Sexta-feira, 1 de Julho de 2022

O Teatro já é uma “rotina” na vida dos transmontanos

Falar das artes do espetáculo na região, é falar no Teatro de Vila Real, um equipamento que há uma década “dá” cultura à população. Naquele espaço já foram apresentadas mais de 700 peças teatrais, entre grupos amadores e profissionais, que contaram com perto de 115 mil pessoas na plateia. Depois de passar por momentos menos fáceis com a crise económica sentida a nível nacional e com a extinção da empresa Culturval, hoje alguns dos objetivos passam pela aposta num maior envolvimento da comunidade, pelo reforçar o Serviço Educativo, pela dinamização de coprodução e, acima de tudo, pela manutenção de “uma programação regular de qualidade”

Ao longo de dez anos de existência, o Teatro de Vila Real trouxe uma revolução na oferta cultural da região, falando-se sempre da importância de formar os públicos. Hoje os transmontanos são um público diferente daquele de há dez anos?

Sim, podemos constatar que uma parte da população adquiriu hábitos regulares de ida ao Teatro. As pessoas vão já não por os espetáculos serem acontecimentos sociais inéditos ou fenómenos de rara ocorrência, mas porque integraram nas suas rotinas a assistência a espetáculos como componente normal de uma cidadania urbana, moderna, participativa e informada. A fruição cultural é agora a principal motivação de grande parte do público transmontano, que entretanto se tornou em alguns casos mais exigente, fruto da experiência e do conhecimento. Os transmontanos, como todos os portugueses, são infelizmente também um público diferente porque têm menos capacidade de adquirir bilhetes do que há dez anos, tornando-se por isso, naturalmente, mais seletivos, mesmo que contra vontade.

A formação de públicos tem de ser uma tarefa permanente, não só pela natural renovação das gerações (há já hoje jovens espectadores que não têm memória da cidade sem o Teatro), como porque, dados os múltiplos apelos e distrações mediáticos de que as pessoas são alvo, é necessário reafirmar permanentemente o papel e o interesse das artes performativas na valorização de uma comunidade.

 

No ano passado o Teatro foi alvo de um grande processo de reestruturação, com a extinção da empresa municipal Culturval. Essa é uma pasta já completamente fechada? Que dificuldades e benefícios advieram desse processo?

A extinção da Culturval, como de dezenas de empresas municipais, não só da área da cultura, fragilizou o Teatro. A internalização no Município não foi um problema em si, mas a iniquidade da lei concebida pelo atual Governo determinou que os trabalhadores do Teatro Municipal tivessem de concorrer para os seus próprios postos de trabalho e, se depois integrados na função pública, o fizessem pelo início da carreira, com posição remuneratória correspondente ao escalão mais baixo, apagando os dez anos de trabalho anteriores. Isto prejudicou evidentemente a vida pessoal de cada um e levou à saída de alguns trabalhadores, factos que tiveram naturalmente repercussões no Teatro. Estamos a trabalhar com a Câmara Municipal em formas de minorar os impactos deste processo.

 

O Teatro de Vila Real sempre demostrou abertura para os agentes culturais da região. Em Trás-os-Montes há talento?

Há, claro. Recordemos, nas artes performativas, apenas para dar alguns exemplos, a Peripécia, os Galandum Galundaina, a Companhia de Dança do Norte (de Pedro Pires), a cantora vila-realense Emmy Curl, os actores e encenadores João Pedro Vaz e Paulo Castro. Há outros, porventura com menos visibilidade, mas que têm vindo a construir trabalhos dignos de atenção. E há também, a um nível diferente, talentos que merecem passar pela experiência dos palcos para eventualmente espoletarem as suas carreiras e corrigirem ou consolidarem o seu percurso de aprendizagem. Um teatro municipal, quando espaço único, deve estar disponível não só para acolher artistas de carreira firmada (e portanto aptos a proporcionar a qualidade de programação que se deve oferecer ao público, função primordial), mas para ser também um veículo de formação e divulgação de vocações emergentes. Temos procurado estar atentos à criação em Trás-os-Montes, dando-lhe palco e o apoio possível.

Há ainda uma função social que os teatros municipais desempenham, colaborando assiduamente com associações, escolas e outras instituições.

Mas na região também há outro tipo de talento. Temos vindo a apoiar iniciativas de programação e a integrar na nossa própria programação curadorias de alguns grupos, pessoas ou instituições com bons critérios, ideias e até talento organizativo. O juízo estético é um talento que gostaríamos de ajudar a desenvolver, dadas as suas repercussões no tecido criativo local e no público.

 

Qual a sua opinião sobre a realidade atual do teatro amador transmontano?

Há grupos amadores que têm sabido manter uma atividade regular, na boa tradição do teatro amador. A Oficina de Teatro de Favaios, o grupo do Centro Cultural Lordelense, estruturas que temos acolhido, são disso exemplo. Há em Mondim um projeto de singular interesse, dirigido pelo Tiago Pires. Em Vila Real, o grupo Cronópios e Famas, que trabalha com jovens estudantes do secundário, apresentou aqui já duas produções de particular mérito, com ambição, rigor e exigência. É uma boa notícia a reativação do TUTRA (teatro universitário), que teve bons momentos em anos anteriores. Gostaríamos também de poder desenvolver algum trabalho de maior apoio a estes grupos, promovendo cruzamentos de experiências, consolidando e alargando com eles uma comunidade assídua e amante de teatro no concelho e na região.

 

Quais os principais desafios com que o Teatro de Vila Real se depara hoje?

O maior dos desafios é o que enfrentam todas as instituições públicas e privadas no país: minorar os impactos da crise económica, atravessá-la sem perdas substanciais ao nível da qualidade, da diversidade e da regularidade das atividades.

Dentro da difícil conjuntura atual, o Teatro tem ainda, contudo, a ambição de executar um processo de alguma renovação, cujas bases reflexivas têm já dois anos e cuja implementação estamos agora a iniciar, com o apoio da Câmara Municipal.

Felizmente, Vila Real e as suas instituições (e o seu público) têm conseguido que o Teatro Municipal se mantenha como um dos que no país mais têm conseguido resistir à crise económica, mantendo um bom nível e regularidade de programação.

 

Projetos para o futuro…

Dar continuidade a um projeto de envolvimento da comunidade, iniciado com participação entusiástica em Fevereiro com o espetáculo ‘Rios do Sono’, da Circolando. Achamos importante envolver mais os vila-realenses com as estruturas profissionais do país, tanto para lhes proporcionar experiências novas, como para contribuir para a formação de vocações artísticas e para a formação dos espectadores em geral. Temos já agendados outros espetáculos, de música, teatro e dança, que envolverão grupos locais ou cidadãos comuns.

Também queremos reforçar o Serviço Educativo, com mais workshops e ações de formação.

Há uma outra ambição à espera de condições para se implementar e que se relaciona com um aprofundamento da co-produção de espetáculos com as companhias locais e ainda a encomenda de criações originais a estruturas profissionais da região e nacionais.

E é um projecto permanente, matricial, manter uma programação regular de qualidade, continuar a fazer do Teatro de Vila Real um palco onde passa o teatro, a dança e a música que de melhor se fazem em Portugal (e, quando possível, no estrangeiro), sem nivelar por baixo ou reduzir as opções artísticas a critérios simplistas.

-PUB-

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