Cristo para Deus»! Cristo não é, pois, um apêndice ao mundo, um turista que a visita, mas o Verbo que precede o mundo, que se meteu dentro do mundo, que o arrasta por dentro. Aquilo que Spinoza gaguejou e que Teixeira de Pascoais disse confusamente no caldo cultural do atribulado séc. XIX misturando sombriamente Darwin, Marx, Paganismo e Saudade, aparece revelado no vitral sobre a porta de entrada e de saída da Sé. «Eu sou o Alfa e o Ómega, o Princípio e o Fim». Em belíssima síntese de ciência, teologia e mística, o P. Teilhard de Chardin, biólogo, paleontólogo, jesuíta e místico, chama ao Universo o «Meio divino»: a Geoesfera dá lugar à Biosfera, a Biosfera à Noosfera e esta à Cristosfera. «Tudo o que cresce converge», resumiu o famoso homem de ciência e de fé, «converge para Cristo».

4 – Válidos para qualquer espaço, os vitrais da Sé gozam da grande vantagem de terem no retábulo do altar-mor o rosto do Verbo humanizado, quer na imagem do Menino quer na imagem do Crucificado, permitindo ao estudioso descer facilmente da reflexão abstracta sobre o Verbo ao encanto visível das imagens do Verbo encarnado e, de modo acessível ao olhar de uma criança, ver Aquele que entrou no corpo do mundo e rege invisivelmente o mundo e a história.

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