Segunda-feira, 25 de Outubro de 2021

Que sentido tem hoje falar disso?

1- No final de Janeiro, havia há cinquenta anos o «Dia da Boa Imprensa, celebrado numa data próxima da festa de S. Francisco de Sales, dia 24 de Janeiro. Era também por essa altura que se realizavam os «encontros dos jornalistas e homens de letras». A associação do nome de S. Francisco de Sales à jornada da boa imprensa deve-se ao gesto de o santo bispo de Genebra no séc. XVII haver recorrido ao uso de folhetos volantes espalhados a esmo na sua diocese para educar a fé dos fiéis perturbados pelo protestantismo calvinista, parecendo ao zeloso pastor ser aquele meio um bom instrumento de evangelização, utilizado, aliás, pelo próprio Lutero na Alemanha.

-PUB-

Em várias dioceses (Lisboa, Coimbra, Braga, Vila Real) ainda hoje existem uns pequenos boletins que levam ao povo os acontecimentos religiosos mais relevantes da semana e os apelos dos pastores da Igreja. (Entre nós é o «Ave Maria», criado pelo saudoso P. Manuel Mendes e dirigido agora pelo Dr. António de Castro Fontes). São boletins bastante bem feitos e, sem grandes arrazoados, lembram com toda a clareza as verdades da fé e as normas disciplinares da Igreja. Ao lado desses pequenos jornais, circula uma multiplicidade de revistas religiosas e almanaques com as datas, os factos históricos e os nomes de pessoas do mundo católico.

Surgiram, entretanto, jornais periódicos de maior fôlego que os referidos boletins, uns diários, outros semanários e quinzenários, os quais, de modo oficial ou oficioso, existem em todas as dioceses. Uns dizem-se abertamente «católicos», outros «católicos e regionalistas», outros reservam para o estatuto editorial a definição do seu perfil, como é o caso de «A Voz de Trás-os-Montes».

2- Depois do Concílio Vaticano II institucionalizou-se, no dia da Ascensão, a jornada das «Comunicações Sociais» englobando a imprensa, a rádio, a televisão, a Internet, e toda a panóplia da informática.

Apesar desta celebração conjunta dos meios de comunicação, a imprensa continua a ter o seu lugar próprio. Sinal desse interesse é o hábito de o Papa escolher o dia 24 de Janeiro para anunciar o tema para o «dia das comunicações sociais» desse ano, mantendo assim, de algum modo, a memória do dia da boa imprensa.

De facto, os poderosos meios de comunicação radiofónica e televisiva fazem cair sobre nós, a toda a hora, um dilúvio de notícias que afogam a sensibilidade das pessoas e impedem o exercício do sentido crítico. A rapidez e fugacidade desse noticiário despertam o desejo de saber melhor, de ler «o que se ouviu dizer», para clarificação e contextualização das notícias. Acontece ainda que a inevitável selecção das mesmas é já uma hierarquização dos assuntos nelas versados.

É aqui, nesta dupla função, que se situa a missão da imprensa de inspiração cristã nos tempos que correm.

3- Os estudiosos do jornalismo regionalista falam da «proximidade» como o centro de interesse do leitor que vive longe da sua terra de origem e, por isso, os referidos jornais assumem o regionalismo como tema dominante do seu conteúdo e arma de subsistência económica, dando aos seus leitores informações relativas às pessoas, aos acontecimentos e às melhorias da localidade. As próprias notícias de baptismos, casamentos, óbitos e das romarias, podem, às vezes, ter interesse pela sua raridade e como factos da vizinhança dos ausentes. A missão dos jornais de inspiração cristã deve, porém, ir mais longe: ajudar a ler cristamente os acontecimentos e os textos legislativos.

Ao falar da leitura cristã dos acontecimentos quero referir-me, em primeiro lugar, à necessidade de ajudar a conhecer com objectividade os factos sociais e culturais, frequentemente envoltos em lutas políticas e interesses comerciais. Por sua vez, os textos legislativos são hoje labirínticos, sendo preciso explicá-los ao leitor, enquadrando-os no contexto social, jurídico e cultural, de modo que o leitor possa entender o alcance dos mesmos. Por essa razão, os comentadores dos jornais, das rádios e das televisões têm um lugar cada vez mais destacado nas respectivas redacções.

Acresce para nós um novo factor: vivemos hoje imersos numa cultura laica, e tantos os factos como os textos legislativos surgem fechados à transcendência religiosa ou mesmo envoltos numa hostilidade camuflada de progresso. É desse teor a legislação de tudo o que se relaciona com a família, o ensino e a sexualidade humana: casamento, aborto, fecundação artificial, uniões homossexuais, adopção de crianças, testamento vital, eutanásia. Tudo isso é taxado de moderno e progressivo unicamente porque é recente. Há, pois, necessidade de desmontar essas notícias e enquadrá-las no plano mais vasto da mundividência cristã.

Quando se trata de fenómeno abertamente religiosos, o interesse por eles vem a crescer, havendo nos grandes jornais pessoas incumbidas da leitura do sector religioso. Infelizmente, alguns profissionais andam inquinados da mera busca de excentricidades ou de conflitos religiosos como factores da venda do jornal e da captação de audiências, o que leva tais jornalistas a recorrerem a dois ou três adjectivos da moda (moderno/antigo, conservador/progressista, carismático e actualizado versus tradicional), fugindo à objectividade e frustrando o leitor que, crente ou descrente, quer saber a verdade dos factos e qual a intenção da respectiva autoridade ao tomar aquela decisão.

Numa cultura de sensações e tagarelice, impõe-se defender a racionalidade humana; numa época de luta de grupos económicos, urge sublinhar o bem comum; num tempo de militância de ideologias laicas e laicizantes, é fundamental abrir a perspectiva cristã dos acontecimentos, e tudo isto em nome da imprensa de inspiração cristã e do respeito devido ao leitor que a procura.

-PUB-

APOIE O NOSSO TRABALHO. APOIE O JORNALISMO DE PROXIMIDADE.

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo regional e de proximidade. O acesso à maioria das notícias da VTM (ainda) é livre, mas não é gratuito, o jornalismo custa dinheiro e exige investimento. Esta contribuição é uma forma de apoiar de forma direta A Voz de Trás-os-Montes e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente e de proximidade, mas não só. É continuar a informar apesar de todas as contingências do confinamento, sem termos parado um único dia.

Contribua com um donativo!

Mais lidas

ÚLTIMAS

Subscreva a newsletter

Para estar atualizado(a) com as notícias mais relevantes da região.