Terça-feira, 19 de Outubro de 2021

Regresso do paganismo

Há uns tempos atrás, o Rabi Adin Steinsaltz, numa conferência em Oxford, afirmou: «vivemos hoje num mundo ocidental que está esvaziado do cristianismo e do judeo-cristianismo. E este vazio está agora a ser preenchido por outra coisa, e essa outra coisa é o paganismo».

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O Rabi Adin Steinsaltz não tem dúvidas: os deuses pagãos da época pré-cristã dominam a sociedade, mascarados com novos nomes, novas imagens, novos templos, com adoradores em todo o lado.

O primeiro desses deuses é Baal, o deus do poder e do dinheiro. Mandar e dominar e ser rico continua a ser o ideal da maioria das pessoas e das empresas, em sacrifício de muitas «vítimas», que parece que não nasceram para ter dignidade e realização humanas. Os seus templos são as instituições financeiras e os seus sacerdotes são os executivos e os gestores.

O segundo deus pagão que prevalece na cultura atual é o deus ou a deusa da fertilidade e do sexo, ou se quisermos, do prazer, Astarte. Venha donde vier, mesmo em prejuízo de princípios e valores, o prazer tornou-se o critério decisivo da atividade e da conduta humana, tornou-se um íman escravizante, moldando comportamentos e atitudes, pouco importando as muitas vítimas que arrasta atrás de si, obrigadas a descer a níveis de desumanização inconcebíveis. Quanto aos seus templos, nem os nomeio.

O terceiro deus pagão que impera na sociedade europeia contemporânea é uma musa promovida a deusa: Calliope, a deusa da fama. Ser conhecido, admirado, falado, considerado, andar nas bocas do mundo, por puro orgulho e vaidade, com exibicionismo quanto baste, é o sonho e a aspiração da vida de muitas pessoas, a conceção de que quanta mais visibilidade se tem, mais valor se tem. Na senda de Descartes, sou conhecido, logo existo, pouco importando a verdade e a consistência do que verdadeiramente se é e se faz. Os frutos desta obsessão estão aí todos os dias: a falsidade, o vazio, o fracasso, a imposturice e a frivolidade. Com esta deusa, nasceram as denominadas celebridades, nas palavras do Rabi, «um ninguém muito conhecido», mas que ninguém conhece muito bem o que faz e porque merece ser célebre. Não faltam por aí as suas vítimas, com vidas de fachada, sem substância e sem alma. O seu templo é a televisão.

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