O leitor mais ambicioso pode encontrar esse resumo no livrinho de G. Martelet- Linhas mestras do Vaticano II, obra que o cardeal H. De Lubac classificou de «profunda e original», editada em vernáculo há vários anos pelo Apostolado da Oração, Braga.
2 É ponto assumido por todos os estudiosos que o Concílio se desenrolou em redor de «a Igreja» (cujo estudo se chama academicamente «Eclesiologia»). Foi essa a intenção de João XXIII e de Paulo VI, e é em volta desse tema que giram as quatro constituições conciliares: na SC a Igreja revela-se como «Igreja em oração», na LG como «Povo de Deus», na GS como «Igreja no mundo», e na DV como «Esposa do Verbo».
São essas as quatro faces da Igreja que é preciso interiorizar: a Igreja é mistério, a Igreja é comunidade religiosa, a Igreja interessa-se pelo mundo, a Igreja alimenta-se e é guardiã da Palavra de Deus. A Igreja como instituição administrativa visível, a que o mundo chama «o Vaticano», é uma face histórica, mas não podemos ficar aí. Quem não o fizer, falará da Igreja como um agnóstico e sociólogo.
3 Para os crentes, as raízes do mistério da Igreja coloca-as o Concílio na Santíssima Trindade como aparece na celebração da missa, e não somente em Cristo, como era habitual fazer-se até há pouco; o Concílio deu um maior relevo à presença e ação do Espírito Santo na liturgia e na vida da Igreja; Jesus Cristo é a cabeça da Igreja sobretudo pelo seu mistério pascal; a Palavra de Deus deve circular mais na catequese, na pregação, nos retiros, na vida de piedade de cada cristão; o que define as antigamente chamadas verdades eternas (Morte, Juízo, Purgatório, Inferno e Paraíso) não são lugares para onde se vai, mas estados interiores de maior ou menor união a Jesus Cristo; a Igreja vive já a fase escatológica ou final pela união a Jesus ressuscitado, ainda que a etapa da total clareza aconteça somente depois da morte (todo o homem, mesmo o não cristão, está vinculado a Jesus pela sua encarnação e redenção); a Igreja é inseparável do mundo, e a vida cristão também, de modo que todo o mistério da salvação inclui uma relação com o mundo. Essa relação da Igreja com o mundo fez nascer um corpo doutrinário sobre ética social a que chamamos «Doutrina Social da Igreja» e que deve ensinar-se aos fiéis a seguir ao «Catecismo» das verdades da fé e da moral.
4 Os Bispos e o Papa formam um «colégio», sendo o Papa a cabeça (não só honorífica, mas jurídica); os Bispos diocesanos não são, contudo, delegados do Papa e gozam nas suas dioceses de uma certa autonomia. A vivência prática da colegialidade e da autonomia das dioceses são pontos ainda a precisar de mais estudo e isso terá grandes reflexos no diálogo com os cristãos não católicos.
O Concílio integrou a reflexão sobre Nossa Senhora na Igreja: Maria tem uma relação privilegiada com a Trindade – filha predileta do Pai, Mãe de Cristo e, consequentemente, Mãe de Deus, esposa e templo do Espírito Santo – e na Igreja é membro eminente e modelo. Maria não pertence à hierarquia, pertence ao número dos cristãos com dons carismáticos, isto é, aqueles a quem foram dados carismas ou dons especiais para bem de toda a Igreja. Pela Maternidade divina e dons anteriores e consequentes (Imaculada, Virgindade, Assunção), Maria supera todos os cristãos, mesmo aquelas que possuem dons hierárquicos.
5 Na sequência da eclesiologia vinculada ao mundo, o cristão leigo deve rever a sua atitude perante o mundo. Deve acrescentar à prática religiosa o esforço e a competência em ajudar o mundo a evoluir. Esta é a grande mudança mental e comportamental a fazer na cultura católica tradicional. Ao sair da igreja onde foi rezar sozinho ou celebrar comunitariamente a fé ou participar nas exéquias de alguém, o leigo tem de olhar para o mundo como a sua área específica de trabalho e de santificação porque o progresso, embora seja distinto do reino de Deus, pode contribuir muito para a implantação desse reino e ser um meio de amar o próximo. Lembremos a vantagem das estradas, dos meios de comunicação, da instrução do povo para exercer o direito de cidadania, para poder usar a Bíblia e os catecismos, da saúde para tornar mais leve a vida de família, da honestidade nas oficinas, na administração pública e na vida política. Numa palavra, a Eternidade e a História devem andar de mãos dadas, a primeira como perspetiva de vida e a segunda como lugar de ação.
Por este amor e empenho no mundo, tem de desenvolver-se muito mais a consciência e o papel dos leigos no mundo. Ainda que eles possam e devam ajudar no interior da Igreja (catequistas, leitores, cantores, ministros da comunhão), o seu papel específico é no mundo onde devem agir com «competência profissional» e «consciência cristã». Está aqui o nó górdio da mudança da civilização e do mundo! É o martírio dos leigos! Há leigos que são dedicados dentro das igrejas, mas falham nos compromissos no mundo pautando a sua vida unicamente pelo partido político ou pelo sindicato, e não pela consciência cristã. Essa separação é o desastre dos leigos e, de certo modo, o desastre da presença da Igreja.
6 A Igreja, como Povo de Deus, é chamada a promover a santidade de todos os seus filhos mas esses filhos caminham devagar, e muitos vivem em estado de pecadores. Não deixam, por isso, de ser cristãos, e devem frequentar no seu nível os atos de culto. Os divorciados, por exemplo, devem frequentar a missa, embora não comunguem, como acontece a muitos cristãos que, por outras questões da sua vida pessoal, também não podem receber a absolvição. Jesus chamou e aceitou os pecadores e deu- -lhes tempo para se arrependerem.
Sendo a Igreja a Igreja da Verdade, os cristãos vivem da Verdade que já realmente possuem em Cristo. Todavia, alguns vivem somente «aproximados» da Verdade e da Certeza, têm algumas dúvidas e sentem-se incapazes de relacionarem as verdades umas com as outras. Criam sistemas filosóficos e teológicos distintos e são, de algum modo, pecadores da inteligência. A Igreja, assim como aceita os pecadores morais, aceita esses caminheiros da Verdade. Por isso, o Concílio não usa o dilema alternativo «ou ou», excluindo e até perseguindo os que se desviaram de alguns aspetos de doutrina, mas usa a copulativa misericordiosa «e e», convidando sempre a maior clarificação da inteligência. Assim como há o apostolado da vontade em ordem à Moral, deve desenvolver-se o apostolado da inteligência em ordem à Verdade. O cristão deve andar atento ao «reto agir moral» e também ao «reto pensar doutrinário», isto é, à ortopráxis, e a ortodoxia.
* Bispo Emérito de Vila Real



