Quarta-feira, 17 de Agosto de 2022

Sanfins do Douro: A história e a tradição

A Romaria de Nossa Senhora da Piedade, em Sanfins do Douro, no concelho de Alijó, tem mais de 200 anos. Pouco se sabe sobre a sua origem, apenas aquilo que foi passando de geração em geração, através da tradição oral.  

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O que está provado é que, inicialmente, a capela, no alto do monte, era de Santa Bárbara, não da Senhora da Piedade.

Segundo o sanfinense Alceu Costa, houve “dois factos” que contribuíram muito para “transformar isto num santuário”, um tem a ver com as invasões francesas, “em que um general terá cometido um crime e se recusou a regressar a França. Ficou aqui perdido, tendo oferecido uma imagem da Senhora da Piedade à população local (por volta de 1815)”, que depois foi colocada na ermida dedicada a Santa Bárbara. “A imagem da Nossa Senhora da Piedade vem da Pietá, de Miguel Ângelo, em que há uma imagem na Catedral de Notre Dame, em pedra. É interessante e pode levar a supor que a imagem é muito igual a esta aqui, no Santuário”.

Alceu Costa recorda que a imagem de Nª Srª da Piedade “revolucionou, por completo, este local, uma vez que deixou de ser capela de Santa Bárbara para passar a ser Santuário de Nª Srª da Piedade”.

 

“SERVINHO”

Um segundo episódio, não menos importante e que deu um crescimento “fantástico” ao local de culto, “foi a devoção do servo Sebastião Maria”, que tem uma história atribulada. “Nasceu na Chã (Alijó), era filho de pai incógnito, a mãe tentou matá-lo, ao atirá-lo para um poço, mas ouviram uns gemidos da criança e salvaram-no”.
O “Santo Moleiro” é conhecido fora de Sanfins e, para as gentes locais, é servo Sebastião Maria, ou Servinho, a designação carinhosa do homem que, tendo nascido a 17 de janeiro de 1833, na aldeia da Chã, viveu em Justes, Carvalho, Sanfins do Douro e Braga, local onde o seu pai (um sanfinense) tinha uma quinta. “Começou a ser muito conhecido pela sua devoção à Nª Srª da Piedade”, conta.

Acabou por falecer na cidade dos arcebispos, no Hospital de S. Marcos, no dia 3 de abril de 1879. Segundo consta, Sebastião Maria “respirava santidade” nas vestes, no andar e nas suas rezas. Fazia rigorosas penitências e jejuava. Dois dias após a sua morte, em 1879, começou a haver notícia de curas milagrosas. Foi moleiro de profissão nos anos que viveu em Sanfins, daí o facto de ser conhecido por “Santo Moleiro”.

“Se em Sanfins se falava dele, em Braga falava-se muito mais. Quando morreu, todos diziam: “morreu o Santo”. Ele esteve enterrado sete anos e quando tentaram enterrar no mesmo local outra pessoa, encontraram o corpo intacto. Começou aí a fama de Santo. Os familiares de Sanfins do Douro tentaram ir buscá-lo e, de uma forma atribulada, lá o conseguiram trazer, com o corpo a ser sepultado neste Santuário, debaixo do altar de Nª Srª da Piedade”, explica Alceu Costa.

“Há vários factos miraculosos que estão documentados num livro dourado do Santuário sobre o Servinho”
ALCEU COSTA
SANFINENSE

Em tempos, ainda se tentou iniciar o processo de canonização do Servinho, no entanto, houve “muitos entraves e a própria Diocese de Vila Real foi contra. O processo está praticamente parado, porque sem o apoio da Igreja isso não é possível”.
Entretanto, “isso foi ultrapassado. Enquanto os primeiros bispos não vieram cá, outros, mais tarde, acabaram por aceitar isso bem. Certo é que há vários factos miraculosos que estão documentados num livro dourado do Santuário”, sustenta Alceu Costa, que esteve durante vários anos à frente da Associação Romaria de Nª Srª da Piedade.

 

TRADIÇÃO

A romaria realiza-se anualmente no segundo domingo de agosto e dura cinco dias. As ruas da vila são iluminadas, há várias atividades programadas, onde se destaca a parte religiosa. O ponto mais alto é a Procissão da Tarde com os andores ornamentados com flores naturais. A procissão é aberta pela Fanfarra dos Bombeiros Voluntários de Sanfins do Douro, segue-se a Cruz paroquial e as bandeiras das confrarias. Normalmente, depois do andor de São José segue uma banda, o andor da Padroeira e o Pálio.

O andor pesa quase mil quilos, é de madeira em talha dourada, banhado a folha de ouro, e conta com uma enorme cruz, sendo transportado por 10 homens que vão alternando. Depois da missa da manhã o andor é leiloado. Existem dois grupos, o Grupo Velho e o Grupo Novo. Aquele que fizer a maior licitação leva o andor em ombros até à povoação, o valor reverte a favor da associação. Esta romaria conta com cinco procissões. A procissão monumental de velas percorre a vila até ao cume do monte do Vilarelho, onde está situado o santuário. No domingo há a missa campal, arrematação do andor e a procissão até à entrada da vila, ao mesmo tempo que sai da igreja paroquial outra procissão que vai ao encontro desta. Chamam-se procissões do Encontro e caraterizam-se pela grande emoção que proporcionam. Há ainda a procissão para a igreja, a procissão da Tarde, de Gala, e termina com a procissão de Regresso, que sobe o monte até ao cimo do Santuário.

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