Sábado, 2 de Julho de 2022

Resíduos das vinhas reciclados para adubos orgânicos

Aproveitar as vides resultantes das podas e transformá-las num fertilizante natural, para incorporar nos solos, é o objectivo de um projecto que a Escola Profissional Agrícola do Rodo quer avançar, em 2007. Para já, é uma ideia embrionária, com a qual a Câmara Municipal de Peso da Régua está disposta a colaborar.   Esta intenção […]

Aproveitar as vides resultantes das podas e transformá-las num fertilizante natural, para incorporar nos solos, é o objectivo de um projecto que a Escola Profissional Agrícola do Rodo quer avançar, em 2007. Para já, é uma ideia embrionária, com a qual a Câmara Municipal de Peso da Régua está disposta a colaborar.

 

Esta intenção foi manifestada numa reunião em que foi abordada a questão dos fogos florestais. Para o efeito, a EPAR pretende adquirir equipamento próprio para a necessária reciclagem que passará pela instalação de um biodigestor, pretendendo envolver outras instituições ou empresas.

 

Vides são matéria orgânica dispersa que se desperdiça

 

O Presidente do Conselho Executivo da escola, Luís Maduro, abordou este projecto, ao Nosso Jornal. Um projecto que possui, também, uma componente ambiental relevante e, mesmo, pedagógica.

“Como, no Douro, existem restos das videiras e outro material lenhoso, derivado das podas e de outros trabalhos agrícolas, ou seja, muita matéria orgânica, dispersa e que se desperdiça, pensamos aproveitar este grande potencial. Esta nossa intenção da reciclagem e de bons modos ambientais é uma prática que já existe, da nossa Escola, com o aproveitamento dos mesmos materiais, para o incorporar nos solos, como as palhas dos animais e os estrumes, para as hortas”. Luís Maduro considera que o processo de reciclagem das vides poderia partir de uma trituração dessas mesmas vides.

“Estávamos na presença de um adubo orgânico natural, ou seja, uma matéria importante, para a fertilização dos solos”.

Este responsável salientou a importância ambiental desta iniciativa.

“Ao mesmo tempo, evitávamos as queimadas que muitos lavradores fazem, na região, para eliminarem esses resíduos e que, por vezes, podem dar origem a fogos florestais e, mesmo, a exalação de fumos, compostos por dióxido de carbono, para a atmosfera. Uma prática comum, mas que, deste modo, poderá ser evitada, já que não vejo qualquer razão para existir. Evidente, este é um projecto arrojado, mas possível, na Região Demarcada do Douro. No país, há um exemplo que se passa na Escola Profissional de Serpa. Esta escola recorreu a fundos comunitários e conseguiu adquirir um biodigestor. Tudo o que for matéria orgãnica é aproveitado. Ou seja, o material lenhoso entra num circuito de trituração e compactação e sai um produto, sem cheiro, e matéria orgânica, para os solos”.

 

Escola quer arranjar parcerias com instituições e empresas

 

A ideia original de Luís Maduro, segundo o mesmo, provocou surpresa: “Há gente que estranha esta nossa intenção e até sorri. Será uma ideia original, para o Douro. O que está em causa é o desperdício de muita matéria orgânica, como é o caso das vides. Queremos que a prática da queima, a seguir à poda, pare. As pessoas cortam e queimam, a seguir. E tudo se perde. Isto pode representar um grande esforço, para a escola, mas não desistimos e vamos tentar fazê-lo, a nível da região. Uma escola tem a obrigação de, como a nossa, ser pioneira. E nós, obviamente, tentaremos uma forma de concretizar este nosso desejo”.

Para a concretização desta iniciativa, é necessária uma parceria. E o apoio de fundos comunitários está no horizonte.

“Vamos tentar arranjar parcerias, junto das empresas, ou outras instituições, e recursos a apoios financeiros comunitários. Não estamos a falar de um grande equipamento, mas de uma coisa adequada à nossa laboração. Numa reunião que teve lugar na Câmara Municipal da Régu, tive a possibilidade de sentir que já há pessoas interessadas em participar e colaborar nesta iniciativa, ou seja, na entrega desses produtos e na posterior reciclagem” – disse Luís Maduro, que acrescentou: “Os agricultores já sabem que as vides, depois de trituradas, são matéria orgânica muito boa, para os solos, facilitando a mobilização dos próprios solos. Ainda não tivemos a oportunidade de estudar, inteiramente, este assunto, mas é certo que vamos arrancar, em 2007. Para nós, neste momento, a questão mais importante é a financeira. Logo que obtivermos um financiamento ou descobrirmos alguma forma de engenharia financeira, para o obtermos, será uma realidade. Mas as entidades terão de ter uma quota-parte, neste processo, independentemente da componente de fundos perdidos que alguns subsídios têm. E sabe-se que nós não estamos vocacionados para estas áreas de candidaturas. No entanto, acho que será interessante haver, na região duriense, uma primeira entidade a fazer este processo de reciclagem. E será muito importante que uma escola o faça, porque educa os alunos e os cidadãos, para o futuro. Julgo que será um sucesso, também, em termos de educação ambiental. No princípio de 2007, vou partir para uma série de contactos, para ver se consigo encontrar um parceiro, mesmo a nível de mecenato, alguém que me disponibilize meios, para uma pequena estrutura. Esta região tem muitas vinhas, para podermos começar a trabalhar com matéria orgânica natural ou fertilizante natural. As nossas vinhas têm muita falta deste produto. Na escola, já fazemos um processo de reciclagem” – salientou.

 

Bombeiros e autarquia estão interessados no projecto

 

Luís Maduro confirmou o interesse da Câmara Municipal da Régua, neste projecto.

“Nessa reunião, a autarquia mostrou interesse nesta nossa iniciativa, como é evidente. Nós temos uma excelente relação com a Câmara Municipal que tem sido muito colaborante, connosco”.

Quem vê com bons olhos esta iniciativa é o Comandante Interino dos Bombeiros Voluntários de Peso da Régua, Guilhermino Pereira: “Será interessante, se o projecto avançar, pois as queimadas que, muitas vezes, dão origem a fogos rurais, têm origem, realmente, neste tipo de actos. E sabe-se que, sazonalmente e na região do Douro, este tipo de prática acontece, por parte dos agricultores, não só com as vides, mas com outros materiais. Ou seja, o fogo é meio que utilizam, para a destruição desses mesmos detritos”.

Mas o que é um biodigestor? É um aparelho que se utiliza, para, a partir de substratos biodegradáveis, produzir gás combustível e fertilizantes. Neste caso da Escola Agrícola do Rodo, seria para esta finalidade última. O biodigestor é o equipamento que recicla vários materiais, alterando a sua estrutura bioquímica para um estado não poluente, de forma absolutamente natural, sem o emprego de aditivos químicos nocivos. Dois elementos de maior importância são produzidos pelo processamento dessa biomassa: o biogás e o biofertilizante, com a finalidade adequada à ideia da EPAR: este biofertilizante é um concentrado de vitaminas e proteínas que, além de ser altamente nutriente, para as plantas, é um excepcional agente condicionador de solos das vinhas, deixando-os mais porosos e propiciando aeração adequada às raízes. O biofertilizante pode ser utilizado, quando desidratado, como complemento de rações animais e adubo e, até, para tanques de piscicultura.

 

José Manuel Cardoso

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