Segunda-feira, 4 de Julho de 2022

Prejuízos dos lobos ascendem a 167 mil euros

O Parque Natural do Alvão, PNA, vai pagar, este ano, cento e sessenta e sete mil euros a pastores e agricultores, lesados por ataques de lobo. É o abrir dos cordões da bolsa, por parte do Estado, para a preservação do lobo ibérico, quando esta espécie está considerada em perigo de extinção. Vila Pouca de […]

O Parque Natural do Alvão, PNA, vai pagar, este ano, cento e sessenta e sete mil euros a pastores e agricultores, lesados por ataques de lobo. É o abrir dos cordões da bolsa, por parte do Estado, para a preservação do lobo ibérico, quando esta espécie está considerada em perigo de extinção. Vila Pouca de Aguiar é o concelho da área de abrangência do PNA onde este animal fez mais investidas e que mais prejuízos deu. Só no ano passado, foram pagos 320 mil euros, sendo Telões a freguesia que mais recebe, com este tipo de ajuda. Todavia, estes pagamentos são considerados fundamentais, para a preservação da espécie que, na zona Alvão/Padrela, tem referenciadas treze alcateias.

O Director do Parque Natural do Alvão, Henrique Pereira, abordou, ao Nosso Jornal, a temática da compensação dos prejuízos causados pelo lobo no PNA, bem como todo um magnífico trabalho de monitorização que está a ser levado a cabo, desde há vinte anos, bem como o recente trabalho, compilado em livro (PNA/ICN), sobre o lobo, nos últimos nove anos, na região.

“Ao longo de oito anos que terminaram em 2005, fizemos quatro mil vistorias de prejuízos. Notámos que, nos primeiros anos, eram menores, mas isso teve a ver não com o número de ataques, mas com algum desconhecimento, por parte das pessoas. Foi necessário fazer algum trabalho de informação, no terreno. Hoje, toda a gente sabe onde recorrer, caso tenha algum prejuízo com o lobo. Assim, já temos dados referentes aos seus ataques e já conhecemos as zonas onde o lobo ataca mais frequentemente”.

 

GPS como meio de monitorização

 

O recurso ao GPS é um meio importante de monitorização.

“Anualmente, conseguimos ter, em coordenadas no mapa, as grandes zonas de concentração de ataques, ao mesmo tempo que os rebanhos também são caracterizados” – disse Henrique Pereira.

Outros dados apurados têm a ver com a quantificação dos prejuízos, nas áreas classificadas ou não, e a distribuição dos números de ataques, por concelhos, nos últimos oito anos. E é neste estudo que Vila Pouca de Aguiar, com cerca de mil e cem ataques, é o concelho mais flagelado pelo lobo, neste período. Ribeira de Pena, Mondim de Basto e Vila Real figuram logo a seguir. No que diz respeito às freguesias, estas ficam situadas em zonas de planalto. Telões (Vila Pouca de Aguiar) é, em termos de prejuízos, a mais afectada. Depois, seguem-se Alvadia (Ribeira de Pena), Nespereira (Montemuro), Ermelo (Mondim de Basto), Gouvães da Serra (Vila Pouca de Aguiar), S. Miguel da Pena (Vila Real) e Cerdedo (Boticas). Todos estes elementos se referem ao período de tempo compreendido entre 1997 e 2004, no qual se verificaram, no total, cerca de quatro mil ataques.

 

Indemnizações estão a ser pagas regularmente

 

“No que concerne à variação dos ataques, ao longo deste tempo, os números permitem-nos tirar ilações, em função do comportamento do animal. Assim, os meses de Outubro e Novembro são os que registam mais casos. Prende-se com o facto de ser o período em que “as lobas estão cheias”. Depois, temos o que vai de Outubro a Janeiro, altura em que se verifica o maior número de parições de ruminantes. E o mês de Julho, em que os lobachos (as crias de lobo) que nascem por volta de Maio e Junho começam a acompanhar os pais, nos períodos de caça. E é um pico dos prejuízos”.

Em relação aos pagamentos, Henrique Pereira referiu que “o ICN teve um período em que os pagamentos chegaram a estar atrasados cinco anos. Porém, a partir de 1997, foi possível começar a normalizar esta situação. O Parque Natural, na sua área de influência, está a pagar, agora, regularmente. Já temos o ano de 2005 que foi pago em 2006. Só em Vila Pouca de Aguiar, foram pagos 320 mil euros. Ao todo, pagou-se quase um milhão de euros de prejuízos. Neste momento, as directrizes que temos são para pagar, em 2007, todos os valores de 2006. 167.000 euros é o valor dos ataques deste ano. No ano de 2006, foram pagos os montantes de 2005, 182.000 euros, houve uma redução” – sublinhou.

 

A malha contra a fraude está apertada

 

Henrique Pereira garantiu que a malha contra a fraude, nesta área, está cada vez mais apertada.

“O rigor está instituído na vistoria dos prejuízos do lobo e a recusa de alguns pedidos também acontece. Temos recorrido a algumas análises de necrócitos que o Departamento de Veterinária que a UTAD faz, no sentido de apurar as causas da morte dos animais, em situações em que surgem dúvidas. Em zonas onde não acontecem ataques, recorremos, por vezes, a estas provas.

As zonas de Vila Pouca de Aguiar, Mondim de Basto, Ribeira de Pena, Vila Real são aquelas em que temos maior concentração de alcateias. Em termos de lobo ibérico, o seu grande solar é a Norte do rio Douro, existindo um grande núcleo em Montesinho e Miranda do Douro, além do núcleo de Alvão/Padrela, a nossa zona. No que se refere a alcateias, temos treze, em Boticas, Mairos, Nogueira da Montanha, Padrela, Alvão, Sombra, Falperra, Tinhela, Santa Comba, Vaqueiros (Vila Cova), Alijó, Abobereira e Ermelo, Estes números referem-se a 2002/03. Em termos nacionais, não devem ultrapassar as sessenta alcateias, o que representa cerca de 15% da população ibérica.

 

Existe uma notória mudança de atitude

 

Por fim, Henrique Pereira fez o ponto da situação da sobrevivência da espécie.

“Em termos gerais, ao fim de vinte anos, a espécie encontra-se estável, embora considerada em perigo pela própria União Europeia e pela legislação nacional. Porém, temos vindo a assistir a alguma mudança de atitude, por parte dos principais lesados que são os agricultores e os pastores.Sinto que há mais tolerância, para a necessidade da preservação da espécie. Agora, sente-se a necessidade de apostar, continuamente, na sensibilização das pessoas, através da educação ambiental, para preservar espécies que fazem parte do nosso património” – disse.

Refira-se a existência do GRUPO LOBO, associação não governamental, independente e sem fins lucrativos. Foi fundado, em 1985, para trabalhar a favor da conservação do lobo e do seu ecossistema, em Portugal. Actualmente, conta com 1250 associados, nacionais e estrangeiros.

 

José Manuel Cardoso

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