2 – A doença é uma realidade humana tão antiga como o homem, mas vem a tornar-se uma espécie de desafio ao brio dos cientistas e dos governantes. É tão grande a consciência do avanço alcançado pela ciência e pela farmacologia nos últimos anos, e tão viva a consciência dos direitos do cidadão doente que, inconscientemente, os centros de investigação científica e as estruturas sociais parecem sentir vergonha de não ter extirpado tal e tal doença, e de não dar conforto pleno a todos os doentes. No parlamento os deputados terçam armas a ver quem consegue ser mais generoso na defesa do povo, e acusam de desvio desumano qualquer política que não resolva todos os casos; nas aldeias mais afastadas ou nos bairros urbanos mais elegantes, os vizinhos lamentam em termos algo violento os casos que pareçam revelar desinteresse ou demora no tratamento dos doentes.
Em muitos casos assiste- -lhes toda a razão. Aparecem, contudo, sinais de algum encarniçamento ao lamentar que a investigação científica se atrasou, que a doença tarda em recuar, ou que os cuidados hospitalares não são tão completos como se deseja. É perfeitamente natural que haja um maior número de casos aflitivos porque tem aumentado o número de pessoas idosas mercê da melhoria da alimentação e da assistência médica prestada à população nas últimas décadas; e é ainda natural que haja mais casos de pessoas sozinhas por causa da saída dos filhos e das noras e dos netos de casa, e, nas aldeias, por causa do abandono do trabalhado dos campos onde só ficaram os mais velhos e os viúvos.
A sociedade deteta facilmente os frutos amargos das mudanças sociais, mas esquece as causas dessas situações que radicam, afinal, nas orientações dadas há anos pela mesma sociedade a respeito da família, da habitação e do trabalho. É fatal que, alterando as estruturas relacionadas com o casamento, os filhos, a educação e a economia, se alterem depois as condições de amparo das crianças, dos doentes e dos idosos. Não se pode ter, ao mesmo tempo, sol na eira e chuva no nabal, e os progressos sectoriais mal calculados trazem transtornos sociais futuros. Nas aldeias ainda se mantém o sentido da boa vizinhança criado em grande parte pelos laços familiares e da entreajuda laboral Nas cidades é diferente, pois tudo é conduzido pelo protagonismo individualista, com residência temporária, e mais frágil a rede de conhecimentos pessoais.
Nestas circunstâncias, a doença e o isolamento dos idosos requerem uma educação para novos comportamentos.
3 – Há outra mudança sociológica, essa mais diretamente ligada à fé. Desde épocas ancestrais que a humanidade ligou a doença ao religioso, frequentemente de maneira patológica e até supersticiosa. A doença era sentida como a grande marca da fragilidade existencial e, consequentemente, ligada ao divino. Entre os antigos hebreus, o vigilante das doenças contagiosas era o próprio sacerdote, uma espécie do atual delegado de saúde, a quem era preciso prestar provas da cura para entrar novamente no acampamento e, mais tarde, no povoado. O doente, sobretudo o doente psíquico, dizia–se um endemoninhado. Por tudo e por nada se recorria ao homem e à mulher de virtude, como se faz ainda hoje no mundo africano.
Na sociedade industrializada, essas atitudes vêm a ser substituídas pelo recurso às drogas químicas e às técnicas psicológicas, procurando reordenar os mecanismos de comportamento humano abalados em casos traumáticos. Cura-se o natural com o natural, e põe-se de lado o religioso.
Também aqui há o perigo do tal encarniçamento: essas técnicas valem o que valem, e em muitos casos passam ao lado do problema. Refiro-me nomeadamente à doença grave e terminal, e à morte de familiares e amigos. Tais realidades ultrapassam as drogas e as psicologias, e colocam-nos abertamente perante o problema do sentido da vida e na esfera da eternidade: a quem tem fé só esta os pode serenar, e aos que dizem não ter esperança e choram de modo diferente dos que têm Páscoa, pouco adiantam aquelas técnicas.
É a esta complexidade da doença que se dirige a mensagem do Papa. Depois de estimular a visita dos familiares e a prestação dos cuidados de saúde, o Papa fala dos sacramentos da «cura» – a Reconciliação (ou Confissão) e da santa Unção dos Doentes. Esta palavra «cura» é imediatamente lida como instrumento de recuperação física. Mas há outras dores e aflições humanas além das físicas, das quais o doente precise de libertar-se, e é dessas que os sacramentos curam sempre, diz o Papa: a libertação do peso interior, da possível angústia existencial, do transe de quem deixa o tempo e o espaço históricos e se prepara para entrar num outro relacionamento onde a vida desabrocha e se dilata. Os sacramentos não substituem a medicina nem a farmácia, têm outro objetivo. É que a doença tem outros rostos.
A nossa época, laicizada e centrada no aqui e agora históricos, não tem resposta para a fragilidade mais profunda, para a velhice, para a fase terminal. Mesmo os que ainda não atingiram explicitamente o patamar da fé sentem o grito profundo do «eu» que rejeita dissolver-se para sempre! A resposta só pode vir do mistério pascal de Jesus Cristo. A constituição “Gaudium et Spes” (Alegrias e Esperanças), documento conciliar sobre a Igreja no Mundo Contemporâneo, ensina no n.º 22 que, de modo misterioso para nós mas verdadeiro, Deus associa todos os homens ao mistério pascal de Jesus Cristo.






