IgrejaSíntese das Constituições

Síntese das Constituições

Quem seguiu até aqui as reflexões que venho a fazer sobre o Concílio Vaticano II e, nomeadamente, sobre as quatro Constituições, merece uma medalha olímpica. Vou tentar fazer uma síntese das linhas de força das quatro constituições, ainda que isso seja um risco, pois o verdadeiro resumo do Concílio só se consegue lentamente, lendo e cruzando os documentos, como recomendava o cardeal António Ribeiro.

O leitor mais ambicioso pode encontrar esse resumo no livrinho de G. Martelet- Linhas mestras do Vaticano II, obra que o cardeal H. De Lubac classificou de «profunda e original», editada em vernáculo há vários anos pelo Apostolado da Oração, Braga.

2 É ponto assumido por todos os estudiosos que o Concílio se desenrolou em redor de «a Igreja» (cujo estudo se chama academicamente «Eclesiologia»). Foi essa a intenção de João XXIII e de Paulo VI, e é em volta desse tema que giram as quatro constituições conciliares: na SC a Igreja revela-se como «Igreja em oração», na LG como «Povo de Deus», na GS como «Igreja no mundo», e na DV como «Esposa do Verbo».

São essas as quatro faces da Igreja que é preciso interiorizar: a Igreja é mistério, a Igreja é comunidade religiosa, a Igreja interessa-se pelo mundo, a Igreja alimenta-se e é guardiã da Palavra de Deus. A Igreja como instituição administrativa visível, a que o mundo chama «o Vaticano», é uma face histórica, mas não podemos ficar aí. Quem não o fizer, falará da Igreja como um agnóstico e sociólogo.

3 Para os crentes, as raízes do mistério da Igreja coloca-as o Concílio na Santíssima Trindade como aparece na celebração da missa, e não somente em Cristo, como era habitual fazer-se até há pouco; o Concílio deu um maior relevo à presença e ação do Espírito Santo na liturgia e na vida da Igreja; Jesus Cristo é a cabeça da Igreja sobretudo pelo seu mistério pascal; a Palavra de Deus deve circular mais na catequese, na pregação, nos retiros, na vida de piedade de cada cristão; o que define as antigamente chamadas verdades eternas (Morte, Juízo, Purgatório, Inferno e Paraíso) não são lugares para onde se vai, mas estados interiores de maior ou menor união a Jesus Cristo; a Igreja vive já a fase escatológica ou final pela união a Jesus ressuscitado, ainda que a etapa da total clareza aconteça somente depois da morte (todo o homem, mesmo o não cristão, está vinculado a Jesus pela sua encarnação e redenção); a Igreja é inseparável do mundo, e a vida cristão também, de modo que todo o mistério da salvação inclui uma relação com o mundo. Essa relação da Igreja com o mundo fez nascer um corpo doutrinário sobre ética social a que chamamos «Doutrina Social da Igreja» e que deve ensinar-se aos fiéis a seguir ao «Catecismo» das verdades da fé e da moral.

4 Os Bispos e o Papa formam um «colégio», sendo o Papa a cabeça (não só honorífica, mas jurídica); os Bispos diocesanos não são, contudo, delegados do Papa e gozam nas suas dioceses de uma certa autonomia. A vivência prática da colegialidade e da autonomia das dioceses são pontos ainda a precisar de mais estudo e isso terá grandes reflexos no diálogo com os cristãos não católicos.

O Concílio integrou a reflexão sobre Nossa Senhora na Igreja: Maria tem uma relação privilegiada com a Trindade – filha predileta do Pai, Mãe de Cristo e, consequentemente, Mãe de Deus, esposa e templo do Espírito Santo – e na Igreja é membro eminente e modelo. Maria não pertence à hierarquia, pertence ao número dos cristãos com dons carismáticos, isto é, aqueles a quem foram dados carismas ou dons especiais para bem de toda a Igreja. Pela Maternidade divina e dons anteriores e consequentes (Imaculada, Virgindade, Assunção), Maria supera todos os cristãos, mesmo aquelas que possuem dons hierárquicos.

5 Na sequência da eclesiologia vinculada ao mundo, o cristão leigo deve rever a sua atitude perante o mundo. Deve acrescentar à prática religiosa o esforço e a competência em ajudar o mundo a evoluir. Esta é a grande mudança mental e comportamental a fazer na cultura católica tradicional. Ao sair da igreja onde foi rezar sozinho ou celebrar comunitariamente a fé ou participar nas exéquias de alguém, o leigo tem de olhar para o mundo como a sua área específica de trabalho e de santificação porque o progresso, embora seja distinto do reino de Deus, pode contribuir muito para a implantação desse reino e ser um meio de amar o próximo. Lembremos a vantagem das estradas, dos meios de comunicação, da instrução do povo para exercer o direito de cidadania, para poder usar a Bíblia e os catecismos, da saúde para tornar mais leve a vida de família, da honestidade nas oficinas, na administração pública e na vida política. Numa palavra, a Eternidade e a História devem andar de mãos dadas, a primeira como perspetiva de vida e a segunda como lugar de ação.

Por este amor e empenho no mundo, tem de desenvolver-se muito mais a consciência e o papel dos leigos no mundo. Ainda que eles possam e devam ajudar no interior da Igreja (catequistas, leitores, cantores, ministros da comunhão), o seu papel específico é no mundo onde devem agir com «competência profissional» e «consciência cristã». Está aqui o nó górdio da mudança da civilização e do mundo! É o martírio dos leigos! Há leigos que são dedicados dentro das igrejas, mas falham nos compromissos no mundo pautando a sua vida unicamente pelo partido político ou pelo sindicato, e não pela consciência cristã. Essa separação é o desastre dos leigos e, de certo modo, o desastre da presença da Igreja.

6 A Igreja, como Povo de Deus, é chamada a promover a santidade de todos os seus filhos mas esses filhos caminham devagar, e muitos vivem em estado de pecadores. Não deixam, por isso, de ser cristãos, e devem frequentar no seu nível os atos de culto. Os divorciados, por exemplo, devem frequentar a missa, embora não comunguem, como acontece a muitos cristãos que, por outras questões da sua vida pessoal, também não podem receber a absolvição. Jesus chamou e aceitou os pecadores e deu- -lhes tempo para se arrependerem.

Sendo a Igreja a Igreja da Verdade, os cristãos vivem da Verdade que já realmente possuem em Cristo. Todavia, alguns vivem somente «aproximados» da Verdade e da Certeza, têm algumas dúvidas e sentem-se incapazes de relacionarem as verdades umas com as outras. Criam sistemas filosóficos e teológicos distintos e são, de algum modo, pecadores da inteligência. A Igreja, assim como aceita os pecadores morais, aceita esses caminheiros da Verdade. Por isso, o Concílio não usa o dilema alternativo «ou ou», excluindo e até perseguindo os que se desviaram de alguns aspetos de doutrina, mas usa a copulativa misericordiosa «e e», convidando sempre a maior clarificação da inteligência. Assim como há o apostolado da vontade em ordem à Moral, deve desenvolver-se o apostolado da inteligência em ordem à Verdade. O cristão deve andar atento ao «reto agir moral» e também ao «reto pensar doutrinário», isto é, à ortopráxis, e a ortodoxia.

 

* Bispo Emérito de Vila Real

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