A população exalta de contentamento pela “realização de um sonho, com mais de 40 anos”. No entanto, os ambientalistas já não vêm com bons olhos a construção da ligação entre Lamas de Olo, em pleno Parque Natural do Alvão, à aldeia de Barreiro. A Quercus identificou, ao Nosso Jornal, vários problemas na protecção do Parque, entre os quais o desvio da água do Rio Olo, para o aproveitamento hidroeléctrico de Gouvães.
“Com o alcatroamento da via, uma zona do Parque Natural do Alvão (PNAl) que até agora era sossegada vai passar a ter milhares de pessoas”, explicou João Branco, da Quercus de Vila Real, avançando que a associação ambiental está a estudar a possibilidade de recorrer à via judicial, para tentar impedir que se construa o troço entre Lamas de Olo e a aldeia de Barreiro, no concelho de Mondim de Basto.
Orçada em 300 mil euros, a ligação a construir que conta com 800 metros de extensão, vai permitir que as populações “poupem” 14 quilómetros de percurso e cerca de 20 a 30 minutos de tempo de viagem.
O que não vai ser poupado, segundo os ambientalistas, será o Parque Natural que verá “uma zona para já é sossegada começar a receber demasiado tráfego e milhares de pessoas. Para além disso, a obra vai passar mesmo ao lado do Rio Olo e estragar uma zona de lazer para as populações”.
Sem poupar críticas ao desempenho do Estado no seu papel de protecção do PNAl, João Branco enumerou diversas outras problemáticas, projectos e aberrações que se verificam na área classificada, entre as quais sublinhou o projecto de construção da barragem de Gouvães que está incluída no Plano Nacional de Barragens com Elevado Potencial Energético. Segundo o mesmo responsável, o projecto (ao qual o Nosso Jornal não conseguiu aceder) implica o desvio da água do Rio Olo, através da construção de um túnel de 7,8 quilómetros” e prevê a passagem de apenas três por cento do actual volume de água.
João Branco explicou que a barragem já foi inclusivamente adjudicada, estando agora a decorrer os Estudos de Impacto Ambiental.
Mas os atentados ambientais continuam, com os ambientalistas a sublinhar a falta de fiscalização no PNAl, o que leva a que as pessoas não cumpram regras como a restrição ao trânsito de alguns locais. O lixo é outros dos problemas do Parque, revelou o mesmo responsável, lamentando que, por exemplo, as Fisgas de Ermelo, um espaço que representa o cartão de visita do PNAl, sejam, na realidade, “uma lixeira”, ou que a fonte de Lamas de Olo esteja sempre cheia de detritos.
O mau estado de conservação da sinalética, os Parques Eólicos que estragam a paisagem e a permissão da caça na zona do Parque são mais alguns dos atentados que estão a prejudicar a zona natural.
“O objectivo da criação do PNAl não teve sucesso, porque o Estado falhou na protecção da área que definiu. O que hoje temos é uma fraude, uma zona protegida que de Parque Natural já não tem nada e o problema agora é que não há coragem para a desclassificar”, considerou João Branco.
Apesar de considerar a nova estrada como mais um atentado ambiental, a Quercus reconhece que a sua construção “é legal”. Por isso, será difícil conseguir travar a obra. Ainda assim, a associação ambiental já pediu informações, junto do Instituto Nacional de Conservação da Natureza e Biodiversidade e das Câmaras Municipais de Vila Real e Mondim de Basto e, “se for necessário”, irá recorrer à Justiça.
Maria Meireles




