Sábado, 2 de Julho de 2022

O Torga entende o Papa

Com algum interesse e curiosidade foi divulgada a Exortação Apostólica do Papa sobre a Eucaristia, «Sacramento da Caridade. É um tema sobre o qual se multiplicaram nos últimos anos textos do magistério, o que é sinal da preocupação da Igreja por dar aos fiéis uma maior compreensão desta realidade, e, por outro, da dificuldade em […]

Com algum interesse e curiosidade foi divulgada a Exortação Apostólica do Papa sobre a Eucaristia, «Sacramento da Caridade.

É um tema sobre o qual se multiplicaram nos últimos anos textos do magistério, o que é sinal da preocupação da Igreja por dar aos fiéis uma maior compreensão desta realidade, e, por outro, da dificuldade em tornar acessível ao mundo o mistério celebrado. O falecido Papa João Paulo II dedicou a este tema três documentos: em 1998 a carta apostólica «O Dia do Senhor» (Dies Domini), em 2003, a encíclica «A Igreja vive da Eucaristia» (Eclesia de Eucaristia), em 2004 a carta apostólica «Fica connosco» (Mane nobiscum). Para o ano de 2005 programara o Sínodo sobre a Eucaristia, mas já não o pôde realizar, e o texto de Bento XVI é o resultado final.

Uma Exortação Apostólica é um documento que reúne pareceres de participantes de todo o mundo, com problemáticas muito diferenciadas, umas sacudidas por ventos de laicismo e outras ameaçadas de enquistamento. Por ser uma espécie de acta reflectida, uma Exortação Apostólica é um documento abrangente. Esta Exortação tem a marca do seu responsável final, o Papa Bento XVI, e já inclui citações da encíclica «Deus caritas est», posterior ao Sínodo.

Divide-se em três grandes capítulos: Eucaristia, mistério acreditado; Eucaristia, mistério celebrado; Eucaristia, mistério vivido.

No primeiro capítulo não passam despercebidas as afirmações de que «o primeiro conteúdo da fé eucarística é o próprio mistério de Deus, amor trinitário», «na Eucaristia revela-se o desígnio de amor que guia toda a história da salvação», a «Trindade envolve-Se plenamente com a nossa condição humana», «no pão e no vinho, sob cujas espécies Cristo Se nos dá, é toda a vida divina que nos alcança». Esta maneira de situar a Eucaristia abre horizontes mais largos do que dizer que a Eucaristia é a renovação da Ceia, como habitualmente se diz. De facto, o esquema da Missa é o da Última Ceia de Jesus, mas nesse rito realiza-se um projecto da Trindade que inclui a Criação e a Encarnação. Esta perspectiva aparece em vários documentos teológicos do Papa enquanto professor, identificando o «sacrifício» de Cristo com a onda de amor que enche toda a vida de Jesus e se consuma na Cruz, pelo que o sacrifício não é somente a oferta dolorosa do final da vida, e menos ainda uma «privação». Aquela entrega voluntária de toda a vida atingiu certamente o ponto alto e o teste na etapa final, mas é a onda de amor trinitário que dá consistência a essa dor. Esta doutrina coincide com a mensagem do Papa para esta Quaresma quando manda contemplar o Crucifixo do lado de Deus, como sinal desse amor infinito da Trindade ao mundo. Isto explica por que motivo a celebração da Eucaristia começa pela invocação da Trindade.

No segundo capítulo, dedicado ao modo de celebrar a Eucaristia, o Papa faz um apelo discreto ao uso de alguns textos em latim e de trechos do canto gregoriano sobretudo nas celebrações internacionais, à moderação no modo de fazer o cortejo da apresentação dos dons, que «não deve ser enfatizado com descabidas complicações», e ao rito da paz, a realizar «com sobriedade saudando as pessoas ao lado», e à reserva em celebrar a Eucaristia em certos casamentos e outros actos sociais por pessoas que não frequentam a Igreja.

Certa comunicação social fixou-se em duas passagens para tecer comentários negativos sem qualquer preocupação de as fazer compreender. Nos últimos anos, uma onda de laicismo afastou muita gente da prática religiosa, e daí a tendência de atrair à Missa multidões de pessoas alheias ao mistério cristão recorrendo a ritmos musicais e gestos ruidosos para «animar» a celebração. São enxertos postiços, que passam ao lado do mistério celebrado. Há muito tempo que pessoas piedosas, e mesmo gente sem fé mas com sensibilidade ao mistério, vinham a clamar contra esta onda de «banalização». Recordo o que escreveu o nosso Miguel Torga acerca de um funeral em Coja, no dia 2 de Março de 1977: «Um enterro encomendado em português de jornal e aspergido com um hissope de bolso, portátil e prático como uma lapiseira. Que saudades senti à beira da sepultura da farta caldeirinha de água benta, a proporcionar uma copiosa chuva de perdão sobre o morto, e do velho latim que caía pesado na cova, e lá ficava enterrado também, a ressoar misterioso pela eternidade fora. Requiem aeternam dona ei, Domine… Et lux perpetua luceat ei…Eram pazadas de som que significavam para além de toda a compreensão. De repente, tudo mudou. Neste mundo vazio, plástico, veloz, onde mais nenhum gesto, nenhuma palavra, nenhum sentimento tem a grandeza do homem ideal, mas apenas a do homem trivial, a própria Igreja, que sempre referia cada criatura a Deus e à sua divina perfeição, resolveu reduzi-la à pequenez natural. Limitou a majestade litúrgica a práticas sumárias, e, em vez de induzir o crente nos mistérios da transcendência, recomenda-lhe que seja rasteiramente funcional nos caminhos imanentes de uma salvação sem glória».

De facto, há duas maneiras de tornar acessíveis as coisas grandes, seja o mistério religioso seja um texto de Homero, Dante ou Camões: ou aumentar a capacidade das pessoas ou apoucar a beleza. O segundo caminho é fácil, o primeiro é exigente. Com a Missa tem-se andado pelo segundo caminho mas o Papa quer o primeiro e para isso anuncia um compêndio com textos, reflexões e orações, que ajude a entender e viver a Eucaristia.

Na terceira parte, «Eucaristia, mistério vivido» ou reflexos no comportamento dos participantes na Eucaristia, aparecem os conhecidos problemas dos divorciados recasados e a comunhão, e do celibato do padre católico. A posição da Igreja sobre estas matérias é uma questão interna da espiritualidade da Igreja, deriva da compreensão do mistério cristão. Como acontece no modo de celebrar, que deve ser ditado pela natureza íntima da Eucaristia, também aqui só há polémica por causa da tentativa de fazer descer os valores da fé cristã. Tanto o casal cristão como o sacerdote são chamados a viverem um amor uno, exclusivo e estável, com marca de ressuscitados.

Esta exigência ética da Eucaristia estende-se à vida pública, mas isto foi silenciado. O Papa lembra que o culto agradável a Deus nunca é um acto meramente privado sem consequências sociais, e sublinha a responsabilidade dos cidadãos e dos políticos católicos que devem apresentar e apoiar leis defensoras da vida desde a concepção até á morte natural, da família fundada sobre o casamento, e em apresentar leis inspiradas nos valores impressos na natureza humana. Insiste ainda na responsabilidade de todos na promoção do bem comum em todas as suas formas e no empenho de todos em responder a situações de injustiça, aos desafios da globalização e à defesa da criação. Os bispos são obrigados a recordar sem cessar tais valores» (n.83)

 

* Bispo de Vila Real

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