“Para termos mais empregos, temos que ter mais empresas, para termos mais empresas precisamos de tecnologias com mais qualidade, temos que ser mais empreendedores”, defendeu Pedro Passos Coelho que, no dia 6, presidiu a inauguração de mais uma edição da Feira da Alheira de Mirandela.
O primeiro-ministro sublinhou que, agora que a economia está a melhorar, é preciso que os portugueses apostem na inovação e no desenvolvimento de produtos mais competitivos no mercado internacional. “Usando a imagem da oliveira, quando a água foi pouca conseguimos resistir à secura, também deveremos, com certeza, saber aproveitar melhor a época da chuva, em que podemos, portanto, regar melhor os investimento que fazemos, os sonhos com que lidamos”, explicou o primeiro-ministro, advertindo ser necessário apostar “sem medo de trabalhar e de arriscar”, mas “com os pés assentes na terra”.
Para o governante, a coesão territorial não tem apenas a ver com a criação de infraestruturas, “nomeadamente acessibilidades, transportes, equipamentos essenciais ao bem estar social na área da saúde e da educação”, é necessário criar condições de emprego para que as pessoas de fixem nos seus territórios, um caminho que também deve ser traçado através de estratégias comuns entre os municípios para a valorização dos “seus produtos regionais, dos seus recursos endógenos”.
É preciso “ir mais longe”, sublinhou Passos Coelho, recordando que o facto de, atualmente, “as atividades não estarem segmentadas, paradas, isoladas, de forma muito definida” representa a possibilidade de trazer outros negócios, outras possibilidades em cima daquelas que “nos parecem limitadas”. “A uma boa marca de vinho, de azeite, de queijo ou de alheira, podemos juntar outros produtos ligados com a natureza e outros serviços, como por exemplo o turismo”, exemplificou o primeiro-ministro, incitando os empresários a ter “um espírito de abertura a novidades que casem bem com as nossas tradições e com a nossa cultura”.
Vinte toneladas de alheiras produzidas por dia
António Branco, presidente da Câmara Municipal de Mirandela, contabilizou que a produção da alheira representa um volume de negócios na ordem dos 30 milhões de euros para o concelho, onde se produz atualmente entre 15 a 20 toneladas por dia daquele enchido. “Passamos de uma fileira tradicional para uma agroindustrial”, referiu o autarca, lembrando que os produtores souberam ainda inovar, criando, sempre em torno na alheira, novos produtos, como versões mais saudáveis ou pensadas especificadamente para determinado tipo de consumidores.
Uma das primeiras empresas a surgir em Mirandela, há 35 anos, foi a Tópiteu, que hoje é uma das que mais produz e também a que mais exporta.
“Mantemos a tradição, mas também inovamos, com produtos alternativos em função da solicitação do cliente”, explicou Carla Caldeira, lembrando produtos como a alheira silvestre (vegetariana) ou a versão pensada especificamente para insuficientes renais, sendo ainda possível, de acordo com as solicitados, produzir, por exemplo, alheira “só de coelho ou só de porco”.
Apesar da inovação, a mesma responsável garante que na confeção do enchido, que corresponde a cerca de 90 por cento da produção da empresa, seja qual for a variante, são sempre utilizadas “matérias-primas da região”, sendo de sublinhar que a Tópiteu mantém ainda, “por carolice”, uma linha em que a alheira é feita, enchida e amarrada, manualmente.
Hoje a empresa exporta para 11 países, sendo a França, mas exatamente o “mercado da saudade”, o mais bem-sucedido. “É um produto único, daí a dificuldade de o espalhar pelo mundo. A comunidade portuguesa é que tem maior apetência mas estamos convictos que havemos de conseguir captar outro público”, sublinhou Carla Caldeira, lembrando que a exportação na empresa arrancou em 1997 e que o desafio hoje é chegar à Asia.
“Pedimos por favor que nos ouça porque estamos desesperados”
l Na visita aos stands da Feira da Alheira o primeiro-ministro foi interpelado por estudantes da Escola Secundária de Mirandela, que revelaram o seu “desespero” pela falta de condições daquele estabelecimento de ensino.
“Hoje entregamos uma carta ao primeiro-ministro, a carta que já tínhamos enviado, há um ano, ao ministro da Educação, Nuno Crato”, explicou João Pilão, de 17 anos, que frequenta o 12º ano e é presidente da Associação de Estudantes daquela escola.
Segundo o jovem, o edifício padece de vários problemas estruturais, nomeadamente caixilharias degradadas, laboratórios obsoletos e graves situações de infiltrações. “Chove dentro das salas” testemunhou.
Segundo o estudante, Passos Coelho subscreveu a resposta já dada pelo ministro da Educação, dizendo que “não há dinheiro”, no entanto questiona como é possível haver alunos em Portugal “a estudar num barraco e outros a estudar num palácio”. “Não suportamos essa desigualdade”, lamentou João Pilão.
Consciente de que o projeto inicial, feito há sete anos, implicaria um orçamento de cerca de 14 milhões de euros, o aluno sublinha que seria possível garantir uma intervenção básica por um valor drasticamente menor mas que já melhoria muito as condições do edifício, que acolhe cerca de 1200 estudantes, sendo assim o maior agrupamento do distrito de Bragança.
“Pedimos por favor que nos ouça e faça alguma coisa porque estamos desesperados e sentimo-nos muito discriminados”, apelou o dirigente associativo, revelando que até já foi apresentada uma queixa a Autoridade de Segurança Alimentar e Económica que, por sua vez, encaminhou o processo para a Inspeção Geral da Educação.





