Vila RealPastorícia à deriva, em Trás-os-Montes

Pastorícia à deriva, em Trás-os-Montes

“Qualquer dia, em Trás-os-Montes, desaparecem os rebanhos de ovinos” é o alerta lançado pelo Presidente da Associação dos Pastores de Trás-os-Montes, David Costa, traduzindo a crise que grassa, no sector, principalmente na comercialização de ovinos. Os criadores são cada vez menos, os pastores vão rareando.   Com os circuitos de comercialização a passarem ao lado, […]

“Qualquer dia, em Trás-os-Montes, desaparecem os rebanhos de ovinos” é o alerta lançado pelo Presidente da Associação dos Pastores de Trás-os-Montes, David Costa, traduzindo a crise que grassa, no sector, principalmente na comercialização de ovinos. Os criadores são cada vez menos, os pastores vão rareando.

 

Com os circuitos de comercialização a passarem ao lado, criar ovelhas já não dá dinheiro. Mais apoio sanitário e a existência de uma instituição ou organismo que regulasse o preço/quilo do borrego produzido em Trás-os-Montes são as principais preocupações. Em algumas zonas fronteiriças, vão valendo os veterinários espanhóis que têm apoiado muitos criadores/pastores. Por outro lado, os pastos selvagens vão rareando e “as vacarias estão a tomar conta dos melhores terrenos”.

David Costa tem 52 anos e é responsável pela Associação, há cerca de três anos. Residente em Mairos (Chaves), é Presidente da Associação dos Pastores de Trás-os-Montes. Mas, “a associação ainda não tem o carácter abrangente que se pretende. Ainda não há um número exacto de quantos pastores existem, na região, estão muito dispersos. Mas, na zona do Alto Tâmega e Trás-os-Montes, ultrapassam uma centena”.

A nomenclatura de pastor, ao nível profissional, pode ter, também, os dias contados: “Querem tirar o nome à profissão. Agora, em vez de pastores, preferem produtores de pequenos ruminantes de borregos e cabritos. Os subsídios enviados já vêm com esta denominação”.

Este responsável enunciou e fez o ponto da situação da actividade: “É uma vida escrava e não vejo que traga grande futuro, para os jovens. Dentro das grandes dificuldades, a que mais nos preocupa é a comercialização do borrego (cordeiro ou ovelha). Não tem escoamento, à excepção do Natal e do mês de Agosto. Não compensa andar atrás de cinquenta, cem ovelhas, para manter uma família. Os gastos são muitos. Temos que trazer terras arrendadas e pagar pastos. Nós não temos área suficiente, para pastoreio, falta espaço”.

A criação de um organismo aglutinador, no sector da pastorícia, é sentida, por este responsável.

“Aqui, é o valor da carne que conta. Mas não há uma instituição reguladora que estipule um preço base, por campanha anual. Se tivéssemos a certeza do montante, haveria mais rebanhos. Agora, temos que vender o preço pedido pelo comprador. É muito complicado. As pessoas têm os borregos e não têm a quem os vender, andam à sorte e desanimam. Primeiro, ainda os levávamos aos mercados e feiras tradicionais da região e vinham de Viana, Marco e de outras zonas do Norte. Agora, já não é possível. O nosso borrego é morto em Penafiel, a quase duzentos quilómetros”.

Sabendo-se, cada vez mais, da importância que tem o aspecto sanitário, na erradicação de doenças, o certo é que, na opinião deste criador/pastor, ainda há muito a fazer.

“Os pastores estão, praticamente, desamparados, sem ninguém, em termos sanitários. Temos as respectivas entidades que fazem a colheita do sangue e não há ninguém mais que trate de outras doenças dos animais”.

Na falta de apoio nacional, o que vale “são os veterinários espanhóis. Eles, lá, fazem as colheitas das fezes e sangue e analisam. Se não fosse isto, praticamente não tínhamos um veterinário, para fazer uma consulta ao animal. Os espanhóis colaboram muito e manifestam interesse em solucionar problemas na zona norte do Distrito de Vila Real. A maioria vem de Verin e Agudiña. É uma ajuda preciosa”. Um lamento, reforçado por David Costa: “no que respeita ao apoio veterinário a ovinos, por parte das autoridades sanitárias nacionais, estamos aquém daquilo que precisamos”.

David Costa pôs o dedo na ferida, numa realidade sentida nos grandes centros comerciais e que põe a nu as fragilidades de comercialização do borrego transmontano.

“Encontramos, nas grandes superfícies, o borrego congelado, importado sabe-se lá de onde, e o nacional, do Alentejo. Mas, pergunto eu, porque não se encontra o borrego transmontano, quando há um excesso de oferta? E sabendo-se do regime de criação semi-selvagem, em pastos naturais e cuja carne tem outro sabor? Há que os dar aos espanhóis que nos compram. Neste momento, temos borregos, em Trás-os-Montes, que podiam corresponder ao mercado nacional. Temos muita quantidade e não há procura. Só na zona do Alto Tâmega, existem mais cinco mil cabeças de ovinos. Assim, sem procura, há pastores que estão desejosos de acabarem com os rebanhos. Mas não há ninguém que compre um rebanho”. Segundo ele próprio, “a Associação deve ter um papel mais interventivo, para dar a conhecer, aos pastores, que é importante o associativismo. Os transmontanos gostam de viver muito individualmente e isso reflecte-se nisto”.

Deixando escapar algum desalento, refere que “andamos meia dúzia e não está a ser dado o devido valor ao papel da nossa associação. Isto já foi posto à Direcção Regional de Agricultura de Trás-os-Montes. Na altura, o professor Jorge Azevedo fez um estudo, mas era um projecto que deveria ser levado a bom porto. Volto a salientar que são precisos técnicos e gente qualificada”.

O Presidente desta Associação que faz parte da FRAGORURAL, a concluir, frisou uma outra preocupação: as pastagens.

“Os espaços dos pequenos ruminantes estão a diminuir de área. As vacarias possuem os melhores terrenos, o sector tem outro poder económico e arrendam os melhores. Os pastores têm um cerco mais apertado”.

David Costa é pastor, desde “pequenino”. Pelo meio, esteve seis anos, emigrado, em Espanha. Depois, regressou à actividade. Possui um rebanho de cerca de cem ovelhas e pastoreia nas encostas de Mairos, a cerca de 14 km de Chaves. Gosta do que faz e a sua paixão é, mesmo, a pastorícia.

“Isto é mesmo para quem é pastor, mas é duro. Hoje, a juventude já não quer isto. É uma vida de agruras” .

 

José Manuel Cardoso

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